A fumaça preta de Bertone: a mídia envenena o conclave

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24 Fevereiro 2013

Socorro, agridem o conclave! Às vésperas do último Ângelus de Bento XVI, o cardeal secretário de Estado, Bertone, acusa a mídia de atentar contra a "liberdade do Sacro Colégio, ao qual cabe prover a eleição do pontífice romano". Aterrorizado com a difusão das pseudorrevelações sobre o dossiê dos três cardeais após a investigação sobre o Vatileaks – uma fantasmagórica rapsódia sobre sexo e dinheiro na Cúria –, assustado com a difusão de notícias desagradáveis na imprensa internacional, o cardeal Bertone elabora um comunicado oficial para dizer que, se no passado, as potências políticas tentavam influenciar os conclaves, agora alguém quer jogar a carta do "peso da opinião pública" para poluir a escolha do futuro papa.

A reportagem é de Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 24-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"É deplorável", decreta o secretário de Estado, que, com a aproximação do conclave, quando "os cardeais eleitores serão obrigados, em consciência e diante de Deus, a expressar em plena liberdade a própria escolha, se multiplique a difusão de notícias muitas vezes não verificadas ou inverificáveis, ou mesmo falsas, também com graves danos a pessoas ou instituições".

Dias atrás, o Papa Ratzinger acusava os meios de comunicação de terem criado um Concílio Vaticano II falso. Agora, da tragédia, cai-se na comédia. Pensar que artigos de jornal – qualquer que seja o seu conteúdo – possam intimidar os cardeais eleitores, não tem cabimento.

Trata-se de mais um bumerangue que se volta contra uma Secretaria de Estado, que, em vez de esvaziar as polêmicas, as atiça. Escapa, de quem decidiu um passo tão clamoroso, que teria sido melhor publicar o conteúdo do dossiê secreto dos três cardeais, entregue ao papa no dia 17 de dezembro, porque é de interesse de todos os fiéis saber o que acontece na Cúria. E ainda melhor confiar a uma comissão independente a investigação sobre a corrupção no Vaticano, denunciada por Dom Viganò, punido depois com a transferência a Washington.

Não escapou de ninguém no Vaticano, porém, que a defesa da liberdade do Colégio Cardinalício caberia ao cardeal decano Angelo Sodano. Que, ao contrário, se calou.

Aproximamo-nos do conclave, portanto, com esse testemunho extremo da desorientação da qual é presa o governo da Igreja universal. Entre os cardeais, ainda reina uma grande incerteza. Só com dificuldade começam a se delinear as várias facções. O cardeal Tarcisio Bertone entra no conclave com uma patrulha de fidelíssimos curiais: Domenico Calcagno, presidente da Administração do Patrimônio Apostólico; Giuseppe Versaldi, responsável pela Prefeitura para os Assuntos Econômicos da Santa Sé; Giuseppe Bertello, responsável pelo Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano. Bertone tentará de todas as maneiras fazer alianças para não permanecer marginalizado no pós-Ratzinger.

O núcleo dos conservadores radicais da Cúria é liderado por Mauro Piacenza, prefeito da Congregação para o Clero, decidido defensor do "sagrado celibato" e opositor de qualquer mudança. O pedido de conceder o sacerdócio às mulheres, para ele, "não tem qualquer fundamento".

Em nível internacional, certamente farão parte dessa facção os espanhóis Antonio Cañizares, prefeito da Congregação para o Culto; e Antonio Rouco Varela, arcebispo de Madri. Também decidido na defesa das trincheiras tradicionais é o cardeal de Sydney, George Pell, que recentemente se pronunciou a favor de um papa italiano. "Acredito que ele pode ter uma vantagem inicial", declarou, explicando que um pontífice latino-americano só será possível "nos próximos cem anos".

São os primeiros pequenos sinais, dos quais se intui que a facção conservadora aponta para um papável da Itália. O nome mais citado frequentemente é o de Angelo Scola, arcebispo de Milão, mas também o de Angelo Bagnasco, presidente da Conferência Episcopal Italiana. Nem um nem outro revelaram até agora sobre quais conteúdos o próximo papado deverá se definir.

No campo reformador, diferentemente de 2005, não há um líder internacionalmente reconhecido como o então cardeal Martini. Mas há purpurados cuja abertura é conhecida: Karl Lehmann, ex-presidente histórico do episcopado alemão; o brasileiro Claudio Hummes, ex-prefeito da Congregação para o Clero; o português Policarpo da Cruz.

Quem se prepara para desempenhar um papel à parte, de conexão entre ratzingerianos e reformadores, é o arcebispo de Viena, Christoph Schönborn, acostumado a dialogar na Áustria com os grupos que representam as instâncias reformadoras mais radicais.

Muito discreto, mas defensor de uma práxis colegial na cúpula da Igreja é o cardeal Walter Kasper, ex-presidente do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos. É sua a proposta de que se analise o que é propriamente de competência do pontífice, o que o papa deveria fazer junto com os bispos, e o que deveria ser confiado à decisão das conferências episcopais nacionais.

Mas, em última instância, o próximo conclave se encontra tomando uma decisão de fundo sobre a direção estratégica a ser dada à Igreja Católica. O confronto é entre apocalípticos e aberturistas. Entre quem julga a secularização como um demônio, e quem quer se relacionar com o mundo moderno de forma aberta.

No último Sínodo sobre a Nova Evangelização, o cardeal norte-americano Donald Wuerl denunciou o "tsunami da secularização", que desmantelou antigos valores. Em contraste, o filipino Luis Tagle, de Manila, evocou uma Igreja "humilde e respeitosa" com relação aos seus contemporâneos.

O conclave terá que escolher: ou do lado de cá, ou do lado de lá.