Quem foi Enrique Angelelli?

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30 Abril 2019

Foi assassinado em 1976, mesmo ano em que foram mortos dois sacerdotes e um camponês que eram seus colaboradores. O papa Francisco reconheceu seu martírio. Milhares de pessoas se reuniram em La Rioja para a cerimônia de beatificação.

A reportagem é de Washington Uranga, publicada por Página|12, 27-04-2019. A tradução é de Graziela Wolfart.

Em 18 de julho de 1976 foram sequestrados e assassinados em La Rioja os sacerdotes católicos Carlos de Dios Murias e Gabriel Longeville. Poucos dias depois, em Sañogasta, um grupo matou diante de sua família o camponês e militante católico Wenceslao Pedernera. Todos eram colaboradores diretos do bispo riojano Enrique Angelelli. Alguns dias depois, em 4 de agosto do mesmo ano, Angelelli faleceu em um suposto acidente de trânsito que, em 19 de julho de 1986, depois de um longo processo judicial o juiz Aldo Morales determinou como homicídio premeditado, apesar de não poder identificar os responsáveis. Em 4 de agosto de 2014, o Tribunal Oral Federal de La Rioja condenou os militares Luciano Benjamín Menéndez e Luis Fernando Estrella como mentores intelectuais do assassinato do bispo.

Dom Enrique e os outros beatificados (Foto: Reprodução | Il Sismografo)

No ano passado, também depois de um longo percurso pelos escritórios vaticanos e contornando anos de negação por parte da estrutura eclesiástica, o papa Francisco reconheceu o "martírio em ódio à fé" sofrido por Angelelli e seus companheiros e tomou a decisão de beatificá-los, fato pelo qual os apresenta como exemplos de vida para a Igreja e para a sociedade.

A beatificação de Angelelli e seus companheiros se junta à do bispo salvadorenho Oscar Arnulfo Romero, também por razões de martírio. Com ambas o papa Francisco reconhece católicos que, durante os anos das ditaduras militares na América Latina, se comprometeram em favor dos mais pobres e perseguidos.

O reconhecimento eclesiástico é também o fruto do trabalho minucioso do bispo Marcelo Colombo, que se encarregou de recolher informação, ultrapassar obstáculos e resistências institucionais e ordenar o processo vaticano para obter a declaração martirial. É incontestável que para alcançar a beatificação também pesou a decisão e a vontade política do papa Francisco, último responsável por adotar a determinação eclesiástica.

Angelelli nasceu em Córdoba em 17 de julho de 1923, foi ordenado sacerdote em Roma em 1949, e bispo auxiliar de Córdoba em 1960. Antes, como padre, havia trabalhado como assessor da Juventude Operária Católica (JOC). Sendo bispo participou das sessões do Concílio Vaticano II (1964-65), um acontecimento fundamental na renovação da Igreja Católica. Em 1968 o papa Paulo VI lhe confiou a condução da diocese de La Rioja e ali desenvolveu um intenso trabalho pastoral com operários e camponeses, que lhe trouxe como consequência a perseguição de parte do poder econômico e político da província e do âmbito nacional.

Desde o dia em que ocorreu o golpe militar, em 24 de março de 1976, Angelelli manteve enfrentamentos públicos com os militares e seus sacerdotes e colaboradores foram perseguidos permanentemente. Em maio daquele ano os militares decidiram suspender a missa radiada que o bispo difundia a cada domingo e que tinha grande audiência em La Rioja. O lugar de Angelelli foi ocupado por um sacerdote capelão castrense. Mas os inimigos não eram só internos. Também a direita católica endossou e aplaudia o ataque contra o bispo.

Mapa da Argentina, com destaque para a Província de La Rioja (Fonte: Wikimedia Commons)

Há vários testemunhos do ódio que a posição político religiosa de Angelelli gerava nos setores conservadores. Segundo relata Oscar Campana em seu livro Su sangre en el lodo (2019) sobre o bispo assassinado, Antonio Erman González, que foi ministro da Economia de Carlos Menem, afirmou que "em uma reunião de empresários realizada em Chilecito no início de julho (1976), se falou que Angelelli era um bispo vermelho e estava marcado para cair".

O bispo sabia disso, porque cada prisão de algum de seus colaboradores era acompanhada de uma mensagem para o titular do bispado de La Rioja, com ameaças e advertências. Tinha consciência de que sua vida estava em perigo. Mas nessa situação também se sentiu desamparado pela Igreja e por seus companheiros bispos. E só contou isso a seus colegas bispos em uma carta que enviou para a Conferência Episcopal depois que seu vigário geral, o padre Esteban Inestal, foi preso em Mendoza em 12 de fevereiro de 1976. Nesse documento, resgatado por Miguel Baronetto, um dos mais importantes biógrafos do bispo assassinado, Angelelli dizia a seus colegas que "Hoje cai um vigário geral, amanhã (muito próximo) cairá um bispo. Por isso me passa pela cabeça o pensamento de que o Senhor anda necessitando a prisão ou a vida de algum bispo para despertar e viver mais profundamente a colegialidade episcopal" (Vida e martírio de Mons. Angelelli, 2018).

Quarenta e dois anos depois de seu assassinato a Igreja beatifica Angelelli e seus companheiros mártires e os põe como exemplos de vida.

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