Em 21 de dezembro, completam-se os 500 anos do ''Sermão de Montesinos''

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20 Dezembro 2011

"Dizei: com que direito e com que justiça tendes em tão cruel e horrível servidão esses índios? Com que autoridade tendes feito tão detestáveis guerras contra essas gentes...? Como os tendes tão oprimidos e fatigados...? Estes não são homens? Não têm almas racionais?". Essas são algumas interrogações do famoso sermão do frei Antón Montesinos.

A análise é de Felicísimo Martinez, OCD, publicada no sítio Religión Digital, 19-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O texto é digno de um discurso na ONU em pleno século XXI. E, no entanto, é um sermão do século XVI. É um texto digno de um líder em defesa dos direitos humanos das etnias indígenas. E, no entanto, foi proferido por um frei dominicano no dia 21 de dezembro de 1511. É claro que, por trás desse frei, estava uma comunidade de dominicanos, animada pelo Frei Pedro de Córdoba. Eram "letrados" e "homens do espiritual". Tinham estudado em Salamanca e Ávila.

Tinham vindo do Mosteiro de São Tomás de Ávila há apenas um ano. Mas foi tempo suficiente para se darem conta de que os espanhóis estavam cometendo uma terrível injustiça contra os nativos da Ilha da Espanhola e provocando um enorme sofrimento. Os freis, depois de observar, escutar e considerar tanta injustiça e tanto sofrimento de vítimas inocentes, compreenderam que a atuação "daqueles que se diziam cristãos" era incompatível com o Evangelho e "muito contrária e inimiga da humanidade". Decidiram denunciar isso publicamente, impulsionados pela sua "vocação de cristãos e pregadores".

As reações das autoridades foram de rejeição e protesto. Para os espanhóis, estavam em jogo interesses políticos e econômicos do rei, da corte e os seus próprios interesses. Para os freis pregadores, que também eram espanhóis, estavam em jogo interesses do Evangelho, da justiça e, sobretudo, do direito dos nativos da ilha. Sem hesitar, se colocaram ao lado das vítimas. É o caminho mais seguro para chegar à justiça e para se aproximar do Evangelho.

Se essa postura dos freis dominicanos tivesse triunfado, certamente a história teria mudado. Mas... mal se conseguiu que as "leis" fossem mudadas, "algumas leis". Não se conseguir "juntar o fato com o direito", como pediam aqueles freis.

Foi uma simples luta de espanhóis contra espanhóis? Não. O sermão dos dominicanos foi uma valente e honrada defesa da justiça e do direito acima dos interesses econômicos e políticos da coroa. Que alguns se aproveitariam dessas acusações – e as de Bartolomé de las Casas – para elaborar uma "lenda negra" sobre a obra colonizadora da Espanha... isso é outro assunto. Mas o certo é que o sermão daqueles freis deixou claro que, entre os espanhóis, ainda havia gente capaz de fazer autocrítica com base na justiça do direito. Talvez, essa consciência e essa autocrítica evitaram males maiores. Talvez, aquele sermão ajudou a mudar algumas leis e algumas práticas na obra colonizadora. Não sabemos o que teria acontecido se aquela comunidade de dominicanos não tivesse pregado aquele sermão.