A intuição de Martini

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22 Outubro 2012

"A diocese de Milão teve no último século uma série de eminentes arcebispos, alguns já sobre os altares, enquanto dois também se tornaram papas. Acredito que o cardeal Martini figura dignamente nessa série, como também demonstrou o consenso popular dos seus diocesanos", afirma o padre jesuíta Gian Paolo Salvini em um artigo publicado na revista La Civiltà Cattolica, escrito por ocasião da morte do arcebispo emérito de Milão, Carlo Maria Martini.

A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada no blog Oltretevere, 14-10-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Embora com os limites que possa ter tido, como toda pessoa mortal, Martini escreveu uma página significativa na história da diocese lombarda. A sua capacidade de diálogo e o seu testemunho de fé fizeram da sua voz a expressão de uma Igreja capaz de falar ao nosso tempo e de suscitar uma confiança na mensagem evangélica que muitos pareciam ter perdido", escreve o padre Salvini.

"Em certo sentido, Martini – acrescenta o padre jesuíta – acompanhou a Igreja na sua evolução. Ele teve uma formação à moda antiga, mas como poucos soube intuir o novo e acompanhar o esforço da Igreja para compreender as ansiedades e as esperanças do mundo (como diz a Gaudium et Spes) e para propor a fé e a boa notícia em modos adaptados aos novos tempos, sem nunca perder de vista o essencial".

Em muitas coisas, o cardeal Martini foi "unido pela Providência ao destino de João Paulo II, embora tão diferente dele em temperamento: morreu por causa da mesma doença, na mesma idade (85 anos), afetado também ele na faculdade da fala que ele havia privilegiado, e testemunha também como aquele papa na doença, de uma vontade que não se rende e que transforma a própria situação de sofrimento em uma cátedra muda, quando a voz havia se tornado apenas um sussurro, mas muito eloquente em um mundo onde as palavras são muitas vezes 'podres' e ineficazes".

E Martini também, como o Papa Wojtyla, "nunca se rendeu e continuou lutando até o fim para se comunicar, para testemunhar uma esperança que não morre, mesmo que a luta, no fim, o tenha desgastado tanto, como repetiu, a ponto de viver a morte como a última confiança em Deus".

Observa o padre Salvini: "Talvez não é arriscado repetir o que Ludwig von Pastor refere na sua História da Igreja, no comentário de vários prelados à morte de São Carlos Borromeu, seu grande antecessor na cátedra de Milão: 'Apagau-se uma luz em Israel' . Mas acredito que o seu ensinamento, a sua luz continuarão brilhando e dando frutos também no futuro".

Segundo o padre Salvini, vale a pena gastar algumas palavras sobre as polêmicas que, na vida e na morte, acompanharam a figura do cardeal Martini e sobre as tentativas de se apropriar da sua personalidade, ou ao menos de distorcê-la. Escreve o ex-editor da revista da Companhia de Jesus: "Toda pessoa que é posta no alto é inevitavelmente exposta a esses riscos. Martini era bem consciente disso, mas nem por isso renunciou a falar e a dizer o que ele considerava oportuno para o bem da Igreja. Não é por nada que ele havia escolhido como lema 'pro veritate adversa diligere', frase que nunca se imaginou que julgaria a sua vida".

O padre Salvini lembra que, às vezes, Martini se calou "para não criar situações mais incômodas, como quando lhe foram atribuídas declarações inexatas ou até inexistentes, ou quando, com muito pouca correção, foram publicadas sem autorização conversas gravadas sem tê-lo avisado" (como no caso de uma longa conversa com o Pe. Luigi Verzè), ou foram usadas como "prefácio" cartas privadas, não destinadas à publicação, com indicações de incentivo, enviadas a alguns autores que lhe haviam enviado os esboços de um livro seu.

"Nisso, embora em dimensões obviamente reduzidas, Martini simplesmente compartilhou o destino dos papas do nosso tempo, feito de imagens e de furos. Nenhum pontífice ou bispo particularmente influente e ouvido pode passar o tempo desmentido, ou fazendo desmentir, o que lhe é atribuído por algum órgão de imprensa. A imprensa secular, mesmo quando tem as melhores intenções, é levada a interpretar eventos e pessoas – escreve o padre Salvini – em termos de poder, contrapondo 'progressistas' a 'conservadores', com uma lógica muito mais política do que espiritual. Evidentemente, a Igreja também tem uma dimensão humana e política que não pode ser ignorada".

Mas existem na Igreja especialmente dimensões espirituais, evangélicas e totalmente próprias, que "dificilmente se deixam captar por quem não tem 'intelecto de amor' pela própria Igreja e a sua missão". "Mas preferimos que seja a história que julgue esses aspectos, permitindo uma visão mais pacata da figura, do ensinamento e da ação do cardeal Martini e do que ele soube deixar sobretudo à Igreja, que ele profundamente amou, e ao nosso tempo inquieto, satisfeito e insatisfeito, porque corre o risco de perder o essencial, isto é, a fé que deve animá-lo", observa o padre Salvini.