A vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições presidenciais, assim como o sucesso de seu partido nas eleições legislativas e estaduais, coloca a esquerda brasileira contra as cordas. A sociedade civil progressista já se somou à campanha de Lula para reverter o resultado no segundo turno.
O artigo é de Bernardo Gutiérrez, publicado por Nueva Sociedade, 08-10-2026.
Bernardo Gutiérrez jornalista, escritor e pesquisador hispano-brasileiro. Seus livros incluem Calle Amazonas (Altair, 2010), Pasado mañana (Arpa Editores, 2017) e Saudades de junho (Liquid Books, 2020). Editou livros como Junho: potência das ruas e das redes (Friedrich Ebert Stiftung, 2015), Democracias futuras (Medialab Prado, 2019) e StoryCracia (Medialab Prado, 2020).
O triunfo de Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições presidenciais, assim como o sucesso de seu partido nas eleições legislativas e estaduais, coloca a esquerda brasileira contra as cordas. A sociedade civil progressista já aderiu à campanha de Lula para reverter o resultado no segundo turno.
Um tsunami conservador arrasou o Brasil no domingo, 4 de outubro. Conservador, embora não exclusivamente bolsonarista. O candidato de extrema direita, Flávio Bolsonaro, recebeu o voto do bolsonarismo radical e o de boa parte das direitas. Reuniu o voto contra a esquerda e o de milhões de pessoas desencantadas com uma realidade em que, apesar dos indicadores econômicos sob controle, a vida se torna cada vez mais difícil.
O candidato do Partido Liberal (PL) se impôs de surpresa no primeiro turno das eleições presidenciais com 47,03% dos votos. Conseguiu 2.224.965 votos a mais que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que colheu 45,16%. Nenhuma pesquisa antecipou o resultado. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro votou no Rio de Janeiro convencido de que venceria no primeiro turno, guiado pelas pesquisas internas de seu partido. “Há um claro movimento de voto de raiva já neste primeiro turno. Quem votaria em outros candidatos já está votando em Flávio Bolsonaro”, afirmou depois de votar.
Os primeiros resultados da apuração – das eleições legislativas e estaduais – foram um balde de água fria para a esquerda. O governador de São Paulo e fiel aliado do bolsonarismo, Tarcísio de Freitas, arrasou com 62,65% dos votos válidos diante de Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda e ex-candidato presidencial do Partido dos Trabalhadores (PT). Cleitinho Azevedo, um candidato evangélico também aliado de Bolsonaro, deu outra surpresa ao se impor no primeiro turno em Minas Gerais, o segundo colégio eleitoral do país. A esquerda ganhou apenas três dos 19 estados cuja eleição se definiu no primeiro turno e disputará outros dois no segundo turno.
O resultado das eleições legislativas também foi um golpe para o PT, em especial as do Senado. As ex-ministras Marina Silva e Simone Tebet, candidatas em São Paulo, ficaram de fora, assim como Benedita da Silva, figura histórica do PT, no Rio de Janeiro. Em ambos os estados triunfaram candidatos de extrema direita. Com 29 senadores, o PL de Bolsonaro se consolidou como o principal partido de uma Câmara Alta amplamente controlada pela direita. O PL também ampliou sua presença na Câmara dos Deputados: conseguiu 121 cadeiras, 22 a mais que em 2022, à custa do centrão, um bloco de partidos ultrapragmáticos que vai do centro à direita. Ainda assim, o panorama na Câmara dos Deputados é um pouco menos desolador para a esquerda: seus seis partidos somam 118 cadeiras, uma a mais que em 2022.
O triunfo do bolsonarismo nas eleições legislativas também teve uma dimensão simbólica: triunfaram suas figuras mais conhecidas e de linha dura. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e Carlos Bolsonaro, respectivamente esposa e filho de Jair Bolsonaro, foram eleitos senadores. Sérgio Moro, o juiz que prendeu Lula em 2018, é o novo governador do Paraná sem necessidade de segundo turno. Ao mesmo tempo, o jovem político e influenciador Nikolas Ferreira se tornou o deputado mais votado da história, com 3.119.314 votos em Minas Gerais. Seu apoio por meio de transmissões ao vivo e publicações nas redes sociais ajudou a eleger deputados de extrema direita em todo o Brasil. Enquanto isso, fracassaram as candidaturas de quase todas as figuras históricas da esquerda.
