Impulsionada pelo bolsonarismo, ala radical desidrata direita tradicional no Brasil, explica pesquisadora

Foto: José Cruz | Agência Brasil

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22 Setembro 2026

Tatiana Vargas-Maia aponta manipulação do medo, algoritmos enviesados e crises no século XXI entre motivos para crescimento da direita radical.

A reportagem é de Lucas Azeredo, publicada por Sul21, 21-09-2025.

Desde a segunda metade da década passada, o mundo começou a se deparar com o crescimento desenfreado de um fenômeno político diferente: a extrema-direita contemporânea. No Brasil, o movimento político é inaugurado com a vitória de Jair Bolsonaro (PL) nas urnas em 2018. E, desde então, vem cativando uma base de apoio cada vez mais fidelizada e forte.

Nesta reportagem, o Sul21 explica as mudanças no espectro político a partir do exemplo da ALRS, especialmente como a direita foi se deslocando cada vez mais para um dos extremos. Esta é a terceira reportagem com dados do levantamento em que mapeamos os resultados das eleições à Assembleia Legislativa neste século, começando pelo pleito de 2002.

Um dos principais desafios de quem quer estudar a extrema-direita brasileira é identificar o que seria um partido ou um político de extrema-direita. Esse tipo de alinhamento, no Brasil, é difícil de definir. Não há, como em outros países, um partido unitário que reúna as demandas dessa ala mais à direita em um espaço político formal único, como o Alternativa para a Alemanha (AfD) ou o Reunião Nacional (antigo Frente Nacional) na França.

Tatiana Vargas-Maia, professora de Relações Internacionais na UFRGS, historiadora e cientista política, estuda o fenômeno desde suas origens fora do território nacional até seu surgimento no Brasil. Ela entende que o termo “extrema-direita” deve servir como um “termo guarda-chuva” do campo conservador e reacionário.

Isso incluiria partidos e políticos com características, em alguma medida, antidemocráticas e com um apelo à violência, seja ela discursiva, simbólica ou física. No caso brasileiro, segundo Tatiana, existe, na verdade, uma “direita radical”.

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Ao contrário da ultradireita — que seriam os movimentos fascistas como as células neonazistas —, a direita radical age “dentro das regras do jogo” pelas vias institucionais da democracia, principalmente pela via eleitoral. Porém, quando o movimento chega ao poder, acaba atacando essas mesmas vias. O maior exemplo é Jair Bolsonaro e seus ataques às urnas eletrônicas, entre outras instituições da democracia brasileira.

Outro elemento que impede qualquer tentativa de definição entre ser ou não de extrema-direita no Brasil é a diversidade partidária do sistema eleitoral. A professora explica que há uma “fluidez ideológica” dos partidos menores, que andam de acordo com a carruagem.

Portanto, aqui, a direita radical se emaranha nos partidos fisiológicos — onde atua de forma mais livre e sem muitos compromissos — ou em torno do bolsonarismo, que acaba englobando boa parte de quem se alinha ao conservadorismo reacionário. Ainda, as dissoluções e fusões partidárias tornaram mais difícil traçar a linhagem política da extrema-direita brasileira.

Por exemplo, o Partido Social Liberal (PSL), pelo qual Jair Bolsonaro foi eleito em 2018, tem uma genealogia confusa de acompanhar. Fundado em 1994, o partido ficou por 20 anos na irrelevância eleitoral. Em 2015, abraçou o movimento libertário Livres, que defendia pautas como a legalização da maconha e o casamento gay para dar um novo caminho à sigla.

Em 2018, quando Jair Bolsonaro desiste de se filiar ao Patriota — hoje Partido Renovação Democrática (PRD) —, ele é aceito pelo líder do PSL, Luciano Bivar. O então presidenciável força uma mudança no PSL, que ocupa o lugar de sigla mais representativa da extrema-direita e se torna um laboratório do principal movimento radical de direita no país, o bolsonarismo.

Bolsonaro deixa o PSL em 2019 para fundar o Aliança Pelo Brasil, partido criado para fomentar e expandir o bolsonarista em um espaço próprio para isso. O PSL perde sua força e se funde com o Democratas para criar o União Brasil, muito diferente do PSL de 2018. O União Brasil é um partido do “centrão”, que inclusive esteve na base governista de Lula (PT) até setembro de 2025.

Tatiana Vargas-Maia define o Brasil como um “caso interessante para pensar a política contemporânea” pelo sistema pluripartidário de enorme variedade. “Por um lado, a gente tem que reconhecer a diversidade e a heterogeneidade social do Brasil, assim como a nossa dimensão territorial. Isso comunica um tanto para essa diversidade de representatividade. Por outro lado, o Brasil tem um sistema partidário muito mais pluralista do que outros”, comenta.

