Padre irlandês diz que o Vaticano lhe fez “um favor” ao bani-lo do ministério público

Foto: Reprodução Youtube

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24 Outubro 2020

Um padre irlandês banido do ministério público nos últimos oito anos devido a seus pontos de vista teológicos diz que o Vaticano “pode muito bem ter me feito um favor”.

A reportagem é de Charles Collins, publicada por Crux, 22-10-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

O padre redentorista Tony Flannery foi proibido de celebrar publicamente os sacramentos pela Congregação da Doutrina da Fé do Vaticano em 2012 por negar várias doutrinas da Igreja Católica, incluindo o sacerdócio sacramental e a fundação da Igreja Católica por Jesus Cristo.

Em 16 de setembro, Flannery anunciou em seu blog pessoal que recusou um pedido do Vaticano feito em julho para assinar uma declaração de fé a fim de retornar ao ministério.

Em uma coluna de 20 de outubro no Irish Times, o padre disse que agora acredita “que as definições doutrinárias rígidas se tornaram um sério obstáculo para vivenciar o mistério”.

“Cheguei à conclusão de que o apego a velhas certezas pode nos deixar sem recursos para lidar com os desafios de hoje”, escreve Flannery.

“Eu agora aceito que a Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano pode muito bem ter me feito um favor quando interveio em minha vida há oito anos, e decretou que eu não poderia mais exercer o ministério público como padre”, continuou. “Esses anos, apesar de um certo estresse e tristeza, têm sido bons. Afastando-me do ministério e do envolvimento ativo na igreja, pela primeira vez em minha vida adulta, pude começar a ler, refletir e questionar de uma forma que nunca tinha feito antes”.

Em sua coluna, o padre destaca suas objeções à doutrina do pecado original e de “um Deus zangado e vingativo”, bem como “as atitudes negativas para com as mulheres e a demonização do amor sexual”.

Flannery também questiona a definição de Jesus como o único Filho de Deus, a virgindade de Maria e a doutrina da Trindade sendo mais do que “uma imagem, uma metáfora útil”.

“Estamos rodeados de mistério, se pudermos abrir nossos olhos e ouvidos para ver e ouvir. Em minha opinião, o grave erro que a Igreja cometeu, que remonta ao século IV e continua até os nossos dias, é que tentou domar o mistério circundando-o com definições e doutrinas rígidas”, escreve ele.

“Com a nossa compreensão moderna da maravilha da criação como uma realidade contínua e não histórica, é hora de olhar novamente para as nossas doutrinas católicas tradicionais e encontrar novas metáforas, uma nova linguagem, que irão abrir mais efetivamente o mistério e a maravilha atemporal da nossa fé cristã para o mundo moderno”, diz Flannery.

O padre de 73 anos é há muito um escritor prolífico da Igreja Católica Irlandesa e, em 2010, fundou a Associação de Padres Católicos, que afirma ter cerca de mais mil membros do clero.

Em 22 de setembro, o cardeal Luis Ladaria – prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé – foi especificamente questionado sobre o caso Flannery em uma entrevista coletiva no Vaticano.

“Fizemos tudo o que era possível para dialogar com o padre Flannery; nem sempre foi fácil. Fizemos o que podíamos; em certa altura tivemos que tomar algumas medidas, que nunca envolvem fazer um julgamento sobre uma pessoa – que sempre está reservado a nosso Senhor fazer – mas em relação ao ensino ou comportamento”, disse Ladaria, segundo o Catholic News Service.

“Sempre procuramos manter nosso respeito pelo padre Flannery, mas a obrigação que temos de acordo com a disposição da igreja é salvaguardar a fé e, assim, indicar quando algo não está de acordo com a fé”, continuou Ladaria.

“Esta é uma responsabilidade muito desagradável da Doutrina da Fé, muito desagradável, mas é nossa responsabilidade e estaríamos faltando se não cumpríssemos esta responsabilidade e disséssemos algo quando, muitas vezes dolorosamente, a congregação deve agir”.

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