Os coordenadores da campanha de Lula, os analistas eleitorais e os cientistas políticos continuam tentando compreender o resultado. À primeira vista, a distribuição territorial do voto oferece algumas respostas: Lula se impôs no Nordeste, seu grande bastião (66,76% contra 30,85%), mas Flávio Bolsonaro melhorou em 3,97 pontos percentuais o resultado de seu pai no primeiro turno de 2022 nessa região. No crucial Sudeste, que concentra quase 66,5 milhões de eleitores, Lula perdeu 1,8 milhão de votos em relação a 2022. No entanto, a explicação do aumento dos votos para Flávio Bolsonaro (3,83 pontos percentuais a mais que Jair em 2022) é mais complexa: abrange todo o país e responde a diferentes causas. De onde surge o vigor eleitoral de um candidato que, segundo algumas pesquisas, é rejeitado por 56% da população? É possível que Lula vença no segundo turno quando a maioria dos demais candidatos, que se situam do centro à direita e somam 7,58% dos votos, já chamou a votar em Bolsonaro?
Se na campanha de 2022 os meios de comunicação tiveram um papel relevante ao denunciar a corrupção e o autoritarismo do governo de Jair Bolsonaro, na campanha atual adotaram desde o começo uma posição crítica em relação a Lula. Isso se verificou, de modo especial, na poderosa Rede Globo. Durante o mês de agosto, a Globo insistiu nas suspeitas contra o filho de Lula, Fábio Luis Lula da Silva, conhecido como Lulinha, por um suposto tráfico de influência que não foi provado. Paralelamente, os grandes meios de comunicação foram mais indulgentes com Flávio Bolsonaro: deram escassa relevância aos casos de corrupção que o envolvem e tampouco destacaram os fatos que foram aflorando quando a Justiça levantou o sigilo das apurações sobre o Banco Master, um escândalo financeiro que respinga especialmente na direita. Se em julho passado a mídia divulgou o financiamento ilegal de Dark Horse, um filme biográfico sobre Jair Bolsonaro, com dinheiro desse banco, algo que então pareceu afundar Flávio nas pesquisas, durante a campanha mal se publicaram as novas revelações do caso.
Os grandes meios tampouco deram muita relevância à investigação da Polícia Federal sobre uma emenda parlamentar de quase 200.000 reais que Flávio Bolsonaro destinou em 2023 a uma entidade vinculada aos irmãos Brazão, condenados como mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco em 2018. Algo semelhante ocorreu com as revelações do site PlatôBR, baseadas em mensagens e fotos de um ex-sócio do candidato, que o vinculam a festas privadas com prostitutas, a um Rolex de 305.000 reais pago por um advogado e a uma suposta gestão junto a um juiz do Supremo.
O caso de Ana Clara Gomes Machado, uma menina de cinco anos assassinada a tiros por um policial no Rio de Janeiro que Flávio Bolsonaro defendeu como advogado, só chegou ao grande público graças à iniciativa independente Revelando. “O jornalismo de massa pensa que é necessário buscar um equilíbrio, mesmo quando ele não existe. Colocar as suspeitas sobre o PT em igualdade com as que pesam sobre Flávio Bolsonaro é em si um desequilíbrio”, denunciou o jornalista Bruno Torturra no popular podcast Calma urgente. Só quando Flávio começou a subir nas pesquisas, meios conservadores como O Estado de S. Paulo publicaram editoriais que advertiam sobre o risco de que um eventual governo seu favorecesse as milícias que nasceram no Rio de Janeiro, onde hoje controlam bairros inteiros, e se estenderam a outros estados. Seu poder se baseia na extorsão e na exploração ilegal de serviços. Flávio Bolsonaro mantém vínculos documentados com esse mundo. Sendo deputado estadual, homenageou Adriano da Nóbrega, ex-capitão da Polícia Militar apontado como chefe de um grupo de pistoleiros, e empregou em seu gabinete a mãe e a ex-esposa dele.
O papel das grandes empresas de tecnologia nas eleições, embora ainda não tenha sido investigado a fundo, gerou suspeitas. Como assinalava o ensaísta Moysés Pinto Neto, a “fragmentação do espaço público” produzida pelas plataformas oferece a cada pessoa, por meio dos algoritmos, uma visão distinta da realidade social. Durante a campanha registraram-se episódios que alimentaram as denúncias de um viés político das plataformas. O Facebook suspendeu temporariamente a publicidade de Lula. O Projetemos, um coletivo que projeta mensagens políticas em paredes de todo o Brasil, denunciou a suspensão de seu grupo de WhatsApp. O Instagram eliminou um vídeo do humorista Fábio Porchat sobre a relação de Flávio Bolsonaro com o caso do Banco Master. Um estudo do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) revelou que 68,1% da publicidade da Meta analisada entre 16 de agosto e 16 de setembro atacava instituições ou levantava suspeitas sobre o processo eleitoral.