Ela menciona os Estados Unidos, onde, apesar da existência de partidos independentes e menores, a política acaba sendo bipartidária, dividida entre Democratas e Republicanos. Tatiana diz que essa redução de partícipes influentes no jogo político deixa a localização da direita radical mais organizada. No sistema brasileiro, a variedade grande de partidos se transforma em uma dificuldade para localizar exatamente onde estão esses líderes radicais e essas propostas conservadoras.

Na visão de Tatiana, para identificar um partido ou um político da direita radical é precisoe entender que “tudo está mudando muito rápido ideologicamente” e “deixar de assumir coerência partidária”. Para ajudar, o eleitor ou a eleitora pode se perguntar o seguinte:

  • Qual é o tipo de proposta do político ou partido?
  • Qual a trajetória do político ou partido?
  • No caso de candidatos eleitos, o que eles fizeram como parlamentares?

Entretanto, mesmo com o auxílio desses questionamentos, não é fácil afirmar que alguém ou que uma sigla é de extrema-direita. “Acho difícil fazer afirmação justamente pela forma como esses partidos vão explorando diversos assuntos que surgem”, explica Tatiana. Contudo, alguns chegam próximos disso.

A direita radical na ALRS e o PL

Nessa árvore genealógica confusa, é possível identificar alguns elementos na origem da direita radical: a Aliança Renovadora Nacional (Arena) e o Partido de Reedificação da Ordem Nacional (Prona). Foram dessas duas siglas que emergiram os principais atores radicalizados à direita do país.

A Arena foi o partido da ditadura militar e de seus apoiadores. Com seu fim, em 1979, foi fundado o Partido Democrático Social (PDS), que dava continuidade ao trabalho do partido do regime sob o comando de Paulo Maluf. Então, inicia-se uma fragmentação que torna mais difícil de acompanhar a trajetória da direita. Do extinto PDS, surgiram quatro partidos:

  • Partido Democrata Cristão (PDC)
  • Partido da Frente Liberal (PFL)
  • Partido Social Trabalhista (PST)
  • Partido Trabalhista Renovador (PTR)

Com exceção do PFL, nenhum sobreviveu à virada do milênio. O PFL, após uma série de fusões, também se tornou o União Brasil. Outros dissidentes da Arena acabaram formando o Progressistas (PP), que, em 2026, está dando passos em direção ao movimento radical. Um exemplo é o fato de Silvana Covatti (PP), histórica deputada estadual do PP, ser a candidata a vice-governadora com Luciano Zucco (PL), um dos principais nomes do bolsonarismo no RS.

Já o Prona dá origem ao mais próximo do que o Brasil tem de um partido de extrema-direita: o Partido Liberal (PL). O Prona era o partido do estridente Enéas Carneiro, famoso pelos seus 30 segundos de propaganda na TV onde esboçava as raízes da direita radical.

Com a morte de Enéas, em 2007, o partido se une ao PL para formar o Partido da República (PR), legenda que vigoraria até 2019, quando o partido decidiu voltar com o nome Partido Liberal. Como PL, a sigla abraçou o bolsonarismo a partir de 2022 e todos os principais representantes da direita radical brasileira.

Em 2014, é com o nome PR que o partido elege o primeiro deputado estadual identificado no levantamento do Sul21: Missionário Volnei, em 2014. O parlamentar se elegeu com base na sua representatividade religiosa, membro da igreja evangélica neopentecostal Poder de Deus.

Apesar de ser do antecessor ao PL, o PR de Volnei estava longe de ser um extremista durante seu único mandato na ALRS. Pelo contrário. Naquele ano, o seu partido estava coligado ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

Desde então, o PL mudou muito e cresceu exponencialmente. Em 2018, antes da mudança para o polo radical, colocou Paparico Bacchi e Airton Lima na Assembleia. Em 2022, quando o Partido Liberal era o partido do bolsonarismo, foram cinco deputados eleitos, conforme o levantamento do Sul21.

O próprio Paparico Bacchi é um bom exemplo da migração à direita. Em 2018, se apresentava como um candidato tradicional de direita. No pleito seguinte, aparecia nas campanhas políticas para as redes sociais fazendo “arminhas” com as mãos — gesto associado a Jair Bolsonaro — ou com uma bandeira do Brasil com o rosto de Bolsonaro ao centro.

