06 Outubro 2026
A reportagem de Marcelo Menna Barreto, publicada por ExtraClasse, em 05-10-2026.
O projeto De Olho nas Eleições (Done) divulgou, nesta segunda-feira, 5 de outubro, um relatório preliminar sobre a abstenção, os votos brancos e os nulos no primeiro turno das eleições gerais. Os 33,5 milhões de brasileiros que não foram votar no primeiro turno entraram nos cálculos de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) para o segundo turno. Com uma diferença de apenas 1,87 ponto percentual entre os dois candidatos, recuperar uma parcela desse eleitorado pode ser decisivo no dia 25 de outubro.
A abstenção chegou a 21,08% do eleitorado apto, ou 33.469.244 pessoas. Foi a maior taxa registrada em uma eleição presidencial desde 1998. Outros 5,97 milhões de eleitores compareceram às urnas, mas votaram em branco ou anularam o voto. Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, uma diferença de 2.224.965 votos.
O relatório do Done chega a uma conclusão que recomenda cautela. Em vez de tentar atribuir uma motivação aos ausentes, os pesquisadores olharam para a distribuição territorial da abstenção.
Diferenças expressivas foram identificadas. No Sudeste, 22,70% dos eleitores aptos não compareceram. No Centro-Oeste, foram 21,70%. No Nordeste, 18,39%. O Ceará teve a menor taxa do país, 15,52%; Mato Grosso do Sul, a maior, 23,87%. Entre os dez estados com menor abstenção, oito são nordestinos.
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O resultado contraria uma explicação simples baseada na pobreza. A abstenção não é maior justamente nas regiões de menor renda. Mesmo depois de considerados fatores como urbanização, alfabetização, renda e tamanho do eleitorado, permanece uma diferença regional importante.
Há ainda outro dado que chama atenção. A abstenção praticamente não acompanha os votos brancos e nulos. A correlação entre a ausência e os votos em branco foi de 0,024; entre a ausência e votos nulos, de 0,164. Em outras palavras, municípios onde mais gente deixou de votar não são necessariamente aqueles onde mais gente votou em branco ou anulou o voto.
“O comportamento não vai junto. É difícil saber qual a causa disso. Eu só sei que elas não variam juntas”, diz João Feres Júnior, que coordenou o levantamento junto a Carolina de Paula, do Laboratório de Estudos da Mídia e Esfera Pública (Lemep), ligado ao Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj). O trabalho cruza os resultados municipais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com dados socioeconômicos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O relatório, por isso, não transforma a abstenção em sinônimo de apatia, protesto ou descrença. Os pesquisadores afirmam que os dados não permitem distinguir essas hipóteses de outros fatores, inclusive administrativos. Isso não significa que o descrédito não exista. Significa que não é possível medi-lo a partir desses números.
Um eleitor difícil de decifrar
Quem são politicamente esses eleitores? Para onde iriam se decidissem votar? Por que tantos não foram votar? O que poderia levá-lo de volta às urnas no dia 25?
Para Jair Pinheiro, professor do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Marília, que pesquisa temas como ideologia e competição eleitoral, a primeira impressão é que a abstenção de domingo não alterou radicalmente o padrão das eleições brasileiras. Por isso, ele não considera que a ausência às urnas possa ser apontada como causa do resultado do primeiro turno.
A dificuldade está em saber o que há por trás desses números. Para Pinheiro, pode existir entre parte dos ausentes um certo cansaço com a política. Nesse caso, seria menos provável que esse eleitor se mobilizasse novamente apenas duas semanas depois. Mas o professor também ressalta que não há como prever para qual candidato tenderia a votar quem decidir retornar às urnas.
A corrida pelos votos que não vieram
A incerteza não impede as campanhas de tentar alcançar esse eleitorado. “Como a diferença é pequena, qualquer voto a mais agrega, acrescenta”, lembra Pinheiro.
A equipe de Flávio Bolsonaro já incluiu entre suas prioridades conquistar parte dos cerca de 40 milhões de eleitores que se abstiveram, votaram em branco ou nulo. A estratégia para o segundo turno terá o antipetismo como eixo e a ideia de que o resultado expressou uma demanda por mudança.
No campo de Lula, a mobilização dos abstencionistas também aparece como preocupação. A campanha pretende localizar eleitores que poderiam ter votado no presidente, mas não compareceram ao primeiro turno, e levá-los às urnas no dia 25.
A outra frente é a negociação com os candidatos derrotados. Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD) não declararam apoio a nenhum dos dois. O PSD decidiu manter neutralidade e liberar seus diretórios estaduais para escolherem seus próprios caminhos.
Os votos dos quatro principais candidatos que ficaram fora do segundo turno somam cerca de 9,3 milhões — muito menos que os 33,5 milhões de ausentes, mas um eleitorado mais facilmente identificável.
O que pode fazer Lula virar?
É justamente aí que a análise de Pinheiro ganha outra dimensão. Para ele, o segundo turno não deve ser uma repetição da disputa do primeiro. Comparar as biografias de Lula e Flávio, na sua avaliação, não seria suficiente para produzir a mudança necessária no resultado. O eleitor, diz, demonstrou uma expectativa difusa de mudança e de um futuro melhor.
Há ainda, segundo o professor, uma questão que a campanha de Lula precisará enfrentar: o peso que o Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou na disputa eleitoral. Pinheiro considera que a pauta institucional funcionou como um importante elemento de mobilização de Flávio.
Por isso, entende que o PT deve tentar ocupar a agenda do segundo turno, em vez de apenas reagir aos assuntos colocados pelo adversário.
“Agendar o debate”, na definição de Pinheiro, significa fazer com que a campanha fale sobre o governo, suas propostas e o futuro do país. Entre as possibilidades, ele cita a antecipação de grandes projetos de desenvolvimento e uma resposta política para a crise envolvendo o STF.
Nesse último caso, o professor defende que Lula apresente propostas e abra diálogo com entidades da sociedade civil. A intenção seria mostrar que existe uma saída para a crise institucional sem que isso signifique enfraquecer ou destruir o Supremo.
A disputa pelo futuro
A leitura de Pinheiro também ajuda a entender por que a abstenção não deve ser tratada apenas como um problema estatístico.
Se parte dos eleitores está cansada da política, simplesmente pedir que vote pode não ser suficiente. A campanha terá de apresentar uma razão para voltar à urna. Essa é uma das incógnitas do segundo turno. Outra é saber se a mobilização será suficiente para alterar a relação de forças construída no domingo.
Flávio começa a segunda etapa na frente, com 56,1 milhões de votos contra 53,9 milhões de Lula. A diferença foi inferior a dois pontos percentuais — a menor entre os dois primeiros colocados em um primeiro turno presidencial desde a redemocratização.
Nesse cenário, qualquer movimento pode pesar. Mas o relatório do Done impõe um limite às projeções: os 33,5 milhões de ausentes não constituem uma reserva eleitoral à espera de ser conquistada por um dos candidatos.
A abstenção tem uma geografia, apresenta relações com características sociais dos municípios e mantém uma parte importante de sua variação sem explicação. O próprio relatório identifica uma forte dependência espacial que não é explicada pelas variáveis analisadas.
Até 25 de outubro, portanto, Lula e Flávio terão de disputar duas eleições ao mesmo tempo. Uma será pelos votos de quem já foi às urnas e escolheu outro candidato. A outra será, de maneira mais incerta, pela decisão de quem sequer apareceu para votar. E essa segunda disputa talvez seja a mais difícil de prever.
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