''Com Francisco, o papa filósofo, o cristianismo volta à sua pureza''

Mais Lidos

  • O manifesto perturbador da Palantir recebe uma enxurrada de críticas: algo entre o tecnofascismo e um vilão de James Bond

    LER MAIS
  • A socióloga traz um debate importante sobre como as políticas interferem no direito de existir dessas pessoas e o quanto os movimentos feministas importam na luta contra preconceitos e assassinatos

    Feminicídio, lesbocídio e transfeminicídio: a face obscura da extrema-direita que viabiliza a agressão. Entrevista especial com Analba Brazão Teixeira

    LER MAIS
  • ​Economista e jesuíta francês ministra videoconferência nesta terça-feira, 28-04-2026, em evento promovido pela Comissão para Ecologia Integral e Mineração da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em parceria com Instituto Humanitas Unisinos – IHU

    Gaël Giraud no IHU: Reabilitar os bens comuns é uma resposta política, social, jurídica e espiritual às crises ecológicas e das democracias

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

07 Julho 2014

Estou convencido de que Francisco é um pontífice muito filósofo, mas poucos se deram conta disso. Tende-se a pensar que a filosofia só se expressa com linguagem acadêmica; ao contrário, a filosofia é chegar à essência das coisas e expressá-la de modo simples, e Francisco tem exatamente essa capacidade.

A opinião é do filósofo italiano Giovanni Reale, em artigo publicado no jornal Il Messaggero, 30-06-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Na entrevista concedida por Francisco ao Il Messaggero, encontrei algumas das novidades revolucionárias que este papa está introduzindo e que nem todos entenderam ainda.

Estou convencido de que esse é um pontífice muito filósofo, mas poucos se deram conta disso. Tende-se a pensar que a filosofia só se expressa com linguagem acadêmica; ao contrário, a filosofia é chegar à essência das coisas e expressá-la de modo simples, e Francisco tem exatamente essa capacidade.

Das palavras de Francisco, entende-se que a primazia para o cristão deve ser dada ao encontro com a pessoa de Cristo, que é posta acima do encontro com as ideias. O cristianismo não é ideologia, é um encontro com a pessoa.

É um conceito que Kierkegaard expressou de modo estupendo: quando não houver mais ninguém que ouça o Cristo contemporâneo, defende o grande filósofo, o cristianismo estará acabado.

A contemporaneidade de Cristo – uma contemporaneidade espiritual, entenda-se – é a condição da fé.

Na entrevista, o papa relembra com grande força os conceitos de pobreza e humildade, e observa justamente que isso não significa ser comunistas, mas, no mínimo, foi o comunismo, 2.000 anos depois, que roubou do cristianismo a bandeira dos pobres.

Kierkegaard expressa o mesmo conceito com outras palavras: "O enviado é Jesus Cristo, o humilhado. E foi ele que pronunciou as palavras de convite, mas não sentado na glória", porque, "para crer em Cristo, é preciso começar com o abaixamento".

Se ele tivesse vindo na glória, na riqueza, bem-vestido, teriam acorrido a ele os tolos, os pagãos. Mas Cristo é outra coisa: é o abaixamento, isto é, a pobreza. Por pobreza, Francisco entende tanto a física quanto a espiritual, "as periferias", como ele as chama. Ir buscar o homem na sua humildade total.

Francisco, além disso, fala de outra grande revolução que ele está implementando: a reforma da Cúria, que não é um ato político, não é apenas uma reorganização estrutural, como é dito às vezes nos jornais.

Francisco faz com que as pessoas entendam que a Igreja não é a Cúria, mas sim uma comunidade de cristãos que creem em Cristo, dos quais Cristo é a cabeça, e a Cúria é apenas – segundo a terminologia aristotélica – uma manifestação acidental, mas não a substância.

A dimensão do poder temporal deve ser eliminada pouco a pouco. Apesar das muitas reformas já feitas, a Igreja muitas vezes ainda tem os pés no poder.