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Debate de teólogas feministas modela desacordo frutífero

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13 Janeiro 2017


Goddess and God in the World: Conversations in
Embodied Theology
De Carol P. Christ e Judith Plaskow
Publicado por Fortress Press, 364 páginas

Mary E. Hunt, teóloga feminista, uma das fundadoras e diretoras da Women’s Alliance for Theology, Ethics and Ritual (WATER), organização sem fins lucrativos sediada em Silver Spring, Maryland, comenta o livro Goddess and God in the World: Conversations in Embodied Theology, de autoria de Carol P. Christ e Judith Plaskow.

O artigo é publicado por National Catholic Reporter, 11-01-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

“Goddess and God in the World” é o esforço das teólogas feministas Carol P. Christ e Judith Plaskow de modelar a forma como discordar sobre algo básico e ainda assim encontrar terreno comum para ação. É um livro oportuno, dada a atual divisão política nos EUA, onde crenças profundamente arraigadas modelam votos, normas e os níveis de conforto na vizinhança. Este diálogo sobre o divino é relevante e convincente.

A clareza das vozes das autoras – individualmente e juntas – não deixa gerar confusão sobre o que acreditam: “Judith enxerga Deus como um poder impessoal da criatividade que é o fundamento de todo o ser e de todo o porvir, incluindo todo o bem e todo o mal. Carol entende Deusa como o amor inteligente encarnado que está em todo ser, uma presença pessoal que cuida do mundo”.

Parece que jamais as duas se encontrarão. Estas colegas, porém, têm mantido um diálogo há décadas com resultados frutíferos.

A história – sim, esse tomo teológico é tão intrigante quanto um romance misterioso – se desdobra na medida em que elas detalham como chegaram a seus pontos de vista; por que razão, apesar dos desacordos, elas continuam sendo amigas próximas; e o que suas teologias têm a ver com viver no mundo que temos. Ambas concordam a respeito da importância das teologias feministas e das especificidades das ações morais que fluem de seus compromissos, porém não persuadem uma à outra de suas opiniões sobre o divino.

Em capítulos alternados, falam sobre os seus primeiros anos em lares cristão (Christ) e judaico (Plaskow). Revelam experiências dolorosas dos anos compartilhados nas décadas de 1960 e 1970 quando cursaram doutorado em uma bem-patriarcal Universidade de Yale, onde poucas mulheres matriculavam-se em religião. Elas refletem sobre os anos de ensino e escrita (que continuam ainda hoje), suas pesquisas reconhecidas e mesmo os amores e desilusões. Oferecem vislumbres de como cada uma procede intelectual e espiritualmente.

A vida é o grão para o moinho teológico. Felizmente, não há muita informação e a autobiografia não é o árbitro final de nada. O que temos nesta obra é uma teologia destilada baseada na vida real.

As visões das autoras sobre o divino refletem a própria incorporação de cada uma. Plaskow vive em sua amada cidade de Nova York, onde se aposentou com professora emérita na Manhattan College, tendo passado a maior parte de sua carreira como uma judaica que lecionava entre católicos. Christ vive em Lesbos, na Grécia, onde coordena passeios religiosos e se engaja em ações políticas pelo Partido Verde.

A amizade entre elas é um elemento forte que percorre o livro. No entanto, a amizade não impede a franqueza, por vezes críticas impressionantes de uma à outra. Imaginemos que um amigo nos diga que nossas ideias equivalem a uma realização dos desejos. Responder sem ficar na defensiva requer um alto nível de maturidade.

Essa troca, e outras de poder igual, são predicados em uma relação rara e notável. O resultado destas trocas é uma teologia encarnada, não solipsista surgida no nível teórico.

Numa obra escrita de forma clara e, ao mesmo tempo, ambiciosa, as pesquisadoras situam as suas próprias convicções no contexto do pensamento teológico ocidental, especialmente na história das teologias feministas a que elas tanto contribuíram para criar. Ambas assumem que o trabalho feminista é normativo e o usam como um trampolim para novos insights, ao invés de usá-lo para defender a sua existência. Os capítulos sobre teologia que escreveram juntas formam um livro dentro de um livro que alunos sérios irão querer estudar. As abordagens críticas e construtivas compartilhadas marcam uma nova fase do trabalho feminista em religião.

A questão central é por que, quando enxergam o mundo de um modo tão parecido, elas não obstante veem o divino de maneiras tão diferentes. Christ afirma o divino como uma presença pessoal enquanto Plaskow afirma um poder que compreende tudo, o bem e o mal, sem distinção. As autoras esmiúçam os muitos motivos pelos quais chegam a tais conclusões, as forças inevitavelmente complexas e multivalentes modelares das ideias fundacionais.

Fiquei menos persuadida do que elas parecem ter ficado sobre a importância das mães na formação das nossas noções do divino. Para mim, a ênfase delas nas mães soou um pouco estereotipada e estreita. Muitíssimas pessoas influem na maneira como vemos o mundo. Mas pretendo ponderar este tema em outro artigo, e procurar por algo que talvez me esteja falando.

“Goddess and God in the World” é um livro cuidadosamente estruturado, escrito de forma acessível, bem fundamentado com pesquisas e com notas explicativas necessárias. Será usado para ensinar metodologia assim como conteúdos de teologia. Os leitores e as leitoras estão convidados, na verdade muitos irão se sentir obrigados, como eu, a voltarmos para dentro de nós mesmos/as do mesmo modo rigoroso que fizeram as autoras.

Seja para os peritos teológicos, seja àqueles simplesmente interessados em como as mulheres fazem sentido em um mundo contrariado, esta obra de Christ e Plaskow prova que as mulheres podem e devem levar as nossas experiências a sério, porque estas fazem a diferença. Elas nos fazem ansiar por amigos/as intelectuais e espirituais com quem podemos nos envolver em diálogos profundos.

Leitores ávidos aguardam uma sequência em que as autoras se voltem sobre tópicos como a maneira que uma vida após a morte afeta (ou não afeta) a vida diária. Elas podem trazer mais detalhadamente seus programas éticos. Seria fascinante ver a aplicação de seus métodos em outras tradições religiosas. E a crítica que elas não levaram para além do binarismo de gênero na fórmula “Goddess and God” (Deusa e Deus) fica para ser respondida.

Christ e Plaskow oferecem um novo jeito de fazer teologia e um estudo fascinante de como pensar sobre o divino. Organizem o seu próprio grupo de estudo e apertem os cintos para uma torrente de pensamento teológico que está mudando o mundo.

Leia mais

  • Discurso feminista sobre o divino em um mundo pós-moderno. Artigo de Mary E. Hunt. Cadernos teologia Pública, Nº. 66
  • Comunhão ou desunião? Artigo de Mary E. Hunt
  • A arriscada experiência polifônica do divino. Entrevista especial com Carlos Mendoza-Álvarez. Revista IHU On-Line, Nº 422
  • Teologia feita por mulheres a partir da feminilidade
  • Teologia feminista, não "feminina"
  • Teologia e Feminino: uma narrativa no mundo pós-moderno
  • A presença da mulher na Igreja: retórica sem mudanças significativas. Entrevista especial com Ivone Gebara
  • Entre teologia da mulher e ideologia de gênero. Artigo de Rita Torti
  • A revolução de uma verdadeira teologia da mulher
  • Teologia, a ascensão das mulheres. Entrevista com Serena Noceti
  • ''Não adianta uma teologia das mulheres, é preciso dar-lhes voz''. Artigo de Bia Sarasini

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