Martini e Ratzinger: um encontro sobre o futuro da Igreja

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31 Mai 2012

Entre as tantas pessoas que, entre sexta-feira e domingo, apertarão a mão do papa por ocasião da sua visita a Milão para o Encontro Mundial das Famílias, haverá também um idoso doente, que se move com dificuldade, auxiliando-se com uma bengala e que fala com um fio de voz. Seu nome é Carlo Maria Martini.

A reportagem é de Aldo Maria Valli, publicada no jornal Europa, 30-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O encontro está agendado para sábado à tarde, no palácio arquiepiscopal de Milão, onde Martini viveu por 22 anos, de 1980 a 2002. Foi o próprio Martini que pediu para ver Bento XVI.

E esse é o seu segundo pedido desde que está aposentado. Ele já o havia feito nas semanas precedentes à mudança de guarda entre Tettamanzi e Scola na cátedra de Santo Ambrósio, quando ainda não era certo que o novo arcebispo seria o patriarca de Veneza.

Daquela vez, disse-se que Martini queria discutir com Bento XVI acerca do perfil do sucessor de Tettamanzi, mas não foi assim.

Martini pediu uma audiência porque queria expressar as suas preocupações acerca do estado de saúde da Igreja. E se, agora, pela segunda vez, o arcebispo emérito de Milão voltou a bater na porta do papa, o motivo não mudou.

Ninguém poderia imaginar que o encontro entre Martini e o papa em Milão ocorreria enquanto uma tempestade sem precedentes enfurecia os sacros palácios vaticanos, e o mordomo de sua santidade se encontra na prisão sob a acusação de ter roubado documentos do apartamento papal. Mas a circunstância torna o encontro ainda mais rico de significado.

Martini, como já fez nas colunas do Corriere della Sera, expressará a Bento XVI solidariedade e estima, enquanto o sucessor de Pedro é submetido a uma prova tão dolorosa, mas também lhe pedirá para não ter medo de proceder com decisão no tratamento. "Que a Igreja perca o dinheiro – escreveu Martini – mas que não perca a si mesma. Porque o que aconteceu pode nos aproximar do Evangelho e ensinar a Igreja a não apontar para os tesouros da terra".

O encontro ocorrerá de forma privada, sem o contorno das câmeras.

E será só um parêntese entre os muitos compromissos de Bento XVI durante os três dias ambrosianos. Mas é difícil não atribuir ao face a face entre esses dois homens de 85 anos um quê de dramático.

Ratzinger e Martini interpretaram e continuam interpretando dois modos diferentes de amar a Igreja e agora ambos se encontram, na última parte de sua vida, à cabeceira dessa esposa doente e ultrajada, atingida na sua dignidade, não apenas por quem expõe em praça pública os seus segredos mais indecorosos, mas também, e antes ainda, por quem a transformou no terreno de cultivo de negocismo e carreirismo.

Joseph Ratzinger e Carlo Maria Martini, o teólogo bávaro e o jesuíta turinense, o professor de Tübingen e o reitor da Gregoriana, se olharão nos olhos e se perguntarão o que fazer. As suas esperanças eram fortes há meio século, quando o jovem Ratzinger, como principal colaborador do arcebispo de Munique, fazia parte do Concílio, entusiasmando-se com os temas da reforma eclesial, e o jovem Martini observava o desenrolar desse acontecimento histórico esperando que o conhecimento e a análise das sagradas escrituras pudessem finalmente ser valorizadas na Igreja Católica.

Na Quinta-Feira Santa, Bento XVI pediu aos padres a fidelidade à doutrina e disse que a desobediência não é um caminho. Ele disse isso respondendo explicitamente aos padres austríacos e de outros países europeus que optaram por dizer não a Roma sobre questões como o celibato dos presbíteros e a consagração ministerial das mulheres. Esses padres, assim como certos "corvos" vaticanos, também resolveram violar as leis da Igreja, de modo a introduzir um elemento de debate e a obrigar Roma a acertar as contas com a realidade. É verdade, a desobediência não é um caminho. Mas também é verdade que a obediência sozinha não basta, especialmente quando a esposa dá tantos sinais de desorientação.

Quais palavras terão o sucessor de Pedro e o de Ambrósio? E quanto pesará sobre eles a triste carta endereçada pelo Pe. Julián Carrón, líder do Comunhão e Libertação, para recomendar Scola ao papa? Nessa carta, roubada pelo "corvo" e revelada pelo livro de Nuzzi, Carrón destrói com uma verdadeira cacetada a obra de Martini e de Tettamanzi em Milão. Conhecemos a carta através de uma via equivocada, mas, agora que a conhecemos, não podemos fingir que ela nunca existiu.