07 Setembro 2012
Respirou-se um certo embaraço no Vaticano nestes dias por causa do inesperado banho de multidão registrado no funeral do cardeal Carlo Maria Martini. Mas, acima de tudo, pela forma como foi apresentada a sua figura, exaltada tanto pelos dotes de estudioso, quanto pelo forte compromisso social.
A reportagem é de Marco Ansaldo, publicada no jornal La Repubblica, 04-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Na Cúria, há quem ficou surpreso com a participação popular na catedral ambrosiana, com 200 mil pessoas na fila para prestar homenagem ao expoente mais representativo de um percurso de reforma da Igreja, mesmo que tenha sempre permanecido no sulco da doutrina. Um ponto de referência amado e respeitado pela autoridade. Testemunham os seus livros, de grande sucesso junto ao público, quase iguais aos do papa.
Mas o que faz levantar algumas sobrancelhas nas Salas Secretas foram algumas páginas que repropuseram o pensamento martiniano. Certamente não se elevaram aplausos na Cúria quando se leu a última entrevista em que o arcebispo emérito de Milão defendia que "a Igreja está 200 anos atrás".
Nem agradou a insistida referência ao fato de que, ainda durante o pontificado de João Paulo II, e particularmente no último conclave, Martini foi considerado como o possível papa reformista com relação ao candidato conservador.
Embaraços velados também por causa do caso que surgiu a respeito da sua rejeição da obstinação terapêutica. E depois por causa da reproposição contínua de alguns temas caros a ele, como a abertura aos casais de fato ou a comunhão para os separados e divorciados.
No último domingo, muitos fiéis esperavam que, no Ângelus, Bento XVI poderia dizer algumas palavras sobre o cardeal falecido. E se é verdade que é práxis que o papa se pronuncie nesse sentido da sacada, muitos esperavam que ele pudesse dar um sinal tangível, talvez até celebrando pessoalmente o funeral. A decisão que surgiu, ao contrário, foi de outro tipo.
Para representar o pontífice, foi enviado não um alto expoente da Secretaria de Estado, mas sim o cardeal Angelo Comastri, arcipreste de São Pedro e vigário do papa para a Cidade do Vaticano. Que, apresentando a mensagem de Joseph Ratzinger, também pressionou sobre as capacidades diplomáticas de Martini (pronto para o "diálogo com todos"), mas passando por alto sobre o seu compromisso social. Ao contrário, tentando apagar as polêmicas, Comastri disse: "O cardeal Martini é um filho da Igreja e não deve e não pode ser usado contra a Igreja".
Na última segunda-feira o porta-voz do movimento Nós Somos Igreja, Vittorio Bellavite, lembrando o cardeal falecido, comentou a "atenção às novas problemáticas postas por novos aspectos da convivência civil, particularmente aqueles solicitados pela pesquisa científica, sobretudo no campo bioético": "A diversidade desse magistério do habitual pareceu ser evidente, há muito tempo, muito além do mundo católico, a toda aquela parte da opinião pública que se interessa pelas grandes questões existenciais. Por meio de Martini, a mensagem do Evangelho foi ouvida por muitos que se sentem distantes das estruturas eclesiásticas e das suas políticas".