Justin Welby lamenta “mágoa” de anglicanos à comunidade LGBT

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19 Janeiro 2016

Justin Welby se desculpou pela “mágoa e dor” causadas pela Igreja Anglicana à comunidade LGBT.

A reportagem foi publicada por BBC, 15-01-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O Arcebispo de Canterbury fez este e outros comentários enquanto defendia a decisão de restrição do ramo americano progressista da citada igreja por autorizar o matrimônio homoafetivo em sua jurisdição.

Ele afirmou que não cabia aos arcebispos anglicanos “dividir a igreja” e que a união seria “dolorosa bem como repleta de alegria”.

Ao mesmo tempo, Welby acrescentou ser uma “fonte constante de tristeza profunda saber que as pessoas estão sendo perseguidas por suas orientações sexuais”.

O líder religioso estava falando na sequência de um acordo entre os líderes anglicanos em torno de medidas de contenção da Igreja Episcopal americana, o que incluiu proibi-la de participar em espaços de tomada de decisão pelos próximos três anos.

O acordo – alcançado em um encontro de quatro dias promovido pelos 39 primazes anglicanos em Canterbury – também manteve a “doutrina tradicional” do matrimônio como sendo entre um homem e uma mulher.

Líderes episcopais e ativistas criticaram a decisão, com uma multidão reunindo-se para protestar diante da Catedral de Canterbury.

O chefe da Igreja Episcopal americana, o bispo presidente Michael Curry, contou ao programa The World Tonight, da BBC Radio 4, que esta experiência da comunidade gay e lésbica estava sendo semelhante àquela dos afro-americanos, acrescentando: “Mesmo depois da emancipação havia os que ficaram excluídos e segregados”.

Os anglicanos vêm se dividindo quanto à questão da homossexualidade e do matrimônio entre pessoas do mesmo sexo desde que a Igreja Episcopal dos Estados Unidos ordenou um bispo abertamente gay em 2003.

Líderes disseram que esta postura era uma “ruptura fundamental” da fé da maioria naquela que é a terceira maior denominação cristã no mundo.

“Tristeza profunda”

Falando no Encontro dos Primazes deste ano, o Arcebispo Justin Welby disse que encarar os manifestantes, em particular os que vêm da África, era um lembrete da “dor e do sofrimento de muitas pessoas LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e intersexuais) ao redor do mundo”.

Disse ele: “Para mim, esta é uma fonte constante de tristeza profunda, o número de pessoas que são perseguidas por suas orientações sexuais. Não tenho o direito de falar em nome de todos, mas quero usar esta oportunidade para dizer o quanto lamento pela mágoa e dor, no passado e no presente, que a Igreja causou”.

Mas defendendo a decisão de restringir a Igreja Episcopal americana, ele disse que a “unidade mostrada pelos primazes” iria ser “dolorosa assim como repleta de alegria e muito marcante”.

“Não cabe a nós dividir o corpo de Cristo, não cabe a nós dividir a igreja”, disse.

O racha em torno da postura assumida pela Igreja Episcopal dos EUA concernente ao matrimônio homoafetivo e à homossexualidade remonta à ordenação do canonista abertamente gay Gene Robinson.

Robinson foi feito bispo da Igreja Episcopal da Diocese de New Hampshire em 2003.

Mais de 100 anglicanos do alto escalão lançaram mão de uma carta aberta na semana passada para instar a Igreja da Inglaterra a se arrepender da “discriminação” contra os cristãos gays e lésbicas.

No entanto, os líderes anglicanos em Canterbury disseram que a aprovação do matrimônio gay por parte da Igreja Episcopal era um “rompimento fundamental para com a fé e o ensinamento” da maioria dos anglicanos.

O líder anglicano negou a ideia de que a igreja americana estava sendo penalizada, porém disse que ela estava enfrentando as “consequências” e afirmou que essa decisão contava com o apoio da “maioria esmagadora” dos primazes anglicanos.

