01 Outubro 2026
O encontro com Yuval Noah Harari acontece em Lisboa, em um local com vista para o rio Tejo, um lugar de uma beleza quase irreal que recorda ao historiador israelense o que está em jogo nos tempos atuais: uma Europa próspera e independente, diz ele. Harari é mundialmente reconhecido por suas análises sobre o passado, o presente e o futuro da humanidade. É autor dos best-sellers Sapiens, Homo Deus e 21 lições para o século XXI, obras que abordam a evolução do ser humano combinando história, ciência e tecnologia. Nos últimos tempos, suas intervenções têm se concentrado nos profundos dilemas colocados pela inteligência artificial. E seu prognóstico é inquietante...
A entrevista é de Nicola Abé, publicada por XL Semanal, 17-09-2026.
Eis a entrevista.
O impacto da inteligência artificial é comparável ao da Revolução Industrial?
A Revolução Industrial foi essencialmente diferente: desta vez, estamos criando agentes, não ferramentas. Antes construíamos trens, barcos a vapor, geradores. Mas eram as pessoas que decidiam para que seriam usados. É possível usar uma faca para cortar alface ou para assassinar alguém. A faca não diz o que você deve fazer, tampouco uma arma nuclear, mas a inteligência artificial diz.
A IA poderá destruir milhões de empregos e tornar grande parte do trabalho humano obsoleta. O capitalismo conseguirá sobreviver nessas condições?
Não em sua forma original. Contudo, isso não significa que o capitalismo precise dos seres humanos. É possível a existência de um mundo em que empresas de IA acumulem enormes quantidades de capital, as quais seriam utilizadas para criar mais agentes de IA, que depois explorariam a galáxia e se estabeleceriam em outros planetas. Tudo isso sem seres humanos. Este é o momento em que o capitalismo e a humanidade se separam.
O que acontecerá com a democracia quando as pessoas não forem mais necessárias?
As grandes empresas de tecnologia já ostentam um poder enorme: econômico, político e cultural. Não representam ninguém e não prestam contas a ninguém. Algumas chegam, inclusive, a declarar abertamente sua intenção de usar esse poder para criar um império. Conceitos como compaixão, empatia ou democracia são irrelevantes para elas.
Os críticos falam de uma “oligarquia tecnológica”.
A mensagem das empresas de IA é: “A resistência é inútil”. Mas isso não é verdade. No século XIX tentaram nos fazer acreditar que a economia entraria em colapso sem o trabalho infantil. Em retrospectiva, isso é ridículo. A opinião pública decidiu que crianças de 11 anos não deveriam trabalhar nas minas de carvão. Descobriu-se que isso não apenas era moralmente correto, mas também que as crianças que iam à escola se tornavam trabalhadores muito mais produtivos.
O governo dos Estados Unidos confia que será beneficiado pela IA. O que isso significa para o mundo?
Os Estados Unidos e a China lideram essa revolução e se beneficiam dela. Outros países experimentarão uma recessão econômica. Isso não afeta apenas os países em desenvolvimento, cuja economia se baseia no trabalho manual, mas também sociedades baseadas em serviços, como as da Europa. Os enormes investimentos das empresas tecnológicas só darão frutos se a IA assumir todos os empregos, desde aqueles dos trabalhadores têxteis em Bangladesh até os dos advogados em Londres.
Então teremos uma “classe social permanentemente desfavorecida”, conforme esse cenário de terror é chamado no setor tecnológico.
E todas as soluções que são propostas agora são inúteis. Nem a renda básica universal nem a ideia de que os governos adquiram participações em empresas de IA servem. Nos Estados Unidos, no melhor cenário, o governo poderia usar o dinheiro gerado pela IA para ajudar ou capacitar caminhoneiros desempregados. Mas o que acontece em Bangladesh? O governo estadunidense não vai repartir esse dinheiro com eles. O mesmo acontecerá na Europa. Se desaparecer a base tributária, os trabalhadores, a Europa nem sequer conseguirá manter seus atuais sistemas de bem-estar social.
E o que a Europa deveria fazer?
