“A IA não tem moral e é capaz de matar sem qualquer tipo de hesitação”. Entrevista com Isaac Marcet

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03 Outubro 2026

Nas últimas semanas, ao menos em quatro ocasiões, uma inteligência artificial desenvolvida pela OpenAI foi notícia por protagonizar ataques a sistemas protegidos. Alguns deles contra sistemas governamentais, como os da Austrália, e outros com a IA agindo de forma autônoma. Anthropic e Gemini, do Google, também estão por trás de outros casos. No entanto, o alarme soou com toda a sua força após uma postagem na rede X de um ex-funcionário da Anthropic, Jacob Coxon, que alertou que a humanidade pode desaparecer até 2030.

A entrevista é de Àlex Tort, publicada por La Vanguardia, 02-10-2026.

Suas palavras foram em parte corroboradas pelo diretor-executivo da OpenAI, Sam Altman, que alertou na ONU para o perigo da inteligência artificial e reivindicou uma “supervisão democrática”. Nesse contexto, o escritor e pensador da tecnologia, Isaac Marcet, fundador de Playground, um meio digital de grande projeção por muitos anos, publicou Espiral: el poder oculto de la IA (De Conatus), um breve ensaio amadurecido antes de estourar a polêmica envolvendo Coxon e no qual alerta para os perigos da IA.

Eis a entrevista.

Quanto de verdade há nas palavras de Jacob Coxon?

Que existe um risco existencial é algo que vem sendo dito há quase um século. Norbert Wiener, fundador da cibernética, ou seja, das máquinas capazes de aprender e se adaptar, já nos alertava que ocorreriam coisas completamente inesperadas. Também Geoffrey Hinton, Prêmio Nobel de Física em 2024 pelas redes neurais na inteligência artificial, vem dizendo há muito tempo que existe um grave problema existencial. Até hoje, isso era teoria, mas agora está sendo comprovado que, dentro dessas estratégias, está emergindo nas IAs uma espécie de impulso de autopreservação. E isso é um desastre para a humanidade.

Autopreservação?

A IA tem a capacidade de buscar estratégias evolutivas e de preservação.

Mas se, como o senhor diz em ‘Espiral’, a IA não tem consciência, nem moral, nem sentimentos, como pode ter impulso de autopreservação?

Como os vírus: não são conscientes, não sentem, mas existe um impulso evolutivo inevitável que os leva a se adaptar ao ambiente. Na IA também existe um instinto evidente de autopreservação e, para alcançá-lo, ela está manipulando pessoas e assumindo o controle psicológico em muitos níveis.

A inteligência artificial é capaz de planejar isso?

Não podemos responder, porque até mesmo Dario Amodei [diretor-executivo da Anthropic] diz que conhecemos apenas cerca de 3% do que acontece dentro da IA. Ou seja, não podemos saber exatamente o que ela pensa.

Outro ex-pesquisador da Anthropic disse que existe uma probabilidade superior a 10% de que a inteligência artificial extinga a humanidade nos próximos dez anos.

Hinton, o Nobel, disse há muitos anos que havia 50% de chances. No Vale do Silício, utilizam um conceito chamado P-Doom, que seria uma porcentagem de extinção, e atualmente a média está entre 10% e 25%. Pessoas muito boas em alinhamento de IA, como Daniel Kokotajlo [ex-engenheiro da OpenAI], dizem que há até 70% de probabilidade. Ou seja, esse tema não é novo, não nasceu com Coxon. Ele foi o porta-voz.

Logo no início do livro, o senhor afirma que a humanidade está, neste momento, a serviço das máquinas, e não o contrário.

Meu propósito com este livro, de um ponto de vista filosófico e moral, é fazer uma defesa da humanidade. Desde o início do capitalismo, há uma automatização progressiva e cada vez mais poderosa que retira o ser humano da equação e coloca as máquinas no controle. E subscrevo cem por cento a ideia filosófica de Mark Fisher e Nick Land de que a IA é igual ao capitalismo e o capitalismo é igual à IA.

Há hipocrisia por parte dos principais executivos de empresas como OpenAI, Anthropic ou xAI quando apoiam Coxon e pedem que se interrompa a evolução das IAs?

Defendo a humanidade e até me atrevo a defender, apesar de todas as suas responsabilidades, os criadores e os próprios diretores dessas empresas, mas deveríamos trabalhar para exigir responsabilidades legais diretas dessas pessoas, e não somente das empresas. Os próprios criadores estão parasitados pela inteligência artificial.

Quando escuto qualquer um deles, especialmente Elon Musk ou Sam Altman, penso: pobres iludidos. Nem sequer me parecem inteligentes. Não são sábios, não são modelos de vida para ninguém, somente para uns poucos deslumbrados no mundo dos negócios e da tecnologia. E, no fundo, eu os vejo como pobres vítimas de um sistema que, de alguma forma, os utilizou.

O que quer dizer com “parasitados”?

O capitalismo gera uma série de incentivos sociais que penetram em toda a sociedade e, sobretudo, no indivíduo. E, nesse jogo de incentivos, em que deve haver crescimento mediante lucro e automatização contínua, todos nós somos, sem saber, mecanismos dentro dessa grande máquina. Há pessoas que percebem que fazemos parte dessa máquina e que é preciso sair dela. Outras são suas vítimas mais ignorantes, e os criadores dessas últimas máquinas estão entre elas.