Ainda nas costas da força política de Jair, em 2018, foram eleitos quatro deputados estaduais pelo PSL, seu partido à época, como indica o mapeamento. Entre eles, o deputado mais votado naquele ano: Luciano Zucco, candidato a governador pelo PL em 2026 e um dos nomes mais representativos do bolsonarismo no Estado. Em duas eleições, de 2018 e de 2022, partidos ligados à direita radical obtiveram mais de 560 mil votos para seus deputados estaduais eleitos no RS.

Segundo Tatiana, apesar da dificuldade em definir um partido como “de extrema-direita”, o histórico antidemocrático do PL a deixa “confortável em enquadrá-los como extrema-direita”. “É o mais próximo de um partido de extrema-direita que o Brasil tem”, avalia a professora, que reitera a diferença do partido brasileiro para um Alternativa, da Alemanha, por exemplo.

Ela comenta ainda que vem acompanhando a campanha de Zucco e de seus apoiadores nas ruas de Porto Alegre. E, nos banners, identificou a apropriação do termo “direita raiz”. “Raiz” que é sinônimo direto de “radical”, no sentido de algo fundamental.

“A direita gaúcha não está tendo vergonha de usar ‘direita’ como definição”, frisa a cientista político. Para Tatiana, isso parte do eleitorado, que indica ao candidato que é isso que ele quer. “O Zucco, diferente do Onyx Lorenzoni, mobiliza de uma maneira mais explícita [o movimento radical]”, complementa Tatiana.

Onde foi parar a ‘direita tradicional’?

Por outro lado, em completo contraste com o resultado do bolsonarismo e da direita radical, a “direita tradicional” perdeu território nos últimos anos.

Tatiana explica que esse “sumiço” é reflexo da presença de líderes da direita radical no espectro político brasileiro que acabaram provocando um “desequilíbrio na orientação ideológica”. Isso tudo é parte do que a professora define como uma “tendência de radicalização para a direita”. Os políticos da direita tradicional acabam adotando pautas radicais que “se pagam” por conta da forte base de apoio ao movimento.

Tatiana ressalta que o efeito de desequilíbrio é generalizado, afetando também o campo da esquerda, que tem que migrar mais para o centro para se manter no jogo eleitoral. “É uma força gravitacional que puxa todos os candidatos mais para a direita: quem já estava na direita fica mais radicalizado e se aproxima mais do polo extremo. Quem está na esquerda, vem mais pro centro”, explica.

Os representantes partidários mais fortes dessa “direita tradicional” sempre foram o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Ainda que alguns quadros dos partidos sejam próximos da direita radical — como é o caso da amizade de Zucco com o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB) —, os candidatos emedebistas e tucanos vêm se posicionando como uma terceira via em relação à polarização esquerda x ultradireita.

Tanto é que, em 2026, a eleição ao Piratini tem Gabriel Souza (MDB) e Marcelo Maranata (PSDB) concorrendo com campanhas que os colocam justamente como diferentes de Juliana Brizola (PDT) e Zucco. Mas, a eleição para presidente reforça o encolhimento desses partidos: nem MDB e nem PSDB têm candidatos próprios ao Planalto ou estão coligados com alguma candidatura.

Na Assembleia Legislativa não é diferente. Segundo os dados levantados pelo Sul21, os dois partidos elegiam cerca de 13 deputados por eleição. A maioria era do MDB, mas o PSDB colocava quatro representantes, em média. O ciclo mais vitorioso foi o de 2006, em que Yeda Crusius (PSDB) se tornou governadora e 14 deputados da dupla MDB/PSDB foram eleitos.

Vinte anos depois, são apenas sete deputados. A metade. Seis do MDB e apenas uma deputada do PSDB, Zilá Breitenbach. Originalmente, eram onze nomes entre os dois partidos eleitos no pleito de 2022, o que já era o menor número de emedebistas e tucanos na ALRS neste século.

Contudo, nos últimos quatro anos a situação se agravou para os dois partidos. Após mudanças de filiação para as eleições de 2024 e 2026, além das substituições naturais de titulares na Assembleia, MDB e PSDB perderam quatro assentos.

O PSDB quase deixou de ter representantes na ALRS pela primeira vez desde a eleição de 1990, a primeira que o partido disputou. Só não ficaram sem alguém no parlamento porque Valdir Bonatto perdeu o mandato por se desfiliar do PSDB fora do prazo permitido. A cadeira hoje é de Zilá Breitenbach.

Bonatto, assim como muitos outros políticos gaúchos, migrou para o Partido Social Democrático (PSD) junto com o governador Eduardo Leite. Outros três quadros do PSDB na Assembleia também foram para o PSD. São eles Pedro Pereira, Delegada Nadine e Neri Andrade (Neri, o Carteiro). Os três buscam a reeleição como deputados estaduais.

