Agricultores endividados perdem terras e máquinas para os bancos

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30 Setembro 2026

Como o crédito farto na hora errada e a crise nas lavouras gaúchas resultaram no endividamento de 124 mil produtores, no confisco de patrimônio e no crescente número de suicídios.

A reportagem é de Thiago Copetti, publicada por ExtraClasse, 29-09-2026.

Os 48,6 milhões de toneladas de grãos semeados e não colhidos no Rio Grande do Sul entre 2020 e 2024 – destruídos por estiagens severas ou enchentes históricas – consumiram mais de R$ 120 bilhões do capital e do patrimônio de cerca de 124 mil produtores. A crise que começou na lavoura avançou sobre a renda, transformou-se em endividamento estrutural e levou, para muitos agricultores, à perda de terras e máquinas – e, em casos extremos, porém não raros, ao suicídio.

A Associação dos Produtores e Empresários Rurais (Aper), criada para unir produtores afetados pelo caos climático, financeiro e agrícola, estima que mais de 30 suicídios ocorreram no interior do Estado entre 2023 e 2025 após o arresto de terras e máquinas oferecidas como garantia bancária. Mais de 20 coroas de flores e balões negros foram colocados no palco central da Expointer 2025, pela Aper, para alertar outras entidades e os poderes públicos sobre o caso.

"Os suicídios tendem a aumentar. Muitas propriedades e máquinas agrícolas ainda serão tomadas pelos bancos. Os produtores estão desesperados aguardando por isso. Estão tirando deles justamente o que precisam para trabalhar e pagar as contas", afirma Arlei Romeiro, presidente da Aper.

Como boa parte dessas retomadas de terra, leilões e arrestos se concentra na Região Sul, a Aper e o movimento SOS Agro RS acabaram direcionando parte de suas linhas de trabalho para a questão mental dos produtores após mapearem os casos diretamente associados à perda de terras e ao confisco de maquinários entre 2024 e 2025. Psicólogos voluntários se uniram ao trabalho das entidades.

O esgotamento da renda no campo começou ainda em 2023. Em 2025, 14.219 propriedades rurais foram levadas a leilão no Brasil – um salto de 30% sobre o ano anterior –, sendo 2.398 apreendidas de forma extrajudicial, o que representa quase o dobro do registrado em 2024, conforme levantamento do agregador Leilão Imóvel, compartilhado com a Agência Reuters. O colapso financeiro aparece em relatórios do Banco Central apontando que a taxa de inadimplência do crédito rural saltou de 1,6% para 3,5% no período, mais do que o dobro, enquanto as safras quebravam.

O agronegócio registrou o recorde histórico de 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, alta de 56,4% sobre o ano anterior, segundo a Serasa Experian – com mais de 80% das ações movidas por pessoas físicas e jurídicas do setor. Os agricultores gaúchos, que até 2023 não registravam pedidos do tipo, entraram na lista dos dez estados com maior volume de ações em 2024. O Rio Grande do Sul acumulou 159 RJs em 2025 e registrou outros 62 pedidos logo no primeiro trimestre deste ano.

Financiamento e dívidas cresceram juntos

O clima sempre foi um dos grandes riscos do agronegócio, mas o estresse recente no Sul mostrou também uma distorção no sistema bancário. O endividamento elevado e a imprevisibilidade de ganhos normalmente fariam a luz vermelha de prudência acender nas mesas de crédito. Contudo, em vez de operar como trava, o risco elevado não reduziu a oferta de financiamentos ao produtor.

Já em setembro de 2021, o próprio Banco Central publicou a primeira edição do Relatório de Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticas, exigindo que eventos extremos fossem incorporados à gestão das carteiras. Na edição seguinte, de 2022, o Relatório reforçou que a escassez hídrica exigia maior rigor. Ainda assim, o montante oferecido na carteira de crédito rural no Brasil saltou de R$ 341 bilhões no ciclo 2022/2023 para R$ 390 bilhões em 2024.

Esse movimento gerou uma clara contradição financeira: a taxa de produtores negativados disparou de 0,8% em junho de 2023 para 3,5% em 2025 e atingiu o teto de 8,8% no ciclo seguinte. Simultaneamente, as concessões com recursos livres de bancos privados cresceram 210,8% – de R$ 60,9 bilhões em 2020 para R$ 189,3 bilhões no ano passado.

Para o advogado Raphael Condado, que já atuou na defesa de instituições financeiras e hoje trabalha na reestruturação de dívidas rurais, essa contradição expõe a dinâmica de risco do setor. "A base do trabalho dos bancos é a análise de risco. Depois de duas safras quebradas, alguma coisa deveria ter sido repensada. Porém, quando a garantia é forte demais, o banco para de olhar a safra e passa a olhar a fazenda", afirma.

A fala do especialista encontra respaldo nos balanços auditados das instituições: em um dos relatórios financeiros analisados para esta reportagem, constavam R$ 375,2 bilhões em operações contratadas com garantia de produtores rurais, respaldadas por R$ 342,9 bilhões em valor justo dessas mesmas garantias – majoritariamente imóveis rurais.

Condado aponta três fatores para essa expansão de recursos: a concorrência agressiva entre os bancos privados, que ingressaram com mais força no crédito rural a partir de 2020 e temiam perder espaço para os concorrentes; a aposta histórica do setor na liberação de socorros governamentais para renegociar débitos, e a solidez das propriedades exigidas.

Alto investimento em safras perdidas

Gilmar Kappes entrou na lista de devedores em 2024, quando viu um financiamento de R$ 200 mil transformar-se em uma dívida de R$ 390 mil, enquanto o caixa zerava e seu nome ia parar na Serasa. A produtividade da soja, que chegou a 60 sacas por hectare, caiu para 12 sacas em 2024 – muito longe de pagar os custos e as parcelas de financiamentos acumulados desde 2022.

Kappes diz que hoje não tem a mínima ideia do tamanho de suas dívidas e a propriedade está em disputa judicial com o banco. Com ajuda de uma advogada, ele conseguiu impedir o leilão das terras às vésperas da venda com lance inicial de R$ 360 mil — valor que iria direto para o credor.

"Agora o caso está na Justiça. Conheço dois produtores que perderam a propriedade e se mataram. Lógico que pensei nisso também. Não nos dão alternativas", desabafa o produtor.

Ricardo Lopes de Castro, de Tupanciretã, também esteve a poucos dias de ver a propriedade ir a leilão. Conseguiu uma liminar para impedir a venda e, diante da falta de crédito, recorreu a uma parceria agrícola: entrou com a terra e a estrutura de irrigação, enquanto outro produtor passou a fornecer máquinas e insumos, além de acesso a crédito.

A engrenagem das supergarantias

A oferta de crédito bancário a produtores endividados, mas que possuem boas garantias patrimoniais, deixa o alto risco do financiamento concentrado praticamente apenas no agricultor.

Essa operação segue a metodologia de Asset-Based Lending (Crédito Baseado em Ativos), a qual relega a segundo plano a capacidade de sucesso do produtor na colheita e foca no valor de liquidação dos bens empenhados.

Os bancos exigem supergarantias com patrimônios que valem até o triplo do dinheiro emprestado. Se a safra falhar e o produtor não pagar, a instituição executa a dívida e toma propriedades de alto valor, cobrando o saldo devedor com folga e transferindo todo o prejuízo para o campo.

Exigir bens de valor muito superior ao emprestado é classificado no mercado como Overcollateralization (sobregarantia), reduzindo a Perda Pós-Calote (LGD, na sigla em inglês) dos bancos a níveis próximos de zero.

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