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24 Junho 2020

"Equívocos, histórias e representações da mulher que viu Jesus ressuscitado antes dos apóstolos", comenta Sergio Massironi, filósofo e padre italiano a Arquidiocese de Milão, em artigo publicado por L'Osservatore Romano, 23-06-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Uma pesquisa que mira diretamente o centro. O pequeno volume de Adriana Valerio, Maria Maddalena. Equivoci, storie, rappresentazioni (Maria Madalena. Equívocos, histórias, representações, em tradução livre, Bolonha, Il Mulino, 2020, p. 136, euro 12) acompanha o leitor por dois milênios sem esconder seu objetivo: o de não fazer "mera filologia arqueológica, mas iniciar uma revolução hermenêutica (...) tocando o próprio coração do cristianismo”. A aposta é alta, mas, na opinião da autora, é proporcional àquela que no seguimento de Jesus teve que ser reconhecido como "a torre", do hebraico magdal/migdal, do qual deriva o apelativo que sempre seguiu o seu nome.

Portanto, não "de Magdala" - expressão completamente ausente no texto grego dos Evangelhos - mas "Magdalena", na linha já de São Jerônimo, segundo a qual "por seu zelo e ardor de sua fé, recebeu o nome de turrita e teve o privilégio de ver Cristo ressuscitado antes dos apóstolos". Torre, fortaleza ou - como proposto pela estudiosa bíblica Maria Luisa Rigato – “a Tornada-grande”, quase retomando Orígenes, que observava: “O nome dela é Magdalena, concordando bem com o significado do nome de sua pátria. De fato, aquele lugar é interpretado como grandeza, crescimento. E esta Madalena foi tornada grande por nenhuma outra razão senão por ter seguido Jesus e testemunhado o mistério de sua paixão”.

Em suma, a revolução em que Adriana Valerio acredita vem de longe e tem a ver com a "estatura" de uma discípula cuja autoridade os Evangelhos não escondem, embora seja de uma qualidade tão nova que ainda resulte em grande parte incompreendida.

De fato, a história de Maria – como, aliás, aquela da mãe de Jesus - refere-se a uma grandeza que não se obtém no afã (masculino?) de conquistar o céu como a Babel, onde "fazer o próprio nome" se tornou o começo de confusão e dispersão, mas no encontro com uma graça que torna inconfundíveis. De fato, o que acontece ao redor de Jesus é tão escatológico que desmonta qualquer ideia linear de progresso: a pesquisas sobre as fontes e a história dos efeitos documentam o impacto de novas formas de ser, cuja onda de choque não cessa de investir as formas culturais e as estratificações históricas da socialidade humana.

Segundo a autora "por essas razões, é necessário nos questionarmos sobre a compreensão da Bíblia e suas interpretações incorretas, sobre o peso da Tradição na elaboração da visão antropológica, sobre o tabu sexual vinculado à dinâmica de gênero, sobre a exclusão das mulheres da sucessão apostólica e dos papéis de poder na Igreja, sobre a identidade da própria comunidade de fé à luz da mensagem do Evangelho e das recentes aquisições sobre a dignidade e a igualdade da pessoa humana, masculina e feminina".

Evidentemente, trata-se de uma abordagem radical e, portanto, delicada e merecedora de atenção: a pesquisa move-se na vertiginosa crista que separa o discernimento autêntico de um ingênuo (às vezes interessado) anacronismo, para o qual é indispensável que rigor científico e o senso eclesiais não sejam separados. O volume é magistral nesse sentido, embora não esconda a simpatia por soluções de profunda descontinuidade dentro da praxe católica. De fato, o que é opinião é proposto e motivado como tal, enquanto a reconstrução dos dados e a interpretação da história revelam uma pacata lucidez. Obviamente, a autora defende que "como na exegese bíblica, é preciso falar de uma gama de possíveis soluções interpretativas, em vez de um esquema unívoco, assim a Tradição, também sujeita à dinâmica da história, conhece uma variedade de vertentes que contradizem a transmissão doutrinal apresentada como a única possível”.

Nesse sentido, "Madalena é a prova decisiva dessa polivalência de textos que ressaltam a centralidade de sua pessoa na constituição da comunidade de fé", uma complexidade que pode assustar, porque é difícil de domesticar, mas que também é típica do tipo de verdade que o universo bíblico coloca em campo, alternativa e sempre maior do que qualquer sistema logicamente concluído. Uma Verdade viva, transbordante e generativa, que age estruturalmente com uma força que assusta e, ao mesmo tempo, atrai. As mulheres do evangelho encarnam a delicadeza dessa força, uma energia gentil que, no entanto, não justifica nenhuma exploração.

Maria de Magdala, "a figura feminina mais amada e representada" depois da Virgem Maria, da relação cristã com a verdade manifesta os traços imprescindíveis, vinculantes para a Igreja de todos os tempos: no princípio, está o ser "tornada grande" por uma graça que restitui dignidade e restabelece a consciência do próprio incomensurável valor; isso dá origem ao espaço de um "discipulado ativo e com autoridade", no qual “a nova condição de liberta" induz "a seguir Jesus através de novas modalidades relacionais", que envolvem inéditas formas de compartilhamento e participação da vida do grupo; até o pé da cruz, onde o mundo inteiro é refundado e só as mulheres se tornam "garantidoras daquele triplo testemunho que é o fundamento da fé das comunidades primitivas: ‘Cristo morreu ... foi sepultado ... ressuscitou’(Atos 2, 23-24 ; 1 Cor 15, 3-4)".

É nesse contexto que Adriana Valerio lê o prefácio que, com o Decreto da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos de 10 de junho de 2016, coloca Maria de Magdala entre os apóstolos: “Como o havia amado em vida, o viu morrer no cruz, o procurou no sepulcro e foi a primeira a adorá-lo ressuscitado dentre os mortos; e o honra perante os apóstolos (coram apostolis) com o ofício do apostolado, para que as boas novas da nova vida cheguem aos confins do mundo".

Se é assim, a fidelidade à verdade do evangelho certamente não implicará, especialmente no lado feminino, um retorno à Babel na qual dar-se um nome por meio de reivindicações e projetos ideológicos. No entanto, essa fidelidade requer a abertura àquele Espírito que mudou a face de Jerusalém e continua a querer tornar toda a Terra nova, em virtude de uma revelação que em Cristo se doa de forma inesgotável. "Daí a necessidade - observa a autora - de considerar a "Tradição como ‘o conjunto de tradições’, como a transmissão diferenciada e complexa que inclui múltiplos e inúmeros sujeitos, grupos e movimentos. No caso de Madalena, estamos na presença de mulheres e homens que, nas diversas épocas da história, graças à sua memória, deram origem a experiências de fé, atos de culto, obras artísticas, instituições, elaborações doutrinais, textos espirituais, propostas eclesiais e muito mais, que não podem ser acriticamente encerrados em uma proposta unívoca".

Por outro lado, essa é a riqueza da catolicidade, do que diz respeito ao todo: o que parece novo, particular, revolucionário, se conectado ao todo, abre o passado para o futuro. Adriana Valerio, portanto, tem o mérito de entregar ao presente alguns questionamentos ousados sobre os quais uma Igreja bem organizada e guiada pelo Espírito pode francamente se confrontar, para responder hoje a Aquele que, tendo-a amada e redimida, ainda lhe fala.

 

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