Bispos da Nicarágua decidem não participar das negociações com Ortega

Bispos da Nicarágua. Foto: Conferência Episcopal da Nicarágua

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Por: Wagner Fernandes de Azevedo | 10 Março 2019

O presidente da Nicarágua Daniel Ortega cedeu às pressões dos movimentos opositores e anunciou a reabertura da Mesa de Diálogo Nacional. O espaço que foi iniciado depois dos protestos contra a Reforma da Previdência, em abril de 2018, foi suspensa pelo governo que acusou a Igreja Católica de não cumprir a função de mediação, qual era designada, mas sim de oposição. Na sexta-feira, 08-03-2019, a Conferência Episcopal da Nicarágua reuniu-se para debater o posicionamento nessa etapa da crise política do país, e decidiram por não participar da nova rodada de negociações.

O sandinismo e os bispos nicaraguenses nunca tiveram uma relação tranquila. Quando houve a Revolução em 1979, embora a participação das Comunidades Eclesiais de Base junto ao sandinistas, os líderes da Igreja nacional, e até mesmo o Vaticano, se opuseram ferrenhamente aos revolucionários. A principal da Igreja no país à época era o cardeal Miguel Obando y Bravo. Contraditoriamente, justamente Obando y Bravo foi quem aproximou a Igreja-institucional ao sandinismo orteguista.

Em 2002, Obando y Bravo começou a transição de “capelão do somozismo” para o “prócer da reconciliação e da paz”. Uma amizade de conveniência para Ortega, que tinha seu aliado Roberto Rivas Reyes, então magistrado do Conselho Supremo Eleitoral — CSE, acusado de corrupção no seu trabalho na Comissão de Promoção Arquidiocesana. As acusações contra Reyes não seguiram em frente, e logo chegaria ao posto de presidente do CSE, onde permanece até hoje e representa um dos principais eixos de sustentação do atual regime. Recentemente, Reyes foi penalizado pelo U.S. Treasury (Tesouro dos EUA), por meio do Nica Act, acusado de enriquecimento ilícito e de fraude eleitoral.

Apesar das pazes entre Miguel Obando e Daniel Ortega, o restante dos bispos nacionais nunca estiveram alinhados ao atual regime. Nos protestos de 2018, dom Silvio Báez, bispo-auxiliar de Manágua, o cardeal Leopoldo Brenes e o núncio apostólico Waldemar Sommertag tomaram destaque na oposição ao governo. Em diversas manifestações, os bispos estiveram presentes em meio aos opositores do governo. Na cidade de Masaya, no dia 21-06-2018, os milhares de manifestantes se concentraram à espera da chegada dos bispos, que vinham de Manágua, para então marcharem pelas ruas da cidade.

Além da resposta violenta que Ortega preparou nas ruas, com a morte e o desaparecimento de centenas de pessoas, iniciou um ataque público contra a Igreja. Na festa de 39 anos da Revolução Sandinista, chamou os bispos de golpistas. Em outubro, os meios de comunicação do governo divulgaram amplamente um áudio atribuído a dom Silvio Báez, no qual afirmava que era necessário trocar o governo no país. Para o orteguismo esse áudio era a evidência das “ações golpistas e fascistas” da Igreja “que alentava o caos social no país”.

Diversas ameaças de mortes a padres e bispos aconteceram durante o ano de 2018, mais intensamente no mês de julho. Em Sébaco, no norte do país, a sede da Cáritas da Diocese de Matagalpa foi incendiada. Em Juigalpa, padres e freis foram recebidos com tiros ao tentar apaziguar um conflito entre opositores e milícias orteguistas. Em Nindirí, o bispo Juan Abelardo Mata sofreu um atentado, do qual saiu ileso, após presidir uma missa; porém, próximo dali, em Catarina, o padre Jairo Velázquez foi atacado a golpes em sua casa paroquial.

O partido orteguista e a Conferência Episcopal Nicaraguense se tornaram os principais personagens da situação e da oposição durante essa crise. Por isso, a reunião entre os bispos tende a propiciar novos rumos para a situação do país. O jornal El Nuevo Diário escreveu um editorial pedindo consideração da Igreja em se juntar à nova Mesa de Diálogo Nacional. “A confiança que os bispos e sacerdotes inspiram nos cidadãos, com suas boas obras e sua probidade, se converteram em um compromisso com a população nicaraguense, de ajudá-la a encontrar o que mais deseja: justiça, democratização, segurança e paz”, manifesta o jornal.

O bispo emérito de Granada, dom Bernardo Hombach, em entrevista ao portal Artículo 66, apontou que a Igreja somente participaria se houvesse “um diálogo aberto e sincero, que leve para algo bom”. Segundo o Hombach “os bispos não se prestarão a uma maquiagem da situação”.

No final da tarde de sexta-feira, 08-03, a Conferência Episcopal definiu sua posição de não compor a equipe de negociações. Para os bispos, esse é o momento dos leigos assumirem o protagonismo. "Comunicamos aos participantes que não estaremos presente fisicamente, mas acompanharemos como pastores esse momento crucial da nossa Pátria, exercendo nossa missão profética e nos dedicando à oração e ao ministério da Palavra", expressaram os bispos.

Além da participação da Conferência Episcopal, o acordo do governo com a Alianza Cívica, grupo que reúne diversos movimentos e partidos de oposição, previa a participação de um representante da Santa Sé e um da Igreja Evangélica da Nicarágua.

A Mesa de Diálogo priorizará a negociação de três temas: novas eleições, libertação dos presos políticos e justiça transicional. A perspectiva é que as negociações aconteçam todos os dias até um acordo final no prazo estipulado: 28-03-2019.

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