Epiphanius

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23 Novembro 2017

“Questões teológicas, ainda mais naqueles tempos em que a Igreja se definia, deviam ser um pouco como os debates sobre a economia, hoje, no Brasil: evidências valiam menos do que a fé. Aqui e agora, fatos como o efeito que o teto para investimentos públicos por 20 anos e outras consequências da austeridade imposta terão na área social valem menos do que fé no Meirelles”, constata Luis Fernando Verissimo, escritor, na crônica publicada por O Estado de S. Paulo, 23-11-2017.

Eis a crônica.

Epiphanius era o bispo de Salamis, no Chipre, e um dos principais debatedores no grande conflito que dividia o cristianismo no fim do século quatro. Discutia-se a natureza de Deus e os princípios da fé cristã e procurava-se uma verdade única que definisse as doutrinas da Igreja, como a que acabou sendo sacramentada no Credo de Niceia em 381, e repudiasse todas as heresias surgidas até então. E que eram exatamente oitenta, segundo Epiphanius.

O bispo, um ortodoxo ardoroso, não tinha dúvidas sobre o número de heresias da sua lista e reforçava sua tese lembrando que eram 80 as concubinas citadas nos Cantares de Salomão, da Bíblia. Lá está, capítulo 6, versículo 8: “Sessenta são as rainhas e oitenta as concubinas, e as virgens sem número”. Agostinho, que dizia serem 83 as heresias, não tinha um argumento parecido.

O Cântico dos cânticos sempre foi um problema para os exegetas da Bíblia. O que faz um texto erótico no meio do livro sagrado, que tem muito sexo mas nada mais tão sensual (e tão bonito) quanto os seus versos? Uma solução foi interpretar sua linguagem amorosa como linguagem críptica e suas metáforas sexuais como metáforas religiosas. Existe até uma versão da edição do rei James com cabeçalhos explicando que o diálogo poético do texto trata do amor recíproco de Cristo e da sua igreja, sem explicar o que Cristo está fazendo no Velho Testamento.

Como tudo nos Cânticos era mensagem cifrada, Epiphanius podia interpretá-los como quisesse, e as 80 concubinas resistiram como prova da sua tese. Questões teológicas, ainda mais naqueles tempos em que a Igreja se definia, deviam ser um pouco como os debates sobre a economia, hoje, no Brasil: evidências valiam menos do que a fé. Aqui e agora, fatos como o efeito que o teto para investimentos públicos por 20 anos e outras consequências da austeridade imposta terão na área social valem menos do que fé no Meirelles. E a ortodoxia monetarista e neoliberal é triunfante como a ortodoxia que Epiphanius representava no século quarto, apesar dos seus fracassos, e das suas teses às vezes se parecerem muito com o aval das 80 concubinas.

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