O astrônomo do Vaticano

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18 Mai 2016

Para chegar ao escritório do Irmão jesuíta Guy Consolmagno, precisamos pegar um trem em direção ao sudeste de Roma. O local fica a uma hora da Cidade do Vaticano, num um cenário bucólico que conta com o Lago Albano e com a cidadezinha de Castel Gandolfo. Assim que descemos do trem e andamos algumas ruas, vemos uma pequena placa de bronze cujas inscrições latinas dizem: “Specola Vaticana”. Basta abrir as portas e estaremos no Observatório Vaticano: um laboratório secreto numa cratera vulcânica, simplesmente é o sonho de todo o cientista promissor.

E o Irmão Guy é um cientista, além do seu trabalho na Igreja. Natural de Detroit, ele possui dois mestrados pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts – MIT e um doutorado pela Universidade do Arizona.

A reportagem é de Fiona Zublin, publicada por Ozy, 15-05-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Num outro momento de sua vida, ele elaborou modelos computacionais teóricos de vários corpos do sistema solar: modelos que acabaram se mostrando corretos.

Mas uma crise em sua fé nesta pesquisa o mandou se juntar ao Peace Corps, agência humanitária do governo americano, e então aos jesuítas, o que o levou para o seu chamado atual: a ciência em nome de Deus. Há 23 anos, Guy trabalha no Observatório Vaticano e, no ano passado, foi nomeado como diretor.

Nos Estados Unidos, a ciência e a religião são, geralmente, entendidas como dois lados de uma Guerra Santa e, de fato, os cientistas por vezes se colocaram contra a doutrina católica: a 400 anos atrás, a Igreja condenava os ensinamentos heliocêntricos de Galileu como “formalmente hereges”.

Mas já aí era fundamental para a Igreja Católica ter cientistas em seu meio. Astrônomos criaram o calendário para Gregório, e o Vaticano ainda tem um pequeno grupo de oito ou nove cientistas jesuítas ocupados pensando e pesquisando; o financiamento destes é mais estável do que a maioria daqueles disponíveis no mundo acadêmico, em particular porque o voto de pobreza que eles proferem contribui para baixar os custos de manutenção dos mesmos.

Enquanto isso, o Papa Francisco, ele próprio um cientista formado, trouxe à tona inquietações científicas como as alterações climáticas juntamente com a sua ênfase, muito elogiada, na questão da justiça social. “Eu acho que o Papa Francisco está fazendo a diferença na forma como se percebe a ciência”, diz Celia Deane-Drummond, botânica e professora de teologia da Universidade de Notre Dame, nos EUA.

“Temos uma liberdade enorme de ir aonde acharmos ser interessante”, afirma o Irmão Guy. Embora a NASA financie uma missão espacial ou a criação de grande telescópio, pode ser difícil convencer o Congresso de financiar a pesquisa cotidiana em que a maior parte dos cientistas, de fato, se põe a trabalhar. No entanto, este trabalho de pesquisa é o que nos ajuda a interpretar os dados que uma espaçonave coleta, por exemplo.

No Vaticano, a sua pequena equipe não tem de se preocupar com a redução que o dinheiro sofrerá, muito embora o orçamento milionário em euros seja bastante pequeno quando comparado ao resto dos investimentos vaticanos. Com este um milhão de euros vem uma certa liberdade de estudar o que achamos interessante, o que conduz a uma ampla gama de tópicos: como as galáxias se aglomeram, como o universo se formou e onde pode estar o próximo exoplaneta interessante.

Pode ser difícil encontrar cientistas para trabalhar no Observatório, posto que eles devem ter dois diplomas avançados: um da academia e outro dos jesuítas.

Chris Impey, chefe do departamento astronômico da Universidade do Arizona em Tucson, onde o Observatório construiu o seu novo telescópio quando a poluição luminosa de Castel Gandolfo se tornou um problema, serviu no conselho consultivo que escolheu o novo diretor do Observatório.

Embora fosse uma pessoa agradável e possuísse um currículo repleto de pesquisas proeminentes, havia duas coisas desfavoráveis ao Irmão Guy: ele não era um padre jesuíta – ele é um irmão – e, além disso, era americano.

O Vaticano não quer que o Observatório se pareça demasiado americano, especialmente quando o seu recrutamento se centra nos países latino-americanos e asiáticos, onde o catolicismo está se edificando. Mas “é preciso escolher o melhor para a função”, diz Impey. “E ele [Guy] era o melhor para este cargo”.

Michelle Francl, química-teórica da Bryn Mawr College, conheceu o Irmão Guy num congresso promovido por Google. “Ele estava usando uma camisa que dizia: ‘Pergunte-me sobre o meu voto de silêncio’, enquanto falava alto no ônibus”, diz ela. Eles acabaram conversando sobre achar um lugar para irem à missa juntos. Na qualidade de fiel e cientista, ela percebe muitas coisas em comum entre as duas disciplinas, citando a descrição da contemplação religiosa, do teólogo jesuíta Walter Burghardt, como um “olhar demorado e amoroso sobre o real”.

Embora o Irmão Guy reconheça haver uma cultura de guerra entre a religião e a ciência, para ele não existe conflito algum. “De certa forma, os cientistas e os religiosos são os últimos a dizer: ‘EXISTE uma verdade’”, segundo ele. Ainda que tenha conhecido pessoas que acham ser preciso negar a ciência para permanecer verdadeiro à fé, Guy não vê nenhuma batalha intrínseca entre Deus e Galileu, mas apenas com alguns de seus seguidores.

Guy Consolmagno põe a religião dentro do diálogo científico de uma forma inesperada, aparecendo em eventos de ficção científica – ele é um fã de longa data que escreveu algumas histórias ficcionais terríveis não publicadas ainda – e em congressos científicos ao redor do mundo.

Mas esta não é a sua maior batalha: ele precisa lidar com grupos religiosos ligados a fundamentalistas que, segundo ele, muitas vezes temem o desconhecido, enquanto ao mesmo tempo são pessoas curiosas por novos achados. Felizmente, a astrofísica é a melhor ciência possível para isso. “A astronomia é a maior porta de entrada para a ciência”, diz ele, e qualquer um que já caminhou ao ar livre numa noite clara e tentou contar as estrelas sabe que ele está certo.

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