17 Novembro 2012
A ordem religiosa que se inspira em Dom João Bosco corre o risco de falência pela apreensão de bens em 130 milhões de euros.
A reportagem é de Fiorenza Sarzanini, publicada no jornal Corriere della Sera, 13-11-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Os salesianos correm o risco de falência. O bloqueio dos bens poderia ocorrer na manhã dessa terça-feira, 13, ao término da audiência marcada perante o tribunal de Roma. E justamente para evitar as consequências de uma apreensão de 130 milhões de euros que aniquilaria a ordem religiosa fundada por Dom João Bosco é que o secretário de Estado do Vaticano, Tarcisio Bertone, intervém no julgamento.
E o faz com uma iniciativa clamorosa: uma carta já depositada nos autos na qual o cardeal admite ter sido fraudado e pede que o juiz Adele Rando mantenha aberta a investigação contra pessoas que "provocaram um dano a uma das maiores instituições educativas da Igreja Católica e se comportaram de modo reprovável com relação a mim".
A Santa Sé volta, portanto, ao centro de um caso judicial de bastidores controversos e às vezes incrível. A questão já se arrasta há nada menos do que 22 anos e, nos últimos cinco anos, foi marcada por uma negociação secreta que teve Bertone justamente entre os seus principais protagonistas. O suficiente para reacender aquele confronto dentro do Vaticano que já surgiu de forma marcante com a investigação sobre os "corvos" e o processo contra o mordomo do papa, Paolo Gabriele.
A herança disputada
Devemos voltar para o dia 5 de junho de 1990, quando Alessandro Gerini, conhecido como o "Marquês de Deus", morreu em Roma. O seu imenso patrimônio de imóveis, terrenos, dinheiro vivo e preciosas obras de arte foi deixado por herança à Fundação Gerini, entidade eclesiástica reconhecida pelo Papa Paulo VI em 1967 e colocada sob o controle da Congregação Salesiana. Os netos do nobre, no entanto, decidiram impugnar o testamento e iniciaram causas em âmbito civil, administrativa e canônica que se arrastam há anos.
São vários os mediadores que, nesse longo período, se assomaram ao palco, e, dentre eles, se destaca Carlo Moisè Silvera, negociador de 68 anos nascido em Alepo, na Síria, envolvido em algumas investigações da magistratura italiana ligadas justamente a problemas financeiros. Ele se considerava emissário dos herdeiros e propôs uma transação à Fundação e ao ecônomo dos salesianos, Pe. Giovanni Battista Mazzali.
Embora com milhares de dificuldade e obstáculos, foi iniciada uma negociação e, em 2007, o pacto entre as partes parecia estar próximo. Pensou-se na venda de alguns bens, e o árbitro da disputa passou a ser o advogado milanês Renato Zanfagna, da empresa GBH Spa, que obteve a opção de compra dos terrenos.
Os 16 milhões de euros
Oficialmente, o advogado e o negociador não se conhecem, ao invés, representam partes adversas. Mas em algumas circunstâncias parecem marchar lado a lado. Com o passar dos meses, Zanfagna se tornou o mais ouvido conselheiro do Pe. Mazzali. Ele assumiu um papel tão predominante a ponto de conseguir ter acesso até mesmo à Secretaria de Estado e obter conversas privadas com o cardeal Bertone. E assim, de fato, ele foi nomeado como único mediador da negociação.
No dia 8 de junho de 2007, exatamente 17 anos após a abertura do testamento do marquês Gerini, foi assinado o acordo em âmbito civil: para encerrar toda polêmica, a Fundação pagou 16 milhões. Cinco milhões vão para os sobrinhos do nobre, nada menos do que 11 milhões e meio para Silvera, que os representou. E não acabou por aí. Estabeleceu-se que o percentual para o negociador devia ser aumentado quando fosse efetuada a estimativa global de todo o patrimônio. A comissão de peritos – presidida justamente pelo advogado Zanfagna – estabeleceu que o patrimônio equivalia a cerca de 658 milhões de euros, de modo que a "comissão" para Silvera subiu para até 99 milhões de euros.
A denúncia de fraude
A Fundação não pagou, e em 2009 Silvera pediu a apreensão dos bens. Obteve-a no dia 18 de março de 2010. O tribunal de Milão colocou os "selos" sobre bens móveis e imóveis por 130 milhões de euros, incluindo juros. Em particular, a sede da direção-geral dos salesianos, na Via della Pisana, em Roma, e o fundo Polaris aberto em Luxemburgo para o depósito do dinheiro vivo. A contenda colocou em risco dessa vez a própria sobrevivência da Congregação. E assim, no dia 1º de fevereiro de 2012, a Fundação assistida pelo advogado Michele Gentiloni Silveri, denunciou Silveri, Zanfagna e outros profissionais que se ocupavam do caso por fraude. O ato foi assinado pelo presidente Pe. Orlando Dalle Pezze que especificou como o verdadeiro fraudado foi o ecônomo Pe. Mazzali.
"O acordo – está escrito na denúncia – é nulo, porque à Fundação e aos salesianos foi silenciado que a Corte de Cassação já havia declarado os herdeiros excluídos da herança. O advogado Zanfagna enganou os eclesiásticos, convencendo-os a assinar um pacto que favorece apenas ele e Silvera". A procuradoria de Roma iniciou a investigação, acusou os protagonistas, interrogou-os. Mas, no dia 11 de junho passado, pediu que o caso fosse arquivado. "Não houve nenhum engano, a transação é válida", defendeu o promotor público.
A carta de Bertone
Há dois meses, o secretário de Estado tentou a última e desesperada medida. Confiou ao advogado Gentiloni Silveri uma carta para ser entregue ao juiz. Bertone escreve: "Dei o consentimento à solução negociada, mas descobri somente depois que o valor do patrimônio havia sido inflado desmedidamente para aumentar a soma destinada a Silvera, empobrecendo e humilhando a atividade benéfica da Congregação".
O veredito do juiz chegaria na manhã dessa terça-feira. Se a investigação for arquivada, a apreensão dos bens se tornará operativa. E, para os salesianos, se abrirá o caminho da falência.