10 Junho 2013
Na Igreja, a autoridade nunca pode ser poder, mas apenas serviço.
A opinião é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 08-06-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
"Se alguém aspira ao episcopado, então deseja um trabalho nobre", assim escrevia São Paulo ao discípulo Timóteo. Mas assim o episcopado significava expor-se a desconfianças e hostilidades por parte da sociedade, pôr-se a serviço de pobres comunidades marginalizadas e às vezes perseguidas, colocar no próprio horizonte a eventualidade nada remota do martírio.
Há muito tempo, a situação mudou profundamente, e hoje o episcopado aparece como um cargo cheio de privilégios, para o qual as palavras usadas pelo Papa Francisco – "Deus não abençoa aqueles que querem se tornar papa!" – podem soar muito fortes. E são fortes, exigentes, assim como o evangelho é exigente.
O Papa Francisco não perde uma oportunidade para reafirmar de modo eficaz a sua preocupação de que prevaleça na Igreja uma visão mundana de poder, um carreirismo e uma busca de vantagens e privilégios que não se adaptam aos discípulos de um Senhor condenado pelo poder civil e religioso do seu tempo.
O Papa Francisco não tem medo de parecer contra a corrente, de usar palavras pouco diplomáticas, de forçar os tons para salvaguardar ao ministério episcopal a sua dimensão fundamental de serviço prestado aos fiéis, começando pelos mais pobres, pelos pequenos, pelos indefesos.
O "nobre trabalho" do qual São Paulo falava é, então, o ministério daqueles que fazem da solicitude por todas as comunidades cristãs a própria obsessão cotidiana, daqueles que se põem a lavar os pés dos próprios irmãos com o gesto típico do escravo, daqueles que se inclinam sobre a ovelha ferida para carregá-la sobre as costas, daqueles que estão prontos para dar a vida para defender o próprio rebanho, como muitos bispos fizeram na história, até Dom Oscar Romero.
Então entendemos melhor que quem guia a Igreja de Roma, fecundada pelo sangue dos mártires Pedro e Paulo, pode dizer que, se alguém quer se tornar papa, humanamente falando, não quer bem a si mesmo, porque sabe que, se viver aquele serviço segundo o Evangelho, irá ao encontro de incompreensões, sofrimentos e tribulações.
E, por outro lado, Deus não abençoa aqueles que "querem" se tornar papa porque não pode abençoar aqueles que buscam o poder e a glória mundanos, próprios dos grande deste mundo, que se impõem sobre os súditos e gostam de se chamar de benfeitores...
"Entre vocês não é assim!", afirma Jesus, mostrando com a sua vida doada até o final a natureza e a qualidade da comunhão vivida com os irmãos. Realmente, na Igreja, a autoridade nunca pode ser poder, mas apenas serviço.