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19 Junho 2017

Alexya Salvador, de 36 anos, costuma dizer que “nasceu e cresceu” na Igreja Católica. Durante quatro anos, até frequentou um seminário para seguir o sacerdócio. Contudo, quanto mais o tempo passava, menos encontrava acolhimento naquela religião. Em 2009, há um ano sem ir à missa e ainda com identidade masculina, procurou uma igreja para casar com o professor de matemática Rodrigo Salvador, de 28.

A reportagem é de Priscila Mengue, publicada por O Estado de S. Paulo, 17-06-2017.

Ao visitar o primeiro culto, avistou uma drag queen no púlpito e já soube que passaria a frequentar a Igreja Comunidade Metropolitana (ICM), pioneira mundial na chamada “teologia inclusiva” e fundada em 1968 nos Estados Unidos. “Sempre tive um chamado espiritual muito forte. Era muito difícil para mim não poder exercer isso”, diz. Ao lado da ICM, São Paulo tem ao menos outras três igrejas protestantes abertas à comunidade LGBT: a Igreja Contemporânea Cristã, a Comunidade Cristã Nova Esperança e a Cidade de Refúgio.

Diante desse espaço restrito e também pela pressão política de bancadas religiosas contra reivindicações da causa LGBT, a Associação da 21.ª Parada do Orgulho LGBT escolheu o tema “Independente de nossas crenças, nenhuma religião é Lei! Todas e todos por um Estado Laico” para a edição de 2017, que ocorre neste domingo, 18, a partir das 10 horas, na Avenida Paulista.

A história de Alexya ainda é, portanto, uma exceção. Ela relata que, se tivesse encontrado o conforto que a ICM lhe trouxe, possivelmente teria feito a transição de gênero antes, o que ocorreu apenas em 2012. “Por volta dos 22 anos, disse que era gay, o que não era verdade. Eu me sentia atraída por homens, mas não me considerava um”, relembra. Só por se declarar homossexual, teve de deixar atividades da paróquia que frequentava naquela época, como a catequese.

Hoje pastora auxiliar em um templo em Santa Cecília, zona oeste de São Paulo, Alexya deve tornar-se a primeira reverenda transgênero da ICM na América Latina ainda neste ano. Nos cultos, utiliza uma batina preta com colarinho branco, parecida com a que é utilizada por padres católicos, religião que detém rituais litúrgicos parecidos. Além das atividades na igreja, é professora de geografia e tem dois filhos, Gabriel, de 12 anos, e Ana Maria, de 10 anos, que também é transgênero.

A pastora participa anualmente da Parada LGBT, mas relata haver pouco diálogo entre as igrejas inclusivas. “Fico feliz que existam outras. Acho que a gente deveria ser mais unido. Até porque pessoas LGBT têm pavor de religião, porque foram oprimidas a vida toda por dogmas religiosos. A gente tem de desconstruir esses dogmas e mostrar uma doutrina de amor”, argumenta.

Dentre os temas que dividem a teologia inclusiva estão o consumo de pornografia, bebidas alcoólicas e sexo antes do casamento, além de outros costumeiramente condenados em religiões protestantes. “Na ICM, dizemos que a sua cabeça é o seu guia. Não tem razão para proibir bebida, balada, carnaval, se isso não faz mal nem para mim nem para o outro. Até brinco que sexo antes do casamento não tem problema também desde que não atrase a hora da celebração.”

Cidade de Refúgio

Na quarta-feira, o Estado visitou um culto de uma das maiores igrejas abertas a LGBTs do Brasil, a Cidade Refúgio, que tem a sua principal sede na Avenida São João, no centro de São Paulo. Ela foi criada em 2011, pelo casal de pastoras Lanna Holder, de 42 anos, e Rosania Rocha, de 44, que deixaram a igreja e os respectivos casamentos após se conhecerem.

Com o tema “Vencendo traumas”, o culto reuniu cerca de 250 fiéis, em sua a maioria gays, lésbicas e bissexuais entre 20 e 40 anos, embora também houvesse crianças, idosos e casais heterossexuais. No início, a pastora Rosania e outros integrantes da igreja cantavam versos como “ao Deus da minha vida, que me compreendeu sem nenhuma explicação”. Fiéis erguiam os braços, alguns muito emocionados. Outros, gritavam “aleluia”. Na frente do altar, um rapaz e duas moças vestiam túnicas cor-de-rosa e dançavam.

Em seguida, a pastora Lanna começou o sermão, no qual comparou a história de abandono e abusos sofrida por Jefté, no Antigo Testamento, com o que ela e outras pessoas LGBT viveram. “Jefté vivenciou a dor de um filho desprotegido. Quantos de nós não vivenciamos essa dor?”, questionou a pastora. “Mas Deus nunca foi indiferente com você. Está cuidando de nós nos mínimos detalhes.”

Durante o culto, assistido por ao menos 227 pessoas pela internet, Lanna lembrou os apelidos pejorativos que muitos de seus fiéis já ouviram. “Você não é o maricas que falavam que você era”, disse. Logo depois, em tom descontraído, condenou relações antes do casamento. “Não precisa fazer ‘test drive’. Fala ‘eu sou passivo’, eu ‘sou ativo’ e só. A gente faz uma análise histórico-crítica da Bíblia, mas não podemos mudar o que ela defende.”

Dentre os frequentadores, muitos estavam à vontade em demonstrar afeto com pessoas do mesmo gênero, seja por estar de mãos dadas ou abraçados. Dentre eles estavam a pedagoga Cris Rosa, de 34 anos, que conheceu Marta Almeida, de 48, na igreja que frequenta há seis anos.

Elas se casaram há dois anos naquele mesmo local, com Cris usando um vestido com temática africana. “A primeira vez que eu vim, foi para provocar a Lanna. Eu odiava ela. Achava que ela ainda era uma (Silas) Malafaia de saias, que se dizia ex-lésbica curada”, lembra, ao se referir ao passado da pastora na Assembleia de Deus. “Vim cheia de desaforo, achando que iria detestar, mas chorei o culto inteiro. Nunca mais saí daqui.”

Umbanda e candomblé são mais receptivos

O psiquiatra Marcelo Niel, de 43 anos, começou a frequentar terreiros de umbanda por volta dos 20 anos, quando ainda cursava a faculdade de Medicina. Foi 10 anos depois, contudo, que passou a se declarar gay. Hoje filho de santo no candomblé, Niel estuda as duas religiões em seu doutorado em Antropologia. Segundo ele, a receptividade aos LGBTs depende dos responsáveis pelas casas ou terreiros.

Mas um dos motivos pelo qual Niel atribui o maior espaço no candomblé, por exemplo, é que cada pessoa se reporta ao seu orixá, que pode tanto ser homem quanto mulher. Dentro dos mitos da religião, há casos de orixás andrógenos que se envolveram com figuras do mesmo gênero, como Xangô, considerado o mais viril dentre os orixás. “A gente tem uma relação muito próxima com o nosso orixá, de modo que se acredita até que eles influenciam nossas ações”, diz.

Já na umbanda, a crença é mais voltada para o aspecto espiritual, conforme explica Pai Joãozinho Galerani, do Terreiro da Vó Benedita, de Campinas. “Na minha casa, sempre digo que somos todos iguais e temos que primar pelo amor.”

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