03 Março 2013
"Antes da reforma da Cúria ou de qualquer outra coisa, é preciso começar da intenção fundamental de Bento XVI: ele quis remontar às origens apostólicas, recomeçar do Evangelho, definir a renovação da Igreja a partir da essência da fé. Devemos começar daí".
A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 02-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
O cardeal que está se preparando para as "congregações gerais" de segunda-feira – "por enquanto, há apenas encontros privados, mas ainda é cedo, não se deve esperar muita coisa" – tem uma sólida fama de "progressista", prefere não aparecer em um momento tão delicado e, em suma, não tem o problema de velar o seu próprio pensamento, o tom é convicto. Esse renomado purpurado é um eleitor que, no último conclave de 2005, facilmente seria situado no "fronte" oposto ao de Joseph Ratzinger.
Será que já àquela época a clássica distinção entre "conservadores" e "progressistas" mostrava a sua trama, se é que alguma vez serviu para entender uma realidade fugaz e complexa como o conclave? Ou será que, em 2005, tudo parecia mais fácil: de um lado, Ratzinger, e, de outro, o cardeal Carlo Maria Martini, as duas "grandes almas" que dividiam o campo entre si, embora, no fundo, estavam ligados por uma profunda estima recíproca?
O fato é que o pontificado de Bento XVI, dentre outras coisas, contribuiu para aniquilar esse esquema. Se se quiser, com todas as nuances do caso, nos conciliábulos e nas frases dos cardeais também é possível retraçar outro esquema: o confronto entre ratzingerianos e não (senão anti) ratzingerianos.
O camerlengo Tarcisio Bertone selou o apartamento, o decano Angelo Sodano convocou formalmente os cardeais já presentes em grande parte em Roma. Está tudo pronto. E é nas nuances em torno dos mesmos temas que se nota a diferença. O "papa emérito" continua sendo o ponto de referência. Na sua Declaratio, ele indicou duas características fundamentais do sucessor: terá que "guiar o barco de São Pedro" e "anunciar o Evangelho". Mas como?
Há aqueles que apreciaram a "grandeza" de renúncia e aqueles que, no fundo, temem-na como uma "dessacralização" do papado. Mas não é só isso. O modo de enfrentar os escândalos da pedofilia é exemplar, também representa a ideia da relação entre a Igreja e o mundo, em vista da própria "evangelização".
A linha ratzingeriana de transparência ("a maior perseguição da Igreja nasce do pecado dentro dela"), com relativa remoção de dezenas de bispos, encontrou muitas resistências. Como quando Bento XVI "pediu" que o cardeal O'Brien não fosse a Roma. E, certamente, continua havendo a tensão entre aqueles que se preocupam principalmente com a ''instituição" e aqueles que estão determinados a lavar roupa suja em público.
Mesmo com relação à "reforma da Cúria", por exemplo, alternam-se ao menos dois caminhos: aqueles que a querem mais forte e mais eficiente, "romana", fundamentada em uma sólida relação com as nunciaturas – o "partido" diplomático dos curiais como Sodano ou Piacenza – e aqueles que, ao invés, imaginam uma cúria mais leve, instrumento de uma relação mais "colegial" entre Pedro e os outros bispos.
Com um quorum para a eleição de dois terços, as congregações servirão para isto: para buscar, por necessidade, um papável "vigoroso" e carismático, capaz de fazer sínteses. Sabendo que não se trata de algo óbvio: "O idoso e 'conservador' Roncalli convocou o Concílio. E os dois maiores reformadores da Cúria no século XX, Pio X e Paulo VI, não haviam sido eleitos para isso...".