Derretimento milenar. O Papa Francisco e a abertura à China e ao mundo islâmico

Papa Francisco em recente visita a Abu Dhabi | Foto: www.catholicnewsworld.com

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

11 Fevereiro 2019

Estranho paradoxo é o que sofre o Vaticano, o Estado mais antigo e provavelmente mais autocrático do cenário internacional. De um lado, seu prestígio se desgasta a olhos vistos, corroído pelos escândalos e pelos crimes sexuais de numerosos sacerdotes e bispos. De outro, o chefe deste Estado, despojado dos luxos e da pompa dos soberanos pontífices, mantém seu prestígio e consegue que sua Igreja seja mais católica do que nunca, ou seja, mais universal, com sua abertura à China comunista e ao mundo islâmico.

A opinião é de Lluís Bassets, jornalista espanhol, em comentário publicado por El País, 10-02-2019. A tradução é de Graziela Wolfart.

Justamente quando regressam os ventos de uma guerra fria multipolar, na qual os Estados Unidos, Rússia e China competem e combatem entre si, de momento digital e comercialmente, começa um derretimento milenar, quase entre civilizações e crenças. No último mês de setembro, o Vaticano e a República Popular Chinesa abriram as portas para a retomada das relações diplomáticas e para a nomeação consensual de bispos, depois de 70 anos de ruptura e de tensões nas relações exteriores e dentro do catolicismo chinês entre a igreja clandestina e perseguida dos bispos nomeados por Roma e pela igreja oficial de obediência comunista. Na semana passada, o Papa pisou pela primeira vez e celebrou missa na península arábica, concretamente no emirado de Abu Dhabi, terra natal do islã, em boa parte vetada ao culto e inclusive à visita dos infiéis.

O derretimento é entre três visões de mundo que se excluem entre si, porque cada uma delas se situa no centro de suas crenças e recusa o pluralismo e o relativismo. Pequim não pode admitir que Roma nomeie os bispos. O islã não pode admitir o proselitismo do catolicismo universalista: a apostasia leva à pena de morte. Roma não pode abrir mão nem de um milímetro de sua verdade revelada e universal. Só um Papa latino-americano como Jorge Bergoglio, surgido da pobreza dos subúrbios, poderia se atrever de uma só vez a encarar este quebra-cabeça essencial para a convivência no mundo e com a limpeza da podridão moral que corrói a pirâmide hierárquica da Igreja.

O papa Francisco é um pioneiro em muitas coisas no trono de São Pedro. Primeiro jesuíta, primeiro latino-americano, primeiro peregrino na terra do islã, também quer ser o primeiro a viajar para a China e inclusive para a Rússia. Se sua mediação no degelo entre Washington e Havana sob a presidência de Barack Obama foi decisiva, também pode ser agora na crise da Venezuela. Partida por dentro, a Igreja católica está mais aberta ao mundo do que nunca em sua história.

Leia mais