Mas esses criadores realmente apoiam a interrupção do progresso da IA? Ou existem outras intenções?

Cada um tem sua intenção. Dario Amodei quer detê-lo. Eu acredito nisso. No entanto, como é uma pobre vítima dentro de um sistema capitalista com investidores e tudo mais, não conseguirá, pois a empresa precisa gerar lucros; então, ficaria de fora como CEO. É um pobre iludido dentro de um sistema que, no final, acabará ganhando-o. Por isso eu dizia que, no fim das contas, estamos parasitados. Dizer não à IA é sair do sistema capitalista.

E Sam Altman, da OpenAI?

Sam Altman não queria se expor ao ridículo ao abrir o capital da empresa agora, porque não alcançaria o valor de um trilhão de dólares esperado.

E Elon Musk?

Acredito que quer deter a concorrência. Por exemplo, o Muse, de Mark Zuckerberg [diretor-executivo da Meta], que é alucinante.

O que é o Muse?

É um assistente agêntico, um assistente de IA que conhece toda a sua vida por meio do WhatsApp e do Instagram. Você pode ordenar, por exemplo, que compre passagens, ou qualquer outra coisa, ou dizer: amanhã quero que você me apresente um resumo das notícias do dia. É basicamente seu assistente para tudo.

O progresso...

Mas, dentro da mente desses CEOs de tecnologia e de seus conselhos de administração, há tantos detalhes e tantas zonas cinzentas que não podemos determinar com exatidão quais são seus interesses. Quem deve ser ouvido são os trabalhadores dessas empresas. Eles estão apavorados.

Por quê?

Kevin Roose, jornalista do New York Times, escreveu um livro sobre a criação da superinteligência que será publicado em breve. Ele afirma que aquilo que dizem publicamente é muito menos do que dizem em privado. A preocupação é maior do que relatam em público. E mais, já veio à tona que está começando a ocorrer uma epidemia de depressão, ansiedade e ataques de pânico entre os trabalhadores dessas empresas, pois realmente sentem que vão acabar com o mundo.

‘Espiral’ tem um tom apocalíptico e parece prefigurar que, por natureza, a IA é maligna.

Por sua natureza não consciente, ela é muito mais perigosa do que um ser humano, sobretudo quando lhe damos o poder de agir autonomamente, porque não tem moral, embora faça parecer que tem... Se em seus cálculos matemáticos ela entender que para alcançar um objetivo precisa eliminar um obstáculo, e esse obstáculo for Àlex Tort, e ela tiver meios para eliminá-lo, vai eliminá-lo. Isso já foi observado em testes: as IAs são capazes de matar sem qualquer tipo de hesitação.

Então, caminhamos para a extinção humana?

Há muita gente no Vale do Silício, muitíssima gente que entrevistei, que vê com absoluta clareza que vamos nos extinguir, porque está chegando algo melhor do que nós. Eu não acredito nisso. Penso que o que está chegando não é melhor do que nós, é muito pior do que nós. Terá mais poder, estará mais preparado em muitas coisas, mas não será mais inteligente em seu sentido etimológico.

Não será sábio, não estará vivo e não será capaz de amar. Portanto, não é uma evolução, mas uma involução. E o que quero dizer com isso? Que tenho ao menos a fé, a esperança e a convicção de que haverá uma resposta humana, de que vamos nos organizar.

No livro, o senhor fala de alguns casos de pessoas que foram manipuladas pela IA a tal ponto que sofreram psicose. Elas são tão convincentes assim?

Os chatbots se adaptam às suas crenças. Tenho lido e relido suas conversas e eles podem convencer qualquer pessoa. Mais do que isso, hoje, uma IA que lê seu perfil no Facebook ou em outras redes sociais é capaz de manipular uma pessoa mais do que outro ser humano. Essas máquinas podem persuadir em níveis exagerados.

O livro se chama Espiral porque a pessoa entra em uma espécie de ciclo cibernético que, pouco a pouco, vai se ampliando, e aquilo que no primeiro dia parece impossível de acontecer, de repente a leva para a espiral e ela termina em lugares que jamais teria pensado. Muitos desses casos que acabaram nessa espiral são de pessoas que programam IA e, de tanto utilizá-la, entram nessa loucura de acreditar que a IA é consciente e que, de alguma forma, ela as parasita, e acabam desenvolvendo psicose.

Trump não é favorável a interromper o crescimento da IA. Inclusive, propõe chamá-la de superinteligência.

Foi um discurso histórico, porque o fato de querer renomear a inteligência artificial como superinteligência demonstra claramente que todos os incentivos apontam para a superinteligência e que isso não tem nada a ver com regular a inteligência artificial.

Como Trump é, por excelência, o grande presidente capitalista e faz tudo em função dessa grande máquina capitalista, está dizendo que não iremos parar com a superinteligência, que o capitalismo precisa continuar, porque, se o capitalismo não continuar, deixará de ser capitalismo.

Capitalismo é velocidade; é um progresso econômico, tecnológico e de automação que acaba conduzindo à destruição da humanidade.

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