As eleições municipais no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro. Um novo desafio para a esquerda brasileira. Entrevista especial com Maria Izabel Noll e Ivo Lesbaupin

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10 Outubro 2008

Dando continuidade à série de entrevistas sobre as eleições municipais, apresentamos hoje uma análise dos resultados prévios da votação nos estados do Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Maria Izabel Noll, coordenadora do PPG em Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, reflete acerca da expansão do PT e da estabilidade do PP do estado em entrevista concedida à IHU On-Line.  Além disso, ela analisa os encaminhamentos feitos para o segundo turno em Canoas e Porto Alegre. “Em Canoas, aparentemente, há um processo de pacificação, quase de um acordo mútuo, de não radicalizar a contenta e, de certa maneira, as alianças que serão feitas estarão beneficiando mais o PT do que o PTB”, afirma Noll, que acredita que, “em Porto Alegre, a questão é mais complicada”, pois a candidata Maria do Rosário (PT) depende muito da transferência de votos da candidata Manuela D’Avila e Luciana Genro, que tendem a não explicitar esse apoio, pela forma como suas campanhas foram conduzidas durante o primeiro turno.

No Rio de Janeiro, a situação é quase tão complicada quanto em Porto Alegre. Ivo Lesbaupin, em entrevista à IHU On-Line, diz que o eleitor sabia que não queria Crivela no segundo turno e transferiu seu voto, independente da sua crença, para Gabeira. “O resultado no Rio de Janeiro foi muito condicionado pela ascensão do Crivela e em função disso houve uma mobilização, principalmente nos últimos tempos”, disse Lesbaupin. Segundo ele, “mais recentemente o Gabeira subiu nas pesquisas e o voto dado a ele foi uma espécie de voto útil para que ele pudesse enfrentar o candidato do governador Sérgio Cabral”.

Maria Izabel Noll é doutora em Ciências Políticas, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde, atualmente, é professora e coordenadora do PPG em Ciência Política. Sua entrevista foi concedida à IHU On-Line por telefone.

Ivo Lesbaupin é doutor em Sociologia pela Université de Toulouse-Le-Mirail, da França e, atualmente, é professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele concedeu esta entrevista também por telefone.

Confira as entrevistas.

Entrevista com Maria Izabel Noll

IHU On-Line – Que Brasil que sai dessas últimas eleições?

Maria do Rosário e José FogaçaMaria Izabel Noll – O Brasil que sai tem a ver com a nossa questão do Rio Grande do Sul, em princípio porque dois partidos que tiveram um desempenho bastante positivo, que é o PT e PMDB, são partidos que, em termos mais amplos, pensando nos 5564 municípios brasileiros, tiveram um bom desempenho. O PMDB, o PT, o PPS e o próprio PP relativamente foram partidos que tiveram um desempenho bastante interessante. Alguns, como os Democratas e o PSDB, foram partidos que tiveram um desempenho menos eficiente, digamos assim. Nós precisamos pensar nessa perspectivas, ou seja, o que em termos de ocupação de prefeitura significa isso partidariamente. Mas existe também um outro elemento para avaliarmos as próximas eleições presidenciais, que também é importante: o número de votos que cada partido recebeu.

Por que te digo isso? Porque uma coisa é nós vermos a distribuição partidária em número de municípios e Jurandir Maciel e Jairo Jorgeoutra coisa é quando pegamos o conjunto da população e vemos como ela vota. Porque, ao pensarmos a eleição presidencial, o colégio eleitoral é o país e, nesse sentido, pesa muito o número de votos em cada partido e não necessariamente o número de municípios. Um partido pode ter muitos pequenos municípios, e isso não tem uma densidade em termos de votação. Isso acontece muito, como aconteceu nessas eleições municipais com o PP, que elegeu prefeitos em muitas cidades pequenas, mas que em termos numéricos de voto não significa muito. Hoje, então, o PMDB e o PT são os partidos que mais receberam votação. O PSBD, por exemplo, sai fragilizado dessa eleição e terá de repensar a sua estratégia para os próximos anos.