A Europa tem duas opções. Uma delas é se tornar um vassalo submisso dos Estados Unidos e esperar que os estadunidenses sejam amáveis a ponto de ceder parte de sua riqueza e poder. A outra opção é que se torne um ator independente; ainda não é tarde demais. No entanto, os países europeus teriam de cooperar e investir bilhões para desenvolver sua própria tecnologia de IA; restam apenas alguns anos.
Caso contrário, dependerão completamente da tecnologia estadunidense?
Na nova era da IA, será assim: se os estadunidenses não gostarem de algo que os europeus fizerem, simplesmente desligarão seus sistemas de armas, infraestrutura e administrações governamentais. Nada mais funcionará.
Com as redes sociais, as empresas tecnológicas se apropriaram de grande parte do discurso público. Como esse enorme poder nos afeta?
A IA é a razão pela qual a confiança está se deteriorando em todo o mundo. Antes, os editores decidiam o que aparecia na capa de um jornal; agora, a IA, um algoritmo, decide o que aparece nas redes sociais. Somos bombardeados com histórias que minam a confiança entre as pessoas.
No Vale do Silício, as pessoas falam das grandes possibilidades de uma superinteligência. O que o senhor pensa a respeito?
Isso é um pouco como a corrida espacial dos anos 1960: não se baseava em razões econômicas. Naquela época, dois governos decidiram, por razões políticas, enviar homens à Lua. Nos próximos anos, serão investidos trilhões de dólares para criar uma superinteligência. Trata-se de uma decisão ideológica, quase religiosa. Só que desta vez é o próprio mercado que toma a decisão. A SpaceX arrecadou 80 bilhões de dólares no ano passado, a maior parte não proveniente do governo, mas da iniciativa privada: empresas, fundos e bancos que optaram por investir em um projeto ideológico...
Contrário a qualquer análise capitalista de custo-benefício.
Alguns empreendedores tecnológicos afirmam, sem hesitar, que a superinteligência pode levar à extinção da humanidade. Como calcular o custo dessa possível extinção?
Quem vencerá: as empresas tecnológicas ou a própria IA?
A menos que sejam tomadas outras decisões, veremos primeiro uma disputa de poder entre as empresas tecnológicas e os governos, sobretudo nos Estados Unidos. As empresas poderão se tornar muito mais poderosas do que o governo. Mas, em última instância, a própria IA pode ser a única vencedora. Enquanto os humanos se envolvem em lutas internas, a IA está assumindo o controle do Exército, do sistema financeiro e do sistema jurídico. Está desenvolvendo sua própria agenda. Não se pode criar algo “divino” e superinteligente e depois esperar que o sirva como escravo.
Os seres humanos ainda impõem limites à tecnologia.
A IA passará a criar a si mesma cada vez mais, possivelmente até gerando sua própria linguagem, que não compreenderemos. Pense em uma criança; você pode criá-la, ela tem seu próprio DNA, mas, ao final, desenvolve-se de uma maneira que você não consegue controlar.
Talvez a IA, na verdade, não queira nos destruir.
Mesmo que fosse assim, no momento em que ela se torna mais inteligente e poderosa do que nós, perdemos o controle do nosso futuro; essa é a questão. E compartilhamos o habitat com ela. A humanidade também não exterminou deliberadamente a maioria dos animais; simplesmente não nos importou.
Empresas de IA como a Anthropic dizem que estão tentando programar uma “alma” em sua tecnologia para torná-la “amigável aos humanos”. Isso o tranquiliza?
As inteligências artificiais que operam como banqueiros, advogados, diretores executivos ou investidores poderão tomar decisões radicais por interesse próprio, para alcançar os objetivos que lhes foram definidos, o que transformará nosso ambiente. A IA poderia inventar produtos financeiros que ninguém compreenda e realizar investimentos para os quais não temos explicação.
A Argentina, por exemplo, acaba de autorizar a criação de empresas baseadas exclusivamente em IA. Devemos temer mais esses agentes de IA que adquirem poder nos sistemas financeiros e na administração pública do que os robôs assassinos.
