Conselho Mundial de Igrejas pede para que Santa Sofia seja mantida como patrimônio comum da humanidade

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13 Julho 2020

Em carta à V. Ex.ª Recep Tayyip Erdogan, presidente da República da Turquia, o secretário-geral interino do Conselho Mundial de Igrejas – CMI, o Rev. Prof. Dr Ioan Sauca, manifesta a sua fervorosa esperança e oração para que Santa Sofia não se torne novamente um foco de confronto e conflito, mas que seja restaurada ao papel unificador emblemático que tem servido desde 1934.

A carta é publicada por Conselho Mundial de Igrejas – CMI, 11-07-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O Presidente da Turquia assinou decreto determinando que a partir de 24 de julho, Santa Sofia volte a ser mesquita.

Eis a carta.

Prezado Sr. Presidente,

Desde que começou a funcionar como museu em 1934, a Santa Sofia tem sido um lugar de abertura, encontro e inspiração a pessoas de todas as nações e religiões, e uma expressão poderosa do compromisso da República da Turquia para com o secularismo e com a inclusão, além de uma expressão de seu desejo de deixar para trás os conflitos do passado.

Mapa da Turquia (Imagem: Wikipédia)

Hoje, no entanto, sinto-me obrigado a transmitir-lhe a tristeza e consternação do Conselho Mundial de Igrejas – CMI e de suas 350 igrejas-membro em mais de 110 países, representando mais de meio bilhão de cristãos em todo o mundo, pelo passo que o senhor há pouco deu. Ao decidir converter a Santa Sofia de volta em uma mesquita, o senhor reverteu aquele sinal positivo da abertura da Turquia e o mudou para um sinal de exclusão e divisão. Lamentavelmente, essa decisão também foi tomada sem aviso prévio e sem discussão com a Unesco a respeito do impacto dessa decisão sobre o valor universal de Santa Sofia, reconhecido sob a Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial.

Ao longo dos anos, o CMI tem promovido grandes iniciativas em apoio ao engajamento ativo de suas igrejas-membro no diálogo inter-religioso, a fim de construir pontes de respeito mútuo e cooperação com base em valores compartilhados entre as diferentes comunidades religiosas. Além disso, em tempos de desafios, o CMI, juntamente com suas igrejas-membro, se manifestou em defesa e apoio de outras comunidades religiosas, incluindo comunidades muçulmanas, para que seus direitos e integridade sejam respeitados. A decisão de converter um lugar tão emblemático como Santa Sofia, de museu para mesquita, criará inevitavelmente incertezas, suspeitas e desconfiança, minando todos os nossos esforços de união de pessoas de diferentes credos para a mesa do diálogo e da cooperação. E mais: tememos muito que isso incentive as ambições de outros grupos em outros lugares que buscam derrubar o status quo existente e promover novas divisões entre as comunidades religiosas.

Senhor presidente, por repetidas vezes o senhor afirmou a identidade da Turquia moderna como um Estado secular, mas ontem [10 de julho] Vossa Excelência anulou um compromisso que, desde 1934, preserva esse monumento histórico como patrimônio comum da humanidade. No interesse da promoção do entendimento mútuo, do respeito, do diálogo e da cooperação e para evitar o cultivo de antigas animosidades e divisões, apelamos urgentemente que o senhor reconsidere e reverta vossa decisão.

Hagia Sophia, Turquia (Foto: Unsplash)

Nos unimos à Sua Santidade Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico, em expressar a nossa fervorosa esperança e oração para que Santa Sofia não se torne novamente um foco de confronto e conflito, mas que seja restaurada ao papel unificador emblemático que tem servido desde 1934.

 

Atenciosamente,

Rev. Prof. Dr Ioan Sauca
Secretário-geral interino
Conselho Mundial de Igrejas

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