O papel da inteligência artificial também está sob suspeita. Um estudo da organização Ekō, que fez as mesmas perguntas ao ChatGPT, Gemini, Grok e Meta AI simulando eleitores de diferentes tendências, constatou que esses sistemas recomendavam candidatos segundo o perfil do usuário, apesar de uma resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibir isso. O Gemini, por exemplo, desaconselhou votar em Lula diante de um perfil conservador. Em outra interação, o ChatGPT omitiu informações sobre o banqueiro Daniel Vorcaro e afirmou que não havia provas de irregularidades cometidas por Flávio Bolsonaro.
No começo de setembro, um vazamento sacudiu a campanha eleitoral. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, nomeado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro por ser “terrivelmente evangélico”, vazou supostas conversas de WhatsApp entre outro integrante da Corte, Alexandre de Moraes, e Daniel Vorcaro, o banqueiro envolvido no caso Master. O vazamento buscava demonstrar que o poderoso Moraes, conhecido popularmente como Xandão e inimigo de Bolsonaro, havia recebido favores de Vorcaro, entre eles contratos milionários para o escritório de advocacia de sua esposa.
A crise dentro do Supremo foi um balão de oxigênio para o bolsonarismo. Embora rapidamente tenha se tornado público que outros integrantes da Corte estavam mais implicados no caso Master que Moraes, o eleitorado associou a corrupção do Supremo, um dos alvos frequentes do bolsonarismo, a Lula. Além disso, o episódio ajudou Flávio Bolsonaro a capitalizar o sentimento antissistema. Na reta final da campanha, o candidato de extrema direita explorou o lema “Muda Brasil”, usado por seu pai nas eleições de 2018. Em suas declarações após o resultado eleitoral, destacou acima de tudo uma palavra: “mudança”.
Por sua vez, Lula repetiu a fórmula eleitoral de 2022, com Geraldo Alckmin como candidato a vice-presidente, o que reforçou sua identificação com o sistema político. “O terceiro mandato de Lula esteve quase invariavelmente associado ao centrão, conformando-se com os limites da institucionalidade conservadora, evitando tensioná-la por meio da pressão popular”, escreve o jornalista Antônio Martins. O jornalista Roberto de Toledo, no programa especial da UOL na noite eleitoral, destacou o desgaste da velha política. “O caso de Cleitinho nos mostra claramente que o eleitor não quer mais os candidatos da velha política. Nestas eleições, também perderam velhas dinastias familiares que governaram por décadas no Nordeste e no Norte”, pontuou.
Enquanto a extrema direita abriu espaço a dirigentes jovens que não vêm da política tradicional, o PT segue se apoiando em suas figuras históricas. Várias delas sofreram derrotas importantes: Patrus Ananias, como candidato ao governo de Minas Gerais, José Dirceu (um dos fundadores do PT), como candidato a deputado, e Gleisi Hoffmann (ex-presidente do PT), ao Senado. A exceção dentro do PT foi Ana Elisa, uma influenciadora que conseguiu mais de meio milhão de votos como deputada. À esquerda do PT, o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) conseguiu eleger como deputados figuras como Renato Freitas e Jones Manoel, referências da luta antirracista, ou Rick Azevedo, um funcionário de farmácia que impulsionou o debate sobre o fim do regime de trabalho de seis dias de trabalho por um de descanso, conhecido como “escala 6 × 1”. A mulher trans Erika Hilton, uma das principais impulsionadoras dessa demanda, foi a segunda deputada mais votada de São Paulo.
A segurança pública também parece ter tido um peso importante no resultado. A reeleição no primeiro turno do governador paulista, Tarcísio de Freitas, e a eleição de seu secretário de Segurança, Guilherme Derrite, como senador, ambos defensores da “mão dura”, mostram a força eleitoral dessa agenda. Todos os novos senadores do PL incluem a segurança no centro de seu discurso. A designação das organizações de narcotraficantes brasileiras Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital (PCC) como terroristas por parte de Donald Trump reforçou o discurso de Flávio Bolsonaro, que ganhou na maior parte da zona norte do Rio de Janeiro, marcada pela presença do narcotráfico, onde Lula havia triunfado em 2022.