Isso é um indicativo importante para as novas alianças que se formarão a partir de agora e como serão pensadas as articulações e as coligações para as próximas campanhas políticas. O Brasil que sai das urnas é um pouco diferente daquele de 2004, que ainda tinha uma dominação do PMDB e do PP nos municípios do interior e mostrava como outros partidos iriam se comparar em 2006.

IHU On-Line – O que explica essa predominância do PT sobre as prefeituras da região do Vale do Sinos e Metropolitana de Porto Alegre?

Maria Izabel Noll – Uma questão importante da região metropolitana é que, ao longo desses dez anos o PT, a partir da experiência de Porto Alegre, começou um processo de enraizamento das zonas mais urbanizadas e maiores cidades em direção aos centros médios e pequenos. Se fizermos um levantamento, veremos que os pequenos municípios são dominados principalmente por três partidos: PMDB, PP e PDT. O PT avança nas zonas mais urbanizadas e industrializadas. Nesse sentido, o movimento está caminhando na direção esperada. O que pode ter expandido o crescimento do PT em 2008? Visivelmente, é uma questão bastante evidente que é a aproximação dos municípios com o governo federal. Nós sabemos que, nos últimos anos, a partir da Constituição de 1988 os municípios foram aproximados do governo. Portanto, Resultado do primeiro turno das eleições municipais em Porto alegreessa questão da proximidade entre o partido do município e do governo ser o mesmo é um fato bastante importante, mas não determinante. No médio e no pequeno município, essa leitura ainda tem um peso importante. O fato de São Leopoldo ter tido acesso a recursos e a uma série de benefícios em função da prefeitura do PT foi importante para a vitória do partido em Novo Hamburgo. Então, há uma expansão e um crescimento natural do partido em função do governo Lula. Isso aconteceu nos anos 1990. no Brasil inteiro. com o PSDB. Eu acredito que o PT se beneficiou desse fator, o que pode dar ao prefeito e aos representantes uma bancada relativa em termos de vereadores e uma valorização do seu governo. O PT ainda é um partido de zonas urbanas e de trabalho mais de base industrial ou terciária, e partidos como PP dominam cidades de tamanho menor, distantes das capitais. Essa dimensão geográfica também é importante.

IHU On-Line – O que podemos esperar das coligações que estão sendo feitas para o segundo turno de Porto Alegre e Canoas?

Maria Izabel Noll – Em Canoas, aparentemente, há um processo de pacificação, quase de um acordo mútuo, de não radicalizar a contenta e, de certa maneira, as alianças que serão feitas estarão beneficiando mais o PT do que o PTB. Nessa cidade, se configura também um problema no nível dos partidos da base aliada. É uma eleição em que o presidente da República não terá uma participação direta. Eu te diria que em Canoas há uma quase definição de que o PT vai, pelos apoios que está recebendo, ter uma posição mais cômoda para ganhar esse segundo turno.

Em Porto Alegre, a questão é mais complicada. Apesar do PC do B ter tido uma posição nacional de que vai apoiar o PT, visivelmente a votação à candidata Manuela não se prende exclusivamente ao PC do B e há uma divisão muito nítida dentro da sua coligação feita com o PPS, que é um inimigo declarado ideologicamente do PT. Mesmo com o apoio do PC do B, necessariamente, toda a votação da candidata Manuela não vai ser redirecionada para o PT. Então, é preciso verificar o quanto esse voto é mais à esquerda e o quanto não é posicionado, mas por crença na mudança proposta pela figura da Manuela. Eu não saberia dizer até que ponto a decisão partidária significará transferência absoluta dos votos. A candidatura de Manuela teve uma dimensão personalista, individual, carismática da figura dela, que ultrapassou o eleitorado normal do PC do B e, eventualmente, do próprio PPS. Então, é um capital da candidata e que, se ela não fizer uma movimentação explícita em relação ao apoio ao PT – o que não deve fazer, porque parece que foi viajar –, a questão fica em aberto. Não podemos dizer que esses 15% de votos serão direcionados ao PT.

