Por que a Índia de Modi adiou o objetivo de emissões zero para 2070

Cidade de Mumbai, na Índia (Foto: Unsplash)

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

03 Novembro 2021

 

"Créditos verdes, sim, mas que pelo menos o desenvolvimento sobre cujo altar se sacrifica o ar puro seja distribuído de maneira mais uniforme e não com as desigualdades assassinas que continuam a distinguir a Índia. Sem nenhuma contradição", escreve Carlo Pizzati, em artigo publicado por La Repubblica, 02-11-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

"Energia é o fio de ouro que conecta crescimento econômico, igualdade social e sustentabilidade ambiental", disse em 2012 o ex-secretário-geral da ONU, o sul-coreano Ban Ki-moon. Mas é um fio de carvão que o primeiro-ministro indiano Narendra Modi quer tecer entre desenvolvimento industrial, compromissos sobre as emissões de gases de efeito estufa e sua liderança global, anunciando a doutrina da "justiça ambiental para as mudanças ambientais": ou seja, adiar para 2070 o objetivo do "zero líquido" e pedir ao Ocidente 1 trilhão de dólares em financiamentos climáticos para a segunda nação mais populosa do mundo, mas a mais poluída do mundo e com a capital mais geradora de doenças do planeta. A mensagem é aparentemente paradoxal: queremos contaminar mais e queremos mais ajudas pró-clima.

Modi sabe que fez um grande golpe de cena com seu anúncio. Como habilíssimo líder político, ele o fez incorporando as armas dos inimigos. Em primeiro lugar, copiando o primeiro primeiro-ministro indiano, Jawaharlal Nehru, antigo líder do Congress party que liderava os países não-alinhados durante a Guerra Fria. Da mesma forma, quer capitanear as nações do Sul global que exigem poluir em nome do desenvolvimento. Pode encontrar aliados na Indonésia, mas não na China, com a qual Delhi continua a ter conflitos sobre as fronteiras do Himalaia e sobre improváveis boicotes.

Modi também roubou o slogan de "justiça climática" dos jovens oponentes da Fridays for Future e Extinction Rebelion. Enquanto os GenZ deslocam o debate ambiental para questões éticas e políticas, englobando justiça social e ambiental, o primeiro-ministro muda a ênfase sobre quem deve arcar com os custos das mudanças climáticas e das ações para desacelerá-las, com uma "justiça distributiva". Da mesma forma que Donald Trump acusava a mídia de fake news, disseminando notícias falsas, Modi reivindica o direito de poluir em nome da justiça climática. Para entender o que parecem ser contradições, precisamos nos aprofundar na mentalidade indiana. Como afirma o guru mais renomado da Índia hoje, Sadhguru: "Nada é contraditório. Tudo é complementar a todo o restante".

 

As acusações contra o Ocidente poluidor

 

Na preparação para a Cop26 em Glasgow, em Delhi se acertaram as contas com o passado. De 1751 a hoje, o mundo emitiu 1,5 trilhão de toneladas de gases de efeito estufa. Destes, os Estados Unidos emitiram 400 bilhões, ou seja, mais de 25% do total e oito vezes mais que a Índia. E os estadunidenses continuam a ser muito mais poluidores, per capita, do que os indianos. Por que fixar uma única data de emissão zero se os EUA e a Europa começaram mais cedo a causar o desastre?

Emissões zero é uma forma de os países desenvolvidos fugirem de suas responsabilidades e transferir o ônus para nações como a Índia”, dizem os homens próximos de Modi, “queremos um nível líquido negativo para o Ocidente, em vez de zero líquido”. Delhi pede "uma visão holística do problema" atacando em primeiro lugar o crédito de carbono. Por que pagar para poluir? Melhor crédito verde: pague-nos para investir em energias renováveis. Se não o fizerem, a coalizão global do Sul exigirá medidas mais duras contra o Ocidente poluidor de longo prazo. “O mundo ocidental deve combater contra as suas compulsões”, dizem as fontes que forjaram a doutrina da “justiça climática”. Aqui está, então, o que Sri Aurobindo, fundador de Auroville, definia como "a verdade escondida por trás das aparentes contradições".

Vamos agora estudar o nó do desenvolvimento industrial que se aperta ao redor do pescoço de Modi. Metade dos 1,4 bilhão de indianos tem menos de 25 anos. A população em idade ativa de 15 a 59 anos aumenta em 1 milhão de pessoas na Índia a cada mês. O desemprego juvenil é de 23%. O desenvolvimento é uma necessidade, não um luxo. Aos indianos, portanto, importa tanto assim, diante desses números, que o país seja o terceiro emissor global de gases de efeito estufa? Ou que seja a quarta nação mais afetada pelas mudanças climáticas? Para quem reelegeu Modi com um semiplebiscito em 2019, a prioridade é o trabalho. Como foi dito durante a pandemia sobre o Covid, é melhor morrer de poluição do que de fome.

 

A repressão do dissenso climático

 

Existe uma oposição na Índia contra essa mudança em direção a mais 50 anos de gases de efeito estufa? Existia. Mas foi intimidada. Anos de demissão de editores de jornais, morte de jornalistas icônicos como Gauri Lankesh e de repressão de intelectuais e acadêmicos renderam seus frutos. A Greta Thunberg indiana, Disha Ravi, foi presa sob acusações infundadas de sedição. Em seguida, libertada, continua com seu engajamento, mas aleijada.

A luta pelo meio ambiente é travada em áreas rurais como o estado de Tamil Nadu, no sul, primeiro por usinas a carvão, mas também por energias renováveis. Aqui estão recomeçando as obras de inauguração de uma das novas usinas a carvão, com correias transportadoras para carregar o combustível dos portos até as usinas que devastam o ecossistema.

Agricultores e pescadores dessas áreas, como no caso de Uppur, no golfo de Bengala, se opõem nos tribunais. Mas a mensagem de Glasgow anuncia que é do interesse nacional eliminar manguezais e florestas de palmeiras para gerar eletricidade para a galopante urbanização e industrialização, gerando gases de efeito estufa.

O que o Ocidente pode fazer? Reduzir seus confortos poluentes, claro. Incentivar as energias renováveis no Sul global para combater o carvão? Também. Mas é igualmente necessário vincular o trilhão de dólares (ou a cifra que efetivamente será acordada) a um futuro apoio às vítimas imediatas desse nefasto pacto poluidor: as mulheres, as crianças, os idosos e as minorias que na Índia são os primeiros a morrer nas ondas de calor, de inundações, secas e erosões costeiras que, a cada estação, já mostram o drama das alterações climáticas rumo a uma rápida distopia. Créditos verdes, sim, mas que pelo menos o desenvolvimento sobre cujo altar se sacrifica o ar puro seja distribuído de maneira mais uniforme e não com as desigualdades assassinas que continuam a distinguir a Índia. Sem nenhuma contradição.

 

Leia mais