Apesar de o governo ter aprovado seu projeto contra as organizações criminosas e de a campanha de Lula ter lançado no fim da semana passada o documentário curto Perigo, veja isto antes de votar – uma revisão das denúncias de corrupção e dos vínculos de Flávio Bolsonaro com as milícias –, o presidente não consegue disputar com eficácia uma agenda de segurança atravessada pelo trumpismo e pela onda de notícias falsas do bolsonarismo que o associam ao crime. “A designação das facções como terroristas deu a Flávio uma bandeira forte na segurança pública”, afirma o cientista político Octavio Amorim Neto em entrevista publicada no jornal Nexo. Segundo o pesquisador, a intervenção estadunidense na campanha começou com o aumento das tarifas em julho de 2025.
Embora seja difícil medir sua incidência no resultado, a ingerência dos Estados Unidos também tem sido objeto de denúncias. O PT sustentou que a rede de doadores conservadores Rockbridge Network, cofundada pelo vice-presidente estadunidense J.D. Vance, investiu na campanha de Flávio Bolsonaro. Também se questionou a atuação, a partir de Miami, das plataformas de apostas Kalshi e Polymarket. Além disso, o governo mandou investigar um financiamento de um milhão de dólares procedente dos Estados Unidos a grupos que questionam as decisões da Justiça brasileira. Na sexta-feira anterior às eleições, o governo estadunidense suspendeu o atendimento ao público em seus consulados no Brasil e alegou “riscos de segurança”. A revista Fórum revelou que o Sistema Brasileiro de Inteligência havia emitido um relatório que alertava para uma operação psicológica para “gerar um clima de tensão permanente até o domingo”.
Em agosto deste ano, durante os primeiros dias da campanha eleitoral, a equipe de Flávio Bolsonaro divulgou vídeos gravados em supermercados. Enquanto a campanha de Lula lançava vídeos sobre sua longa e emotiva trajetória política, a de Flávio comparava os preços dos produtos durante o governo de Jair Bolsonaro e o terceiro de Lula, com todo tipo de manipulações. A inflação está controlada e alguns produtos até baixaram de preço. No entanto, a alta do preço da gasolina pela guerra no Irã e o encarecimento de alguns produtos agrícolas por problemas derivados da mudança climática generalizaram a sensação de que a vida está mais cara.
Nessa “guerra de preços”, o PT chegava tarde e mal para desmentir as peças da campanha dos bolsonaristas. Tampouco conseguiu comunicar bem que o governo de Lula eliminou o imposto de renda para quem recebe até 5.000 reais mensais (cerca de 1.000 dólares). “A campanha passou longe dos problemas cotidianos das pessoas”, assegurou na UOL a jornalista Thais Bilenky no domingo eleitoral. Em agosto, o Brasil bateu o recorde de endividamento familiar: 82% das famílias têm alguma dívida. O endividamento com cartões de crédito e as elevadas taxas de juros – a taxa de referência se situa em 13,75% – mal apareceram na campanha da esquerda. Para abordar o endividamento, Lula apostou em proibir as apostas on-line por meio de um decreto presidencial. “A inflação pode estar sob controle, mas o endividamento das famílias azedou qualquer sensação de bem-estar”, escreveu Igor Gielow em um artigo da Folha de S.Paulo após as eleições.
A campanha de Lula não conseguiu atrair os evangélicos, que já representam mais de um quarto da população. O Datafolha revelou pouco antes do primeiro turno que Flávio Bolsonaro tinha 52% de intenção de voto entre os evangélicos, contra 26% de Lula (entre os católicos, Lula tinha 50% e Flávio, 32%). As organizações evangélicas progressistas que apoiaram Lula na campanha de 2022 não tiveram o mesmo protagonismo nestas eleições. Embora a religião não seja o único motivo, o bolsonarismo arrasou nos dois estados mais evangélicos, Rondônia (67,45%) e Acre (64,56%).
No Rio de Janeiro, um dos estados com maior proporção de evangélicos do Sudeste, obteve seu melhor resultado da região (53,01%). Nos dias anteriores às eleições, registrou-se uma intensa atividade em igrejas evangélicas, que pediram expressamente o voto contra Lula, a quem acusam de querer destruir a família tradicional. Apesar da diversidade do mundo evangélico, que também inclui setores progressistas, o pentecostalismo cresce rapidamente e se tornou uma das peças-chave do bolsonarismo. Sua fórmula combina a cruzada em defesa dos valores morais, o antilulismo e a “teologia da prosperidade”, segundo a qual a riqueza e o sucesso individual são sinais da bênção divina.
