Papa consultou Kasper antes de escrever carta à Igreja alemã

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

23 Setembro 2019

A prestigiada revista teológica mensal Herder Korrespondenz lançou nova luz sobre a disputa em curso entre a Igreja alemã e figuras do Vaticano a respeito dos planos da Igreja na Alemanha de realizar um “procedimento sinodal”.

A reportagem é de Christa Pongratz-Lippitt, publicada por The Tablet, 20-09-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Este procedimento traçaria o caminho a seguir para a Igreja local após a devastação causada pela crise de abusos sexuais clericais e pelo êxodo significativo dos fiéis.

Em 29 de junho deste ano, o Papa Francisco redigiu uma “Carta ao Povo Itinerante de Deus na Alemanha”, na qual especialmente pede que a Igreja neste país permaneça em união com a Igreja mundial e com a fé católica.

É extremamente raro, se não singular, um papa se voltar a todos os católicos de um país em particular como fez Francisco na carta, e muitos católicos alemães se perguntam como surgiu esta carta e o que o próprio papa Francisco pensa dos planos dos bispos alemães de realizar um “procedimento sinodal vinculante” de dois anos juntamente com o Comitê Central dos Católicos (leigos) Alemães.

Agora soube-se que a carta do papa veio após uma conversa que teve com o Cardeal Walter Kasper, mas que essa conversa com Kasper fora motivada por outras iniciativas tomadas de forma independente por chefes de importantes congregações vaticanas.

O Cardeal Walter Kasper, ex-presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos (de 2001 a 2010), falou à Herder Korrespondenz sobre o diálogo com o papa que precedeu a “Carta ao Povo Itinerante de Deus na Alemanha”. Kasper é pessoa próxima de Francisco: imediatamente após ser eleito, o pontífice observou que estava “um livro de um cardeal – o Cardeal Kasper, um teólogo inteligente, um bom teólogo – sobre a misericórdia. E que esse livro me fez muito bem”. A decisão do papa de declarar 2016 um “Ano da Misericórdia” deve muito a este livro, intitulado “A misericórdia: condição fundamental do evangelho e chave da vida cristã”, publicado em 2012.

Em 18 de setembro, Kasper disse à Herder Korrespondenz que havia recebido um telefonema do papa no começo de junho deste ano. O papa pediu que viesse à Casa Santa Marta para uma reunião e discutir um assunto concernente à Alemanha. Na audiência privada que se seguiu dentro de poucos dias, ele e o Papa Francisco discutiram a situação longamente na Alemanha. Quando a carta do papa aos católicos alemães foi publicada em 29 de junho, ele (Kasper) era “o mais surpreso, para dizer o mínimo” sobre como ela fora recebida na Alemanha, disse.

“Embora tenha sido bastante elogiada na Alemanha (quando foi publicada), a carta depois foi colocada de lado e os alemães continuaram com as reformas [o procedimento sinodal] que haviam planejado. Sem uma renovação através da fé, no entanto”, explicou Kasper, “todas as reformas estruturais, por melhores que sejam, não dão em nada”.

É claro que a evangelização não é possível sem uma conversão pessoal e sem reformas, coisas das quais a Igreja está necessitada hoje, continuou o cardeal, mas “é um autoengano desastroso achar que podemos despertar uma nova alegria na fé através de reformas estruturais somente. Isto, no fim, só levará a uma nova e profunda decepção”.

Kasper destacou que o Papa Francisco havia colocado a evangelização no centro das reflexões e, assim, deu continuidade à linha que seus antecessores Paulo VI e Bento XVI tomaram. Kasper não menciona se o efeito do escândalo de abusos sexuais nas iniciativas de evangelização foi discutido.

A Herder Korrespondenz fez uma pesquisa sobre as origens da carta do papa e publicou-a on-line. As suas verdadeiras origens remontam a conversas altamente confidenciais na Cúria, que aconteceram sem nenhum dos alemães presentes. Três fontes vaticanas independentes contaram à Herder Korrespondenz que a carta aos católicos alemães não se origina nem com o papa nem com o teólogo alemão, mas na Cúria Romana. Por muito tempo, o curso do episcopado alemão tem provocado uma irritação maior “do que a usual”, disseram as três fontes. A decisão dos bispos alemães de permitir que pessoas divorciadas recasadas e parceiros não católicos em casamentos mistos recebam a Comunhão irritou particularmente Roma, e o episcopado alemão foi considerado “imprevisível”.

Depois da sessão plenária da conferência dos bispos da Alemanha em fevereiro, na qual anunciaram os planos de realizar um “procedimento sinodal”, vários e importantes membros da Cúria decidiram que era chegado o momento de agir. Só no mês de maio, uma ou mais reuniões interdicasteriais altamente confidenciais foram realizadas no Vaticano para discutir a questão alemã. De acordo com as três fontes da Herder Korrespondenz, os presidentes da Congregação para a Doutrina da Fé, da Congregação para o Clero, da Congregação para os Bispos e o secretário de Estado, o cardeal Pietro Parolin, todos participaram. O prefeito da CDF, o cardeal Luis Ladaria, foi finalmente encarregado de se aproximar do papa e pedir-lhe que se dirigisse aos alemães.

Solicitada pela Herder Korrespondenz para comentar sobre a versão dada por três fontes independentes de como surgiu a carta do papa aos alemães, a Sala de Imprensa da Santa Sé afirmou: “Podemos confirmar que a Carta aos Católicos Alemães, do papa, como é comum com outros textos assim, pode também remontar a um intercâmbio interno entre os dicastérios vaticanos responsáveis que aconteceu durante o período em questão”. O papa havia “certamente tomado nota” destes diálogos, informou a Sala de Imprensa.

Leia mais