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21 Setembro 2011

A lua de mel entre Joseph Ratzinger e a Alemanha acabou há tempos. A terceira viagem para a pátria de Papa Bento XVI, que inicia na quinta-feira, não ocorre no clima de alegre excitação que reinava depois da sua eleição, quando o Bild Zeitung proclamava "Nós somos o Papa".

A análise é de Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 19-09-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em Berlim, onde o pontífice vai falar no Bundestag, preveem-se marchas de manifestantes. A Associação de Gays e Lésbicas Alemães se manifestará contra a sua "política misantropa e discriminatórias contra os homossexuais". Na sala parlamentar, uma centena de deputados social-democratas, verdes e do Partido de Esquerda (Linke) irão boicotá-lo, abandonando os assentos. Alarmado, o governo vai preencher os espaços vazios com parlamentares aposentados.

Mas as manifestações não são o ponto frágil dessa peregrinação, que vai durar até domingo em três etapas: Berlim, Erfurt e Friburgo. Ratzinger está acostumado com isso e, em outros países europeus, como em Londres há um ano, ele conseguiu reconquistar a cena com discursos de alto perfil.

É a indiferença e a rejeição da linha de governo papal que marcam o retorno à casa do primeiro pontífice alemão da era moderno. Cerca de 86% dos seus compatriotas consideram "pouco importante" a sua chegada (pesquisa do Instituto Forsa). A opinião é compartilhada por dois terços dos católicos alemães. Apenas 36% dos fiéis considera a viagem relevante.

O escândalo dos abusos sexuais, a imposição da missa pré-conciliar como rito universal da Igreja, o cancelamento da excomunhão aos bispos lefebvrianos, incluindo o negacionista Williamson, a absurda polêmica sobre o preservativo, o impasse de qualquer reforma afastaram o catolicismo alemão de Roma. Sobre contracepção, divórcio, casais de fato, testamento biológico, grande parte dos bispos alemães não estão dispostos a se fossilizar na linha rígida de Ratzinger.

Em uma entrevista à revista Die Zeit, o presidente da Conferência Episcopal, Dom Zollitsch, preanunciou uma "intensa discussão" sobre os divorciados em segunda união, aos quais o Vaticano ainda nega a comunhão. "É uma questão de misericórdia", disse ele, explicando que a Igreja tem a tarefa de ajudar as pessoas.

Na Alemanha, onde é possível, por motivos fiscais, se descadastrar da lista dos membros pertencentes a uma Igreja, as "fugas" de católicos aumentaram vertiginosamente durante o pontificado ratzingeriano. Oitenta e quatro mil foram os abandonos em 2006; em 2009, já eram 123 mil. No ano passado, eles alcançaram o pico de 131 mil.

Em fevereiro, em previsão à visita papal, um manifesto de 300 teólogos solicitou o início de reformas profundas e a abertura de um debate sobre as "estruturas de poder e de comunicação" na Igreja. Os signatários, incluindo Hans Küng, diante da crise das vocações e da necessidade de remodelar as comunidades cristãs no século XXI, pedem a possibilidade de um clero casado e a atribuição de papéis eclesiais para as mulheres, a participação dos fiéis na escolha dos bispos , a criação de tribunais administrativos para assegurar a verdadeira justiça para as controvérsias intraeclesiais. Outro pedido é que se deixe de excluir da Igreja "aqueles que, em amor e fidelidade e com um cuidado recíproco, vivem uma relação de casal do mesmo sexo ou são divorciado em segunda união".

O costume do Vaticano é de rebater que se tratam de "polêmicas usuais". Mas a questão é muito mais relevante. A Alemanha é o espelho da sociedade contemporânea, em que a área da descrença, da indiferença e da secularização se expandiu enormemente. Em Erfurt, cidade da ex-Alemanha Oriental, que será a segunda etapa da viagem papal, os cristãos são medidos em percentuais mínimos. Na Alemanha, em geral, a prática dominical caiu fortemente, e a frequência à confissão está em níveis irrisórios. É por isso que, no episcopado mais advertido, a convicção de que toda a Igreja deve ser remodelada nessas circunstâncias históricas completamente novas abriu caminho.

"Onde está Deus, lá está o futuro" é o lema que o episcopado alemão escolheu para a viagem papal. O desafio é justamente o de ter uma Igreja capaz de proclamar Deus nos tempos atuais. O cardeal Lehmann, por 20 anos influente líder do episcopado alemão, enfatiza a necessidade de analisar as mudanças que ocorreram no corpo social e na comunidade católica. "A Igreja – ele me explica – não pode ser só para os fiéis ativos. Ela deve se dirigir para todas as pessoas que sofrem". Capaz de conversar com o mundo externo, com todas as formações da realidade social.

"Hoje – destaca o cardeal –, é preciso discutir a fundo a situação. Em vez disso, nos sínodos dos bispos, nunca há espaço para abordar os problemas com calma". Em 1970, Lehmann assinou, como jovem teólogo, junto com Ratzinger, um memorando para discutir o clero não celibatário. "Estudemos a questão sem antolhos", era a sua opinião então. Ele não mudou de ideia. Além disso, ele está convencido de que "deveria ser discutido o diaconato das mulheres. Tenho incentivado estudos sobre esse tema: é preciso entender concretamente que funções elas poderiam ter".

Em Erfurt, o bispo Wanke organiza momentos de encontro na catedral com os adolescentes não batizados e, na festa de São Valentim, concede a bênção dos "casais apaixonados". Com todas as gerações, defende o bispo, "o cristianismo recomeça de novo". Bento XVI chega entre crentes distantes do imobilismo vaticano. Por isso, em sua pátria, ele corre o risco de parecer estranho.