Por: André | 16 Novembro 2013
Juan Carlos Scannone surpreende-se pelo fato de que o L’Osservatore Romano tenha publicado um artigo seu: “Diante dos abismos que dividem os pobres dos ricos”. Pede confirmação. Acaba de completar 80 anos (de fato festejou esta semana no histórico colégio jesuíta de Salvador de Buenos Aires) e o jornalista da Santa Sé raramente se havia ocupado dele. E agora, de repente, uma entrevista no começo de abril sobre seu aluno Bergoglio e um artigo sobre a Filosofia da Libertação! A entrevista teve uma segunda parte.
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| Fonte: http://bit.ly/1eQa2gp |
A reportagem é de Alver Metalli e publicada no sítio Vatican Insider, 14-11-2013. A tradução é de André Langer.
“Em meados de abril, recebi uma carta de Bergoglio escrita a mão”, conta Juan Carlos Scannone. “Correio Aéreo” eram as únicas palavras que não foram escritas pessoalmente; tudo o mais, sim, inclusive o seu próprio endereço: F. Casa Santa Marta. Città del Vaticano. “Querido Cachito...”. Dirigiu-se a ele com o diminutivo com que é chamado na residência dos jesuítas de San Miguel, e agradeceu-lhe pela entrevista. “Contas apenas as coisas boas e não as ruins...”, escreveu-lhe. No mesmo envelope iam alguns santinhos com o Cristo ressuscitado.
Na realidade, esta foi a segunda vez que o Papa Francisco dirigiu-se a ele. A primeira foi porque Scannone havia enviado a Roma, onde se encontrava antes de começar o Conclave, uma carta sobre uma rede latino-americana sobre o pensamento social da Igreja que ele, Carlos Ferrer (patrocinada por dom Mario Toso, secretário do Pontifício Conselho Justiça e Paz) e outros argentinos haviam criado “para dizer algo, na linha do que nós desejamos, ao novo Papa que será eleito...”.
Na divisão das tarefas, coube a Scannone transmitir a notícia da recém criada rede aos cardeais Rodríguez Maradiaga, Francisco Javier Errázuriz Ossa e, justamente, Bergoglio. “Estavam em Roma, assim que enviei a carta por correio ao endereço eletrônico da Cúria de Buenos Aires, pedindo o favor de que a enviassem para onde se encontrassem”.
E todos sabemos o que aconteceu com Bergoglio... Poucos dias depois, o Papa Francisco escreveu a Scannone para lhe agradecer pela carta e por outros motivos que o velho professor do atual Bispo de Roma prefere guardar para si.
Scannone, teólogo da libertação, sempre se sentiu apoiado por Bergoglio quando era seu superior. “Ele conhecia meus escritos”, indicou. “Não posso dizer que estivesse de acordo, mas seguramente os aprovava, tanto é certo que na época dos militares, quando escrevia sobre Teologia da Libertação, ele os lia; e quando os bispos lhe perguntavam sobre mim, me defendia dizendo que minhas posições eram eclesiais”.
Além disso, Scannone recordou, que era o próprio Bergoglio que o incitava a seguir publicando. “Quando as revistas internacionais me pediam contribuições... lembro da Christus, do México, sobre a relação teoria-práxis na Teologia da Libertação, a Concilium... ele me animava a aceitar, e me aconselhava a não enviar o artigo pela agência de correio de San Miguel, mas do correio central de Buenos Aires, para evitar a censura à qual pensava que poderia ser submetido aqui”.
O padre Scannone sabia que os militares da ditadura o estavam vigiando. “Bergoglio, como provincial, tinha relações com os capelães militares, e estes o orientavam para que tivesse cuidado comigo, porque estavam me vigiando”. Por este motivo Bergoglio o aconselhava a ser prudente. “Me dizia para que nunca andasse sozinho pelo bairro, porque caso me sequestrassem para que houvesse testemunhas para poder intervir. Nesse tempo frequentava um bairro que se chama La Manuelita; também viviam ali os assuncionistas, que estudavam no Colégio jesuíta. Seu superior era o padre Jorge Óscar Adur; um dia, os militares foram buscá-lo, mas não o encontraram, e por esta razão levaram dois seminaristas, que desapareceram para sempre. Era o dia 04 de julho de 1976, lembro muito bem porque para mim era uma data especial. Eles não tinham nada a ver com a subversão; o padre Adur exilou-se na França, mas em junho de 1980, quando o Papa foi ao Brasil, também ele viajou para encontrar-se com uma irmã; estava em Porto Alegre, mas, quando estava viajando para encontrar-se com ela, desapareceu. Provavelmente, as sinergias da Operação Condor”. E Juan Carlos Scannone viu muitas histórias parecidas.
“Era muito amigo do padre Jorio [sequestrado com Francisco Jalics, em 1977, ndr.]. Bergoglio vivia aqui e me contava o que estavam fazendo por eles. Sobretudo, saber quem os havia levado, se era o Exército, a Marinha, a Aeronáutica ou a polícia. Mediante os capelães militares soube depois que havia sido a Marinha. Por esta razão, me disse Jorio, não foram torturados. A tortura consistia em deixá-los vários dias com os olhos vendados e amarrados, com os carcereiros urinando e defecando em cima deles.”
Depois de presos, se deram conta de que eram inocentes. Então deixaram que tomassem banho, deram-lhes roupa e os transportaram de helicóptero, enquanto dormiam, para abandoná-los em um lugar descampado.
Outro caso que Scannone não pode esquecer é o sequestro de um de seus alunos, que se chamava Álvarez. “Bergoglio comprovou que era inocente, mas o jovem viu o rosto de um de seus torturadores, e isto o condenava à morte. Foi falar com o responsável pela unidade que o mantinha preso; disse-lhe que o assassinato de um inocente, sabendo que era inocente e só porque havia visto o rosto de seu torturador, era um pecado gravíssimo. ‘Se acredita no inferno – me contou –, saiba que o pecado é de inferno’. E salvou-lhe a vida”.