Perguntado se a posição da igreja a fez parecer antiquada, ele admitiu que isso aconteceria em algumas partes do mundo, mas não em outras.

Assim se expressou Welby: “Esta posição nos faz parecer desatualizados nos EUA e no Reino Unido, sim, mas não em outras partes do mundo”.

“Somos uma igreja global e isso significa que existem opiniões diferentes em lugares diferentes. Ele também disse que os maus-tratos que a comunidade LBGTI tem recebido em alguns países, especialmente aqueles onde a homossexualidade é criminalizada, continuam sendo uma “importante preocupação”.

Análise

Havia uma atmosfera de desconfiança significativa neste encontro, o que talvez não deveria ser surpresa dada a animosidade dos anos passados entre as mais tradicionalistas das províncias e as mais progressistas.

O desacordo quanto à doutrina anglicana concernente ao matrimônio homoafetivo é, provavelmente, um desacordo mais fundamental do que as divisões que se alastraram em torno do ordenamento de mulheres ao sacerdócio.

Mas o subtexto do encontro era a luta pelo poder bem debaixo da questão sobre quem deveria conduzir a Comunhão Anglicana no futuro: os países do sul global, onde as congregações estão em crescimento, representadas em parte pelo Global Anglican Future – GAFCON (grupo conservador) ou por Canterbury, a sua fonte de liderança tradicional baseada em um norte global cada vez mais secular, onde as congregações estão em declínio há muitos anos.

Por meio da diplomacia e da negociação – e de uma ausência da imprensa que aconteceu até o último dia do encontro –, a Comunhão Anglicana sobreviveu como uma única igreja, por enquanto.

A formulação cuidadosa da resolução alcançada pela maioria dos primazes certificou-se de que não havia menção alguma das palavras “sanção” ou “punição”, embora estivesse enormemente claro o sentimento em torno da ação unilateral da Igreja Episcopal.

Portanto, muito embora a Comunhão Anglicana não tenha “se mudado para quartos separados”, como alguns haviam esperado, ela continua a viver em uma casa profundamente dividida.

A GAFCON, organização que representa os líderes anglicanos conservadores, disse que ficou feliz com o resultado, porém, também declarou, “esta ação não deve ser vista como um fim, mas como um começo”.

O bispo presidente Michael Curry da Igreja nos EUA contou ao programa World Tonight, da BBC Radio 4, que esta decisão traria “grande dor” aos membros gays e lésbicas da Comunhão Anglicana.

Assim se expressou: “Os que são seguidores batizados de Jesus – quer sejam gays, lésbicas, bissexuais ou transgêneros –, se estão comprometidos em seguir o caminho de Jesus, deveriam ter acesso igualitário a todos os serviços e sacramentos na vida da Igreja”.

Ele também defendeu a decisão da Igreja Episcopal em alterar o cânone a fim de autorizar que cônjuges do mesmo sexo possam se casar na igreja.

“Obviamente, trata-se de um sério desacordo. Acreditamos que a decisão que tomamos é a certa e que eles manifestaram o descontentamento e desacordo, e nós respeitamos isso”.

Outros cristãos gays e apoiadores do matrimônio igualitário teceram críticas à decisão.

O ex-ministro anglicano e deputado pelo partido trabalhista inglês Chris Bryant, que é gay, disse: “Hoje finalmente desisti da Igreja Anglicana, depois desta sua decisão vazia de amor a respeito da sexualidade. Um dia isso parecerá errado, assim como o é apoiar a escravidão”.

O Arcebispo Justin Welby deve nomear uma força-tarefa com o intuito de reconstruir a confiança na Comunhão Anglicana.

Os anglicanos, cujas origens remontam ao trabalho missionário da Igreja da Inglaterra, formam o terceiro maior grupo cristão no mundo, estando atrás somente dos católicos romanos e dos ortodoxos.

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