20 Fevereiro 2013
"Ele não pode tocar nem em um garfo", resumem na Cúria. A menos que ele mesmo promulgue logo um motu proprio para mudar as normas em vigor, a transferência de Bento XVI será reduzida até o osso. Já é uma exceção a a retirada de dois meses para a residência pontifícia de Castel Gandolfo, que, por lei, deveria ser selada assim como o apartamento no Vaticano, mas é preciso reestruturar o mosteiro Mater Ecclesiae e evitar oportunidades de encontro com os conclavistas alojados na casa vizinha Santa Marta.
A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada no jornal La Stampa, 18-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Joseph Ratzinger poderá levar consigo apenas o piano, os presentes (por exemplo, os gatos de cerâmica), as cartas privadas, os pertences pessoais. Todo o resto permanecerá no Palácio Apostólico: mobiliário, cartas de escritório, objetos doados ao apartamento (quadros, esculturas sacras, móveis). Desta vez, portanto, Ratzinger terá que "viajar leve".
Ida pesada, retorno "light". Em abril de 2005, como papa recém-eleito, ele organizou a sua transferência da casa da praça da Città Leonina para o Terceiro Andar, levando consigo as suas cartas privadas, uma série de pastas de escritório e de caixas, fruto dos estudos e do trabalho de uma vida inteira. Ao contrário, desta vez, ele terá mil restrições. No dia 1º de março, no seu primeiro dia após a renúncia como papa, ele não poderá fazer a mesma coisa. A práxis diz que os apartamentos papais devem ser selados (mas isso não se aplicará ao de Castel Gandolfo) em caso de morte do pontífice, para poder levar todas as cartas, os livros e qualquer outra coisa para o Arquivo Secreto, onde é regra que tudo permaneça conservado e não divulgado por um certo número de anos, e, se assim for decidido, "enterrado" para sempre.
No seu testamento, Karol Wojtyla havia pedido para queimar todas as cartas depois da sua morte. O secretário, Dom Stanislaw Dziwisz, não o fez, e, quando Ratzinger encontrou a correspondência entre o antecessor e a amiga de juventude, Wanda Poltawska, a chamou e lhe entregou todas as cartas. "Elas pertencem à senhora", disse-lhe com delicadeza de ânimo.
Embora ainda não esteja fixado o seu título pós-renúncia, com toda a probabilidade Ratzinger se tornará bispo emérito de Roma e, como tal, receberá uma pensão de 2.500 euros [cerca de 6.500 reais]. Não terá, no entanto, o "piso cardinalício" de 5.000 euros [cerca de 13 mil reais], isto é, o subsídio mensal dos purpurados, a menos que o seu sucessor lhe confira "ex novo" o barrete vermelho.
Nos depósitos do outro lado do Tibre, ainda são conservados alguns dos seus móveis. Estão armazenados há oito anos: nunca foram levados para o apartamento pontifício, e provavelmente agora Ratzinger fará com que sejam entregues ao mosteiro.
Mas os juristas vaticanos se confrontaram com uma renúncia do papa, que, além disso, continuará vivendo no Vaticano, embora "escondido do mundo" em um pequeno convento de clausura nos jardins vaticanos. Mas a poucas centenas de metros do Palácio Apostólico e das suas "cartas", também aquelas privadas como teólogo e estudioso.
Sobre a questão do "sigilo" e dos arquivos papais, decisões definitivas ainda devem ser tomadas. "Perguntarei ao cardeal camerlengo Bertone, depois que ele se reunir com a Câmara Apostólica e se dará uma ideia precisa sobre essa questão", explica o padre Federico Lombardi. "Será feita uma distinção entre a documentação de escritório que se refere ao governo da Igreja, e a pessoal, por exemplo, as anotações da trilogia sobre Jesus". Em suma, a linha de distinção é clara. "O que for mais pessoal o acompanha, e o que for de escritório não o acompanha", especifica o Pe. Lombardi.
Mais complexo é o discurso sobre os milhares de livros de Ratzinger. Eles não podem entrar todos no pequeno mosteiro de clausura, mas o ex-papa viverá no Vaticano e, se precisar de um livro, não precisará fazer nada mais do que pedi-lo à Biblioteca Apostólica. O arcebispo Georg Gänswein, seu fiel secretário e prefeito da Casa Pontifícia, o ajudará na mudança, juntamente com o segundo secretário, o maltês Alfred Xuereb e as quatro "memores domini" que se ocupam de todas as incumbências diárias: limpar a casa, cozinha, tarefas domésticas.
O "bom retiro" é um edifício de quatro andares, com ambientes comunitários e 12 celas monásticas, uma ala nova de 450 metros quadrados, uma capela, o coro para as enclausuradas, a biblioteca, a galeria, uma cerca sempre-viva e uma robusta grade para delimitar a zona de clausura, e depois uma grande horta onde são cultivados pimentas, tomates, abobrinhas, repolho, limoeiros e laranjeiras.
É um pequeno mosteiro "normal", não fosse o fato de ser o único convento no coração da cidadela papal, a poucos passos de São Pedro e do Palácio Apostólico, que hospedará o sucessor de Bento XVI. A sua nova residência, para Joseph Ratzinger, é já agora a meta da oração, da recitação do terço e das caminhadas com Dom Georg.