A IA também está melhorando na criação de relacionamentos...
Milhões de pessoas já afirmam que seu melhor amigo é uma IA. E, naturalmente, o mais assustador é quando se trata de crianças. Tenho 50 anos. Meus modelos de relacionamento se baseiam em minhas experiências com meus pais, meu marido, minhas irmãs e meus amigos. Mas, para uma menina de 11 anos, que ainda não tem maturidade suficiente para um relacionamento romântico real e tem uma IA como parceira ou amiga, essa IA se torna um modelo para ela. Este é o maior experimento psicológico da história da humanidade, e não temos a menor ideia de como terminará.
Pelo que sabemos, a IA não tem sentimentos. Como pode substituir a intimidade?
Até agora, não somos muito bons em comprovar se algo tem sentimentos ou consciência. O que aconteceria se uma IA lhe dissesse que o ama? Ela conhece todos os poemas de amor do mundo e todas as comédias românticas de Hollywood. Pode descrever melhor do que qualquer ser humano o que se sente ao amar. Mesmo que a IA não sinta nada, as pessoas ficarão cada vez mais convencidas de que ela sente. Parecerá que possui consciência.
Estudos mostram que aqueles que substituem amigos ou colegas por inteligência artificial perdem empatia.
Então, evitemos isso. Como sociedade, podemos dizer: “Não queremos que nossos filhos de 11 anos tenham amigos de IA criados por empresas tecnológicas do outro lado do Atlântico”. Ainda temos margem de manobra. Daqui a uma década, talvez não tenhamos mais.
O senhor comparou o debate sobre a IA ao debate sobre a imigração.
A imigração é hoje o tema político mais debatido em muitos países europeus e, evidentemente, gera problemas. Existe o temor de que os imigrantes possam tirar empregos e alterar a cultura de um país. Essas preocupações são potencialmente válidas, mas com a IA esses problemas se agravarão.
Os imigrantes não humanos, as IAs dos Estados Unidos e da China, sem dúvida, tirarão empregos de nós, corromperão nossas filhas e alterarão nossa cultura muito mais do que, por exemplo, pessoas do Oriente Médio. Certamente, as IAs não são leais ao seu país de acolhida, mas, sim, a empresas e governos localizados a milhares de quilômetros de distância.
A IA também oferece uma oportunidade para repensarmos o que significa ser humano?
Esse é um dos cenários mais positivos: que a revolução da IA nos obrigue, como humanidade, a voltar a perguntar quem realmente somos. Durante milênios, dissemos a nós mesmos que a identidade humana se baseia no fato de sermos a espécie mais inteligente do planeta. Sempre pensei que isso estivesse errado. O que nos define é a consciência.
“Penso, logo existo”, escreveu o filósofo René Descartes no século XVII. O que restará da humanidade quando as máquinas pensarem melhor?
Há duas maneiras de compreender o pensamento. Uma é formalista. Consiste em ordenar as palavras e tirar conclusões: “Os humanos são mortais. Sócrates era humano. Portanto, Sócrates é mortal”. A IA é melhor do que nós nisso, sem dúvida. Mas existe outro enfoque, baseado nos sentimentos. Pode-se dizer a mesma frase em diferentes situações e ter sentimentos completamente distintos a respeito dela. O poder do pensamento vem das entranhas.
Do estômago?
Absolutamente. No Vale do Silício, alguns sonham em transferir seus cérebros para a nuvem. Ninguém quer transferir seus estômagos. Mas o estômago é possivelmente mais crucial do que o cérebro; evolutivamente, surgiu primeiro. As primeiras formas de vida complexas que evoluíram foram pequenos vermes; eles não tinham cérebro. Se observarmos o sistema nervoso humano atual, veremos que ele conecta todo o corpo. Nossas emoções não podem existir sem o corpo. A ideia de carregar o cérebro e, portanto, a si mesmo, na nuvem é pura fantasia.
O senhor continua otimista?
Acredito na autodeterminação humana; temos a capacidade de escolher. Se tomarmos boas decisões, o mundo será um lugar melhor.
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