01 Outubro 2026
O desenho atual do Escudo das Américas segue essa lógica histórica, mas com um traço adicional: a coalizão reúne majoritariamente governos de direita recém-eleitos ou alinhados a Trump.
O artigo é de Wagner Sousa, publicado por Observatório Internacional do Século XXI, e reproduzido por ExtraClasse, 30-09-2026.
Eis o artigo.
Entre 8 e 10 de setembro de 2026, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, percorreu Colômbia, Equador e Peru — três países cujos governos, todos recém-alinhados a Washington, vêm sendo tratados como vitrine do avanço da direita na América do Sul. O Brasil ficou de fora do roteiro. A ausência não é acidental: Rubio já classificou publicamente o governo de Luiz Inácio Lula da Silva como “não amigável” e acusou o petista de colocar o ego pessoal acima dos interesses do país nas negociações tarifárias com os Estados Unidos.
O pano de fundo institucional dessa aproximação é o chamado Escudo das Américas (Shield of the Americas), anunciado por Donald Trump em março de 2026 durante uma cúpula em Miami. A coalizão reúne hoje 19 países comprometidos a compartilhar inteligência e coordenar ações militares contra cartéis de drogas e organizações criminosas transnacionais. Em agosto, o Comando Sul dos Estados Unidos (Southcom) deu um passo adiante e ativou a Joint Task Force Western Hemisphere (JTF-WHEM), descrita pelo seu chefe, o general Francis Donovan, como o “braço operacional” do comando para aplicar pressão contínua sobre redes de narcotráfico e terrorismo na região. O Brasil não integra nem a coalizão nem a força-tarefa.
Uma ferramenta com meio século de uso político
A associação entre combate às drogas e projeção de poder dos Estados Unidos sobre a América Latina não é novidade — é um padrão que remonta ao início dos anos 1970. Foi Richard Nixon quem, em 1971, cunhou a expressão “guerra às drogas” e criou a arquitetura burocrática (a futura DEA, Drug Enforcement Administration, criada em 1973) que passaria a orientar boa parte da política externa norte-americana para o hemisfério. Em 1986, o Congresso americano instituiu o processo de certificação antidrogas (Drug Certification Process), parte do Anti-Drug Abuse Act, que obrigava o presidente dos EUA a “certificar” anualmente se cada país latino-americano cooperava o suficiente no combate ao narcotráfico — sob pena de corte de ajuda e sanções comerciais. Na prática, o mecanismo funcionou por anos como instrumento de pressão diplomática, usado de forma seletiva conforme o alinhamento político dos governos da região com Washington, e não apenas conforme critérios técnicos de eficácia policial.
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Em 1989, a invasão americana do Panamá — Operação Causa Justa — foi justificada oficialmente pela necessidade de capturar o general Manuel Noriega, acusado de tráfico de drogas, embora análises posteriores apontassem motivações geopolíticas mais amplas ligadas ao controle do Canal do Panamá. Nos anos 1990 e 2000, o Plano Colômbia — bilhões de dólares em ajuda militar dos EUA a Bogotá sob a bandeira do combate à cocaína — também serviu para ampliar a presença militar americana em meio ao conflito com as FARC, num momento de disputa ideológica com governos de esquerda emergentes na região, como os de Hugo Chávez na Venezuela e Evo Morales na Bolívia.
O próprio Evo Morales expulsou a DEA da Bolívia em 2008, acusando a agência de espionagem política disfarçada de cooperação antidrogas. Mais recentemente, o governo Trump elevou o tom ao classificar o chamado “Cartel de los Soles”, supostamente ligado à cúpula do governo venezuelano, como organização terrorista, abrindo caminho para operações militares diretas — incluindo ataques a embarcações no Caribe e no Pacífico sob acusação de tráfico — num movimento que analistas descrevem como securitização da política externa em relação a governos considerados hostis. No Brasil a classificação do Comando Vermelho e do Primeiro Comando Capital como organizações terroristas se insere nesta lógica de aumentar a pressão política, inclusive, no limite, por meios militares coercitivos, o que é uma grande preocupação do atual governo brasileiro
O recorte de 2026
O desenho atual do Escudo das Américas segue essa lógica histórica, mas com um traço adicional: a coalizão reúne majoritariamente governos de direita recém-eleitos ou alinhados a Trump — Javier Milei na Argentina, Nayib Bukele em El Salvador, Santiago Peña no Paraguai, Daniel Noboa no Equador, Abelardo de la Espriella na Colômbia e Keiko Fujimori no Peru. A viagem de Rubio reforçou justamente essas relações, tratando segurança, narcotráfico, comércio, energia nuclear civil e minerais críticos como pacote único de cooperação estratégica.
Durante a viagem, Rubio fez críticas diretas aos governos de esquerda da região, associando-os a resultados de “miséria” — fala que reforça a leitura de que o enquadramento antidrogas convive, mais uma vez, com um recorte ideológico explícito. O Brasil, sob Lula, fora tanto da coalizão quanto do roteiro diplomático, justamente no momento em que o país está a menos de um mês do primeiro turno de sua eleição presidencial.
O padrão histórico desde Nixon é que o vocabulário antidrogas tem funcionado repetidamente como capa para objetivos de alinhamento político e ideológico no hemisfério — pressionando os governos não alinhados a Washington. A existência de um problema real de segurança não impede que o instrumento criado para enfrentá-lo seja também usado, seletivamente, como alavanca diplomática, o que volta a se manifestar às vésperas das urnas brasileiras.
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