O filme israelense que documenta o genocídio em Gaza

Foto: UNRWA

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06 Outubro 2026

“Ainda vejo os nazistas como o mal. Mas o que é que isso significa que eu sou?”

A informação é de Miguel Marujo, publicada por 7Margens, 04-10-2026.

A 60 quilômetros ao norte da Faixa de Gaza, pela costa do Mediterrâneo, a capital israelense fervilha de vida, num cotidiano em que os céus por vezes se iluminam com projéteis vindos de Gaza. A partir dos telhados de Tel Aviv, um homem entrevista sob anonimato 24 antigos operacionais de uma unidade de elite do Exército de Israel, e aquelas palavras estilhaçam o encanto da cidade moderna que passa em segundo plano.

Naza, o filme dos realizadores Yuval Abraham e Rachel Szor, é um objeto de cinema que ultrapassa os limites da tela e nos coloca frente a frente com a máquina de morte que Israel montou para destruir Gaza – cometendo genocídio.

O título do filme vem da gíria militar hebraica (nezek agavi) para “danos colaterais”, civis que têm de morrer para que um alvo do Hamas seja atingido, mesmo que seja um combatente quase desconhecido. É sempre melhor dizer que morreram 20 “nazas” do que dizer que morreram 20 pessoas, incluindo mulheres e crianças, esclarece um dos homens ouvidos. Outro argumenta que os “alvos” são mortos em sua casa, com a família, e não em combates. Foi assim que o exército israelense decidiu: matá-los em casa, com a família, à noite. “É mais fácil”, atira um dos antigos operacionais.

Nos apartamentos, filmados em noites límpidas ou com poucas nuvens, enquanto passam aviões, há quem limpe a mesa de jantar, quem estenda roupa ou fume na varanda, e quem veja televisão, naqueles dias centrada no massacre de 7 de outubro, no qual o Hamas matou cerca de 1.200 israelenses, e na guerra lançada por Israel contra o pequeno enclave palestino, que resultou no genocídio em curso.

O contraste é evidente: as cenas domésticas daquelas casas, as ruas entupidas de automóveis e as esplanadas cheias de gente chocam com os episódios que aqueles militares, nos telhados dos prédios, vão contando a Yuval Abraham (filmados por Rachel Szor e um “anônimo”). Eles ouviam os choros, os risos, as conversas banais de fim de dia de uma família – antes de matarem mulheres, crianças, velhos, jovens.

Um dos antigos militares assume que aquilo que está sendo feito é genocídio, que ele colaborou nesse genocídio. E não há dúvida alguma, como define a Convenção de Genebra: o sistema montado por Israel, demonstram-no de forma clara estes militares israelenses, visa destruir deliberadamente uma parte ou o todo do povo palestino, que vive encurralado em Gaza. Outro entrevistado recorda a visita que fez à Polônia, na escola, quando criança, e se pergunta como o povo alemão pôde agir daquela forma. “Ainda vejo os nazistas como o mal”, diz, “mas o que é que isso significa que eu sou?”

Um dos homens fala em como se divertiam, entusiasmados pela adrenalina: “A intenção é matar. E até pode ser divertido. Cumprir missões é bacana.” Sem que suas consciências pesassem. “Não, porque não se falava sobre isso.”

O sistema montado vive da inteligência artificial e de algoritmos que rastreiam celulares, mensagens e fotos dos telefones para melhor matar os membros do Hamas. Mas também seguem os celulares de crianças, como a filha de 12 anos de um combatente palestino que é o alvo espionado para que se saiba quando o homem chega a casa. Uma “naza”, entre os muitos milhares de “nazas”, danos colaterais, que estes 24 ex-operacionais admitem ter matado. “Ninguém se importava” com aquelas casas cheias de crianças.

Estreado em Veneza há um mês, Naza recebeu uma ovação de 25 minutos em pé no último festival da cidade dos canais, e começou a ser visto pelo mundo todo. Exceto em Israel: nenhuma distribuidora se compromete a exibi-lo, e o governo de Netanyahu lançou sua fúria sobre os realizadores, prometendo retirar-lhes a nacionalidade israelense.

O filme, produzido pelo jornal inglês The Guardian (e outras duas produtoras), será distribuído gratuitamente em novembro no YouTube, e os realizadores esperam que assim seus concidadãos possam ver o filme. E entender que o que seu governo está fazendo em Gaza se chama genocídio.

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