Filhos mais pobres do que os pais: anos 2000 como o pós-guerra

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16 Agosto 2016

A última década abalou a ordem econômica: os filhos estão mais pobres do que os pais e, talvez, destinados a permanecer assim. Isso nunca tinha acontecido desde o pós-guerra até a passagem do milênio. A Itália se destaca, dentre todos os países avançados, como aquele em que essa inversão geracional é mais perturbadora.

A reportagem é de Federico Rampini, publicada no jornal La Repubblica, 13-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O empobrecimento generalizado e a inversão das expectativas são os fenômenos documentados no último Relatório McKinsey. O título é "Poorer than their parents? A new perspective on income inequality" (Mais pobres do que seus pais? Uma nova perspectiva sobre a desigualdade de renda).

O fenômeno é de massa e, praticamente, sem exceção no mundo desenvolvido. O que ajuda a explicar – de acordo com o próprio Relatório McKinsey – é o desconforto social que alimenta populismos de todas as cores, do Brexit a Donald Trump. Por causa do empobrecimento e do choque geracional, um número crescente de cidadãos não acreditam mais nos benefícios da economia de mercado, da globalização, do livre comércio.

O estudo da McKinsey examinou as 25 economias mais ricas do planeta. Todo o Ocidente mais o Japão estão dentro. Nessa área, o desastre ocorre na década entre 2005 e 2014: está dentro a grande crise de 2008, mas, na realidade, a tendência tinha começado antes.

Entre 65% e 70% da população se encontram, no fim da década, com rendas paradas ou mesmo em declínio em relação ao ponto de partida. O problema aflige entre 540 e 580 milhões de pessoas, um público imenso. Nunca tinha acontecido nada parecido nos 60 anos anteriores, ou seja, desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Entre 1993 e 2005, por exemplo, apenas uma minúscula fração da população (2%) tinha sofrido um atraso nas condições de vida. Agora, o empobrecimento é uma questão que diz respeito à maioria. A Itália se distingue por causa do primado negativo. É de longe o país mais afetado: 97% das famílias italianas no fim desses 10 anos estão paradas no ponto de partida ou se encontram com uma renda diminuída.

No segundo lugar, estão os Estados Unidos, onde a estagnação ou a recessão atingem 81%. Seguem a Inglaterra e a França. A Suécia está definitivamente melhor, onde apenas uma minoria de 20% sofrem dessa síndrome.

O que faz a diferença, no fim, é a intervenção pública. O modelo escandinavo ainda tem algo a nos ensinar. Na Itália, olhando para os resultados dessa investigação, não há vestígio de políticas sociais que reduzam as desigualdades ou compensem a crise da renda familiar.

A outra conclusão do Relatório McKinsey diz respeito aos jovens: a primeira geração, há muito tempo, que está pior do que os pais. "Os trabalhadores jovens e os menos instruídos – afirma o relatório – são os mais atingidos. Eles correm o risco de acabar a sua vida mais pores do que seus pais e suas mães." Essa geração está consciente disso, confirma a pesquisa: ela introjetou a inversão das expectativas.

O estudo não se limita a traçar um quadro desolador. Ele acrescenta distinções cruciais para entender como sair dessa situação. O caso da Suécia é apontado como uma exceção positiva por causa das políticas econômicas dos governos e as intervenções no mercado de trabalho que combateram com êxito a tendência geral.

"O Estado na Suécia se mexeu para manter os postos de trabalho, e, assim, para a maioria da população no fim da década, a renda disponível tinha crescido para quase todos."

Até mesmo os hiperliberais Estados Unidos, no entanto, fizeram algo para combater as tendências de mercado. Reduzindo a pressão fiscal sobre as famílias e aumentando os subsídios de bem-estar, os EUA agiram para compensar o esgotamento com algum sucesso. Na Itália, uma vez incorporados os efeitos das políticas fiscais e de bem-estar, o resultado final é ainda pior: passa-se de 97% para 100%, portanto, a totalidade das famílias estão piores em termos de renda disponível.

Se for deixada a si mesma, a economia não vai curar o empobrecimento, nem mesmo se recomeçasse a crescer: "Até mesmo se reencontrássemos o alto crescimento do passado, de 30% a 40% da população não desfrutarão de um aumento de renda".

E, ao contrário, se o fraco crescimento da última década continuar, de 70% a 80% das famílias dos países avançados continuarão tendo rendas estacionárias ou em queda.