13 Junho 2017
Em Serra Nevada de Santa Marta, ao norte da Colômbia, e com áreas a 5.000 metros de altura, vivem quatro povos indígenas: os Kogui, os Wiwas, os Kankuamos e os Arhuacos. Na declarada Reserva da Biosfera e Patrimônio da Humanidade, no ano de 1979, é possível constatar os efeitos da mudança climática. De acordo com o Instituto de Hidrologia, Meteorologia e Estudos Ambientais (IDEAM), em fins do século XIX, estas montanhas localizadas nos departamentos de Magdalena, Guajira e Cesar contavam com uma massa glacial de 87,2 km quadrados, número que atualmente encolheu para 6,7. Ao sinistro ocorrido na serra durante o conflito armado, vincula-se o ex-paramilitar Hernán Giraldo (el patrón), que chegou em 1969 e entre suas perversas ações estiveram os abusos sexuais contra menores (nos Estados Unidos, foi condenado a 16 anos de prisão por narcotráfico). Os indígenas consideram que viver na serra, o coração do mundo, é habitar com a Mãe, em terra de sábios e de humildade.
A reportagem é de Enric Llopis, publicada por Rebelión, 12-06-2017. A tradução é do Cepat.
Entre os Arhuacos, o Mamo é o guia espiritual, que também coloca em prática os saberes da medicina ancestral. “A lei natural é simples, humildade ao tomar da natureza e manter o equilíbrio”. Esta é uma das máximas de Calixto Suárez, Mamo do povo Arhuaco. Há outra que estabelece o seguinte: “Sensibilidade, percepção e ressonância para ouvir a mensagem da terra”. E, além disso, como povos indígenas, cuidar dos seres humanos e do mundo. Os Mamos são orientadores, harmonizadores, líderes espirituais e políticos; mas apesar de seu reconhecido magistério, as decisões são adotadas em comunidade e todos os membros têm voz. Trata-se, em síntese, de que cada ser humano descubra suas raízes e cuide delas; e de assumir que a humildade representa o grande sinal de sabedoria. “O que mais me interessa é que a terra esteja sadia, a água sem enfermidade e o vento sem vírus”, afirma Suárez, que participou de um encontro com professores do ensino secundário e universitário, no Colégio Mayor Rector Peset, da Universidade de Valência.
Segundo fontes oficiais (censo do ano 2005), na Colômbia existem 85 etnias ou povos indígenas, integradas por mais de 1,3 milhão de pessoas. A maior parte da população indígena (cerca de 80%) mora em áreas rurais de todos os departamentos colombianos, em muitos casos em resguardos. A Organização Nacional Indígena da Colômbia (ONIC) informa que a etnia dos Ijkas ou Arhuacos, nome atribuído pelos conquistadores espanhóis, é um grupo homogêneo integrado por 14.800 pessoas que vivem em 195.900 hectares, embora outras fontes divirjam nos números. A penetração dos colonizadores esmagou os indígenas de Serra Nevada de Santa Marta. No século XIX, o Estado da Colômbia cedeu o controle da região às missões capuchinhas. ACNUR-Colômbia destacava a etnia Arhuaca, em um relatório de 2011, como a mais castigada pela guerra em número de vítimas, após os indígenas Nasa do Cauca e os Kankuamos. Além dos assassinatos e desaparições, entre 2003 e 2008, calcula-se que mais de 2.500 indígenas da etnia Arhuaca sofreram migrações forçadas.
No último dia 28 de janeiro, o jornal Prensa Indígena informou sobre o assassinato da defensora dos direitos da mulher Wiwa, Yoryanis Isabel Bernal Varela, no sul da cidade de Valledupar (Cesar). “Era líder de uma de nossas etnias, começou a trabalhar com os indígenas em Santa Marta e os apoiava em uma delegação Wiwa que está em Riohacha”, afirmou o incumbido governador Arhuaco, Kogui e Wiwa, José de los Santos Sauna. O mencionado jornal destacou que as populações indígenas são objeto de ameaças e intimidações, e esperam que a proteção de seus líderes seja garantida. Também se manifestaram contra os megaprojetos no território, que levam, por exemplo, à perda do patrimônio arqueológico. Este lhes tem sido retirado ou ficado destruído.
Alguém pode acumular vastos conhecimentos, mas talvez percebam, com o tempo, que lhe resultam banais. Calixto Suárez explica que, hoje, na Internet, existe mais informação disponível que nunca, mas o Mamo aprende sobretudo com as pessoas simples e, mais ainda, com aqueles que padecem problemas físicos ou mentais. “Todo mundo é importante, não só os povos indígenas; nosso desejo é que todo mundo se encontre e valorize o que tem”, destaca o líder espiritual, que também atua como diretor do Programa de Direitos Humanos dos Povos Indígenas, da Canadian Human Rights International Organization (CHRIO), e como consultor do Instituto da Terra, na Austrália e nos Estados Unidos.
Mamo Calixto Suárez fala devagar, transmite serenidade e harmonia ao ambiente. O público lhe escuta com grande atenção. Ao seu auditório, seja na Bolívia, Suíça, Itália, Bélgica ou Espanha, diz que sua mensagem é muito simples: não gosta de complicar as coisas. Trata-se de conquistar a paz interior... mesmo que alguém esteja doente. Nesse caso, o objetivo é conviver com a doença. “Sempre que se luta, sofre”. “Quando alguém se formou como ser humano, então é autossuficiente e, mesmo que esteja na pobreza, é feliz”.
