04 Setembro 2012
O cardeal Martini foi um verdadeiro candidato ao papado na segunda metade dos anos 1980 e no início dos anos 1990, mas não era mais no único conclave do qual participou, que foi o de 2005 que elegeu o cardeal Ratzinger. No entanto, ele teve um papel de primeiro plano nesse conclave e, sobretudo, no pré-conclave, um papel de "conselheiro", que foi segundo apenas daquele dominante do cardeal decano, que dele saiu eleito.
A reportagem é de Luigi Accattoli, publicada no jornal Corriere della Sera, 01-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
A data-chave para o parte desenvolvida por Martini nesse conclave é a da segunda-feira 11 de abril: estamos na metade da "sede vacante", Wojtyla morreu no dia 2 de abril, e Ratzinger será eleito no dia 19 de abril. Nessa segunda-feira, os cardeais reunidos na Congregação Geral iniciam a discutir a situação da Igreja e continuarão fazendo isso por toda a semana. O cardeal decano convida os coirmãos a indicar as prioridades a se levar em conta na escolha do novo papa e diz que estão abertas as inscrições para falar.
Martini é o primeiro a tomar a palavra. Ele indica dois "níveis" de atenção: um geral, onde coloca a obra de evangelização, o ecumenismo, os pobres e a paz; o outro, de questões particulares, acenando para a colegialidade a ser desenvolvida em todos os níveis da Igreja, à bioética, à família, à sexualidade.
Martini fala pelo tempo que tem à disposição – cinco minutos – e depois se senta. Nenhum outro ainda pediu a palavra, e o decano diz: "Coragem, ainda temos tempo para intervir", mas o Colégio parece intimidado nessa primeira rodada de opiniões. E eis que Martini se levanta de novo e diz: "Eu ainda teria coisas a dizer". E Ratzinger: "Fala de novo, de bom grado te ouvimos".
Ele retoma a palavra e obtém ainda um silêncio mais denso por parte dos 134 cardeais presentes. Ele especifica que vê como "necessário" desenvolver a "concertação" entre o papa e os bispos, realizando instrumentos novos de participação no governo da Igreja. Está convencido de que não bastam os atuais sínodos. Defende que sobre família, sexualidade e similares é necessário "buscar" uma nova linguagem para falar à humanidade de hoje e em particular aos jovens, uma geração inteira que corre o risco de ser "perdida" pela Igreja, ao menos na Europa.
Martini tinha então 78 anos recém-completos, já tremia por causa do Parkinson e usava a bengala. Era impensável que, depois de um papa parkinsoniano, fosse eleito outro minado pela mesma doença. Mas ele já não era mais há diversos anos um verdadeiro candidato ao papado, até por causa da mudança dos tempos e por causa do cansaço das ideias de reforma dentro da comunidade católica.
Os anos nos quais o cardeal Martini realmente é um possível papa – isto é, quando sacode no Colégio Cardinalício um consenso vasto e talvez preponderante, ao menos entre os cardeais do Norte do mundo – são aqueles em que ele ocupa o cargo de presidente do Conselho das Conferências dos Bispos da Europa, entre 1986 e 1993. É a época da queda do Muro e de utopias de paz e de nova evangelização, que atraem muitos ambientes cristãos.
Uma dúzia de anos depois, essas utopias serão enfraquecidas pela queda das estatísticas sobre a prática religiosa, pelo renovado conflito entre as religiões e pela desafeição dos jovens com relação às Igrejas históricas. Nesse novo clima, Martini pode desempenhar apenas o papel de conselheiro e o desenvolverá, no conclave e depois, para encorajar os seus próprios apoiadores a acolher com sincero apreço a eleição do papa teólogo e para apoiar a sua ação purificadora, ajudando-o por esse caminho a levar em conta de algum modo aquela agenda reformadora que ele havia exposto no pré-conclave.
Ratzinger e Martini desempenharam, paralelamente, um papel de primeiro plano ao longo de todo o pontificado do papa polonês. Um papel diferente, mas também amigo e equilibrado, marcado em várias ocasiões por João Paulo II que, para o 25º aniversário de pontificado – em 2003 – presenteou aos cardeais reunidos em Roma para festejá-lo um livro bíblico do cardeal Martini que tinha o prefácio do cardeal Ratzinger.