O antilulismo e o antipetismo – uma rejeição ao PT construída ao longo do tempo – foram motores fundamentais da campanha de Flávio e dos candidatos que o acompanham. O lema “Fora Lula” foi visto ao longo da campanha em camisetas, adesivos, faixas, cartazes e até em ônibus, como o usado por Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro. Alguns candidatos prepararam um kit contra Lula que enviavam a quem se cadastrava em um site. Uma parte importante dos eleitores de Flávio não se considera bolsonarista: define-se, antes de tudo, como antilulista e antipetista. Não existe 50% de fascistas no Brasil, como assinalou há alguns dias o acadêmico Marcos Nobre. Por isso, Flávio Bolsonaro já anunciou que sua estratégia para a campanha do segundo turno, em 25 de outubro, se centrará no antipetismo.
A concentração do voto útil em sua candidatura também pode se relacionar com a forma como as pesquisas apresentam a disputa. Como sustenta o jornalista João Paulo de Oliveira, essas medições parecem responder à pergunta “Quem pode derrotar Lula?” no segundo turno, mais do que tentar descobrir qual candidato conservador era o mais competitivo no primeiro. Quando o candidato Augusto Cury apareceu como vencedor diante de Lula em um hipotético segundo turno, algo que ninguém além de Flávio Bolsonaro havia conseguido, deixou de ser incluído nas pesquisas posteriores.
Depois do impacto dos resultados, Lula pediu para mudar radicalmente sua campanha. Felipe Nunes, diretor do instituto de pesquisas Quaest, sustenta que Flávio Bolsonaro é favorito e que Lula terá de formar uma frente ampla. Aponta uma das grandes diferenças entre as campanhas de 2026 e 2022: se naquele ano Lula construiu uma ampla frente em defesa da democracia, com diferentes partidos e figuras da sociedade civil, em 2026 foi às eleições apoiado pelas esquerdas e por seu prestígio histórico. Desde o domingo do primeiro turno, muitas vozes têm solicitado a criação urgente de uma frente democrática com vistas a 25 de outubro. “No entanto, uma frente democrática tem de ir além do Congresso, da classe política e das Forças Armadas. Tem de chegar à sociedade civil. Lula não quis mobilizar o centro liberal, que não está preocupado apenas com a democracia, mas também com a estabilidade macroeconômica e a política externa”, sustentou o cientista político Octavio Amorim Neto no Nexo.
Enquanto Lula e Flávio Bolsonaro tentam fechar acordos com os candidatos derrotados, a campanha do presidente aposta em uma estratégia de persuasão de quem votou em outros candidatos. Lançou um documento para dialogar com quem não votou nele e um site e um aplicativo, Onde dá para conversar, que cruzam dados eleitorais por território e oferecem chaves para convencer eleitores de diferentes perfis a votar em Lula.
Embora os eleitores de Augusto Cury (Avante, de centro), Ronaldo Caiado (Partido Social Democrático, conservador), Romeu Zema (Partido Novo, liberal) e Renan Santos (Missão, de extrema direita) tendam à direita, Flávio Bolsonaro não tem garantido seu apoio. Na semana passada, a pesquisa Meio/Ideia revelou que 55,6% dos eleitores de Cury votariam em Lula, contra 27,8% que escolheriam Flávio Bolsonaro. Por outro lado, apenas 26,4% dos eleitores de Caiado votariam em Flávio. No entanto, Caiado acaba de anunciar seu apoio ao candidato do PL. Renan Santos (Missão), vinculado ao Movimento Brasil Livre (MBL) e que tentou construir uma direita independente do bolsonarismo, ficou em quarto lugar com 2,24% dos votos. Após a apuração, anunciou que não apoiará nem Flávio nem Lula no segundo turno, embora tenha reconhecido que dá como vencedor o candidato do PL.
A campanha de Lula tem o desafio de estender a mão a quem não se considera nem lulista nem esquerdista. O medo de um novo governo da família Bolsonaro é sua principal carta. O analista Leonardo Sakamoto, em um artigo publicado no mesmo dia das eleições, sustentava que o “brasileiro exausto” da polarização política poderia definir as eleições, especialmente entre os 21,1% de abstencionistas e os maiores de 70 anos, mais próximos de Lula. Não ocorreu no primeiro turno. E se ocorrer no segundo turno, não será apenas graças à campanha oficial, mas também aos milhões de cidadãos que, como em 2022, já estão nas ruas e nas redes buscando votos para reverter o resultado do primeiro turno.