Os lugares sagrados se estendem por todo o planeta, conectados entre si como em uma grande rede. São pontos de energia e valores, fundamento da existência do ser humano no universo. Aí reside a essência. O Mamo Calixto Suárez se ocupa destes pontos sagrados em Serra Nevada de Santa Marta. “É preciso deixar estes lugares sadios para nossos filhos, assim como nossos avós nos deixaram”. “Falamos de mudança climática, mas o mais importante é resgatar todos estes lugares de cultura e valores”. Uma das grandes perguntas é a seguinte: Como o ser humano pode canalizar suas energias e se reconectar? É então quando surge a noção de Eco-Consciência. Quando se é criança, explica o líder espiritual, vive-se contente, expressa-se o que se sente; mas ao crescer, abandona-se essa realidade viva. Isola-se, ainda que “se acredite saber muito, no entanto, fica-se muito distante da vida; então, alguns adoecem, outros recebem ruídos que não desejam ouvir”. Ao que correspondem estas disfunções? “95% dos desequilíbrios são por não se amar, nem se valorizar”, afirma o Mamo. “É preciso aprender a ouvir as crianças e compreendê-las”.
Calixto Suárez continua expondo suas ideias. É possível que haja sábios, xamãs e gurus que ajudem a resolver os problemas, mas tudo se complica se o ser humano não se ama, nem agradece, “mesmo que por três segundos, quando se levanta ou se deita; e então se conecta às correntes da vida”. Tão simples como os pássaros que colocam ovos nos ninhos e cantam para infundir energia. Antes de sair de Santa Marta e visitar outros países, pensava que a humanidade se encontrava ao avesso, mas atualmente sua visão das coisas é mais otimista: “Em todas as partes existe a beleza e a capacidade de avançar”.
Nascido a 3.000 metros sobre o nível do mar, o Mamo Calixto Suárez Villafañe perdeu seu pai quando tinha três meses. Contam que um rio o levou... Suas palavras não contêm bajulações conceituais, tampouco necessitam de sisudas validações científicas, notas de rodapé e uma densa bibliografia. “Cada ser humano deve descobrir aquilo que traz ao mundo; nós somos de poucas palavras, mas observamos muito nossos pensamentos; e isto nada tem a ver com a magia”, explica. Quando alguém não desempenha sua tarefa ou missão na vida, produz-se um vazio e é infeliz.
Alguém do público pergunta pelo efeito das novas tecnologias. “A inteligência humana e todas as invenções são magníficas, mas as utilizamos de modo indevido; estamos desperdiçando energia e toda a nossa potencialidade”. Suárez considera de especial importância a recuperação dos alimentos nativos. Destaca que as comunidades da serra estão sendo invadidas por açúcares, remédios e outros produtos. Contudo, não se trata de tornar os traços distintivos dos indígenas um fetiche. Calixto Suárez conheceu muitos líderes espirituais do planeta e lugares de valor, onde estão os espíritos e as essências. “A espiritualidade (alegria, tranquilidade, paz interior) é a essência da vida, aqui não há separações, nem distâncias”. Os guias e líderes, afirma, também se encontram em contínua transformação. Outra pergunta do público se refere ao medo. “Com o medo da perda não se pode trabalhar, e o que se perderá? Não se perde nada”.
Após 20 anos de viagens pela Colômbia, Venezuela, Estados Unidos e outros países, o Mamo do povo Arhuaco conheceu as angústias e desesperos cotidianos das pessoas. Embora “tudo mude quando as pessoas se valorizam”. Em sua qualidade de guia espiritual, perguntam e lhe pedem conselhos, muitos esperam suas palavras. No entanto, “mais importante que pronunciar palavras são as energias”, afirma. Além disso, querem saber o que ocorre na Colômbia. “Mais que do que aos políticos, que nunca nos ouvem, é preciso ir até os empresários, que mandam nos políticos; estes permanecem durante um tempo e depois se vão...”. Também afirma que o sofrimento contamina. Como aquele que os anciãos padecem quando não são respeitados. Nas comunidades, eles são mestres, são venerados. Ensinam as novas gerações e rezam pelas crianças. Quando se rompe o vínculo, gera-se dor, que também influi na mudança climática.
Leia mais
- A verdadeira guerra? Contra a Mãe Terra. Artigo de Vandana Shiva
- Uma ética para a Mãe Terra
- Defender a Mãe terra, um programa político para toda esquerda latino-americana. Entrevista especial com Katu Arkonada
- “A nossa dor é uma só. Por isso devemos nos juntar para defender a nossa Mãe Terra!”
- "Floresta de pé é minha mãe", diz índia cuja tribo ocupou terra para afastar madeireiros
- Construir pontes para salvar a Mãe Terra
- O massacre ocultado daqueles que defendem a “nossa irmã a Mãe Terra”
- O Mal e Bem Viver dos Povos Indígenas no Brasil
- Desenvolvimento, Bem Viver e busca de alternativas
- O auge e a queda do “Bem Viver”
- Para entender a fundo os sentidos de Bem Viver
- O pacto de morte contra os índios e contra o Bem-viver. Entrevista especial com Roberto Liebgott
- Bem-viver indígena, muito além do welfare state. Entrevista especial com Guillermo Wilde