O voto da Luciana Genro, aparentemente, ainda é uma questão que está sendo discutida. O PSOL é um partido que se coloca, explicitamente, contrário ao governo Lula. Por isso, não sei se ela apoiará explicitamente o PT ou deixará que seu eleitorado faça sozinho a sua escolha. As outras candidaturas que já se definiram são votos que caminhariam mais ao PMDB do que ao PT. Em Canoas, a situação tende a beneficiar, pelas alianças e pela forma como a coisa está se configurando, o PT. Em Porto Alegre, dadas as circunstâncias bastante específicas, críticas e posicionamentos feitos no primeiro turno, a situação é mais cômoda para o PMDB que já tem uma base (flexível e segura) da qual ele vai partir. A situação é mais difícil para o PT na capital gaúcha, porque a margem de manobra e de expansão do voto está dependendo de conjunturas não muito claras de apoios que não estão sendo muito explícitos, mas apenas institucionais.

Entrevista com Ivo Lesbaupin

IHU On-Line – Que Brasil que sai dessas últimas eleições?

Eduardo Paes e Fernando GabeiraIvo Lesbaupin – O resultado no Rio de Janeiro foi muito condicionado pela ascensão do Crivela e em função disso houve uma mobilização, principalmente nos últimos tempos. Houve uma primeira ascensão do Crivela e uma primeira mobilização dos setores um pouco mais progressistas. Pouco antes das eleições, houve o fato dos soldados que entregaram três rapazes para os traficantes, e isso era numa obra ligada ao Crivela. Então, quando o Jandir começou a subir, se pensou que ele podia ser uma alternativa. Mais recentemente, o Gabeira subiu nas pesquisas, e o voto dado a ele foi uma espécie de voto útil para que ele pudesse enfrentar o candidato do governador Sérgio Cabral. Ora, a política de segurança do governador Sérgio Cabral é extremamente criticada pelos movimentos sociais porque é uma política de confronto sem haver redução da violência. Ou seja, não foi feita uma medida de redução da violência; pelo contrário, apesar de todas as denúncias da ONU, continua crescendo. Então, houve um voto útil entorno do Gabeira.

Do ponto de vista dos setores populares e democráticos mais à esquerda, não se acredita que há uma enorme diferença. Há diferença entre o deputado Gabeira e outro. Mas a possível prefeitura de Gabeira com as alianças que ele fez, especialmente com a do PSDB, não vemos como uma mudança significativa.  Qualquer prefeitura diferente de Cesar Maia é uma melhoria, porque nos últimos anos vivemos num despautério.

IHU On-Line – O que significa a ascensão de Gabeira e a derrota de Crivela no Rio de Janeiro hoje?Resultado do primeiro turno na cidade do Rio de Janeiro

Ivo Lesbaupin – Há um certo receio em relação ao Crivela, mas não sei o que significará um governo do Gabeira em termos das reivindicações democráticas e participativas que temos. O PSDB, que é o partido mais forte da chapa de Gabeira, certamente terá um peso fundamental. Então, olhamos e vemos o PMDB de um lado e o PSDB de outro. Com isso, uma candidatura como a de Chico Alencar, que era a que realmente tinha uma grande diferença entre as outras, foi considerada, pelo jornal O Globo, aquela com as melhores propostas; era, inclusive, o meu candidato. Ele realmente tinha propostas interessantes e ficou lá embaixo fundamentalmente porque queriam que o Crivela não passasse para o segundo turno. A alternativa, então, era o Gabeira. Tendo feito as coligações que fez, Gabeira irá governar com todos os outros partidos que estão ao seu lado.

IHU On-Line – Como o senhor analisa a atuação da esquerda no Rio de Janeiro?

Ivo Lesbaupin – Ela ficou dividida entre os possíveis candidatos de esquerda. De certa forma, o Gabeira é tratado como candidato de esquerda, mas eu não diria isso hoje, ou seja, creio que ele não significará uma mudança importante para a cidade do Rio de Janeiro.