Kaká D’Ávila é o único que tomou outro caminho. Deixou o PSDB para integrar o Podemos, partido que vem dando passos em direção à direita radical. No Rio Grande do Sul, este ano, o Podemos está coligado com o PL de Zucco.

‘O medo é uma sensação muito fácil de ser manipulada’

A origem do fenômeno da direita radical e a mobilização de suas pautas é reflexo direto das mudanças no século XXI. “O século XXI é um século muito turbulento. Nós estamos no primeiro terço do século e estamos vivendo crises sucessivas”, reitera Tatiana Vargas-Maia.

A professora da UFRGS comenta que o século começa com uma crise de segurança que é o 11 de setembro, que completou 25 anos em 2026. Ela explica que o ataque terrorista reorientou a política externa estadunidense, o que reverberou no mundo inteiro.

Sete anos depois, a grave crise econômica de 2008, que abalou os Estados Unidos e o mundo capitalista, trouxe uma nova crise de segurança, desta vez da segurança econômica. “Insegurança talvez possa ser o pior sentimento que a gente possa ter com relação à política”, entende Tatiana. “O medo é uma sensação muito fácil de ser manipulada”.

A cientista política avalia que a direita, em especial o polo mais extremista, sabe manipular o medo. Além disso, essa tarefa de manipulação ganhou um aliado muito poderoso na última década e meia: o algoritmo das redes sociais.

Tatiana reforça que os algoritmos “não são neutros”, tese comprovada pela presença dos bilionários donos das plataformas na inauguração do segundo mandato de Donald Trump e o alinhamento desses empresários com o projeto da extrema-direita. “Por muito tempo, a gente repetiu um certo chavão de que a esquerda não sabia se comunicar. E depois a gente descobriu que tem uma estrutura de comunicação nessas redes que é enviesada”, afirma Tatiana.

“Sem sombra de dúvida, da forma como as redes sociais evoluíram desde 2010 e 2011, nós temos um avanço e uma mudança no nosso sistema informacional que é muito rápida, e que nós ainda estamos tentando entender”, comenta.

E o que está reservado para outubro?

Com duas semanas de antecedência, ainda é difícil saber o que vai acontecer no dia 4 de outubro. Entretanto, a série “De Olho no Dinheiro” do Sul21 mostra como uma campanha com alto financiamento tende a ter sucesso. Em 2022, 19 das 20 candidaturas gaúchas mais bem financiadas à Câmara dos Deputados foram eleitas.

Para 2026, até a manhã do dia 14 de setembro, R$ 77,1 milhões tinham sido distribuídos entre as 542 candidaturas registradas para a Assembleia Legislativa. Deste total, 14,7% foram apenas para as 10 candidaturas mais bem financiadas, e 45,7% para as 50 campanhas mais bem financiadas.

Os três candidatos com maior financiamento estão empatados em recursos do Fundo Eleitoral, com quase R$1,3 milhão à disposição. E, curiosamente, os três são do mesmo partido político, o PL. Cláudio Branchieri, Maurício Scalco e Kelly Moraes têm as maiores receitas de candidatos à ALRS neste ano.

Os três querem o voto do movimento bolsonarista no Rio Grande do Sul. Todos ostentam fotos nas rede sociais com Luciano Zucco e um dos Bolsonaro. Com tamanho investimento, existe uma chance razoável do PL igualar seu desempenho recordista da última eleição para a Assembleia Legislativa.

Ponderando sobre essa hipótese, Tatiana Vargas-Maia relembra a vitória de Lula contra o bolsonarismo na eleição para a Presidência e afirma que é necessário um “olhar de cautela” para as vitórias da esquerda e do centro perante os movimentos radicais da direita. Ela reforça que essas vitórias “não encerram e não reduzem o problema da extrema-direita”, uma vez que as ansiedades e frustrações do século XXI enraizaram a extrema-direita no espectro político.

Ela cita como exemplo os Estados Unidos, que passaram por uma situação parecida após a vitória do democrata Joe Biden contra Donald Trump. O otimismo foi derrotado pela vitória do republicano no voto popular em 2024, que mostrou uma “inclinação geral para a direita”, aponta a pesquisadora.

“Quando Donald Trump volta em 2024, os mapas eleitorais mostram que a base eleitoral dele tinha mudado”, afirma. “O exemplo de outros países com fenômenos similares pode revelar sobre o que nós estamos passando”.

Ela complementa, ainda, lembrando que o fenômeno da extrema-direita contemporânea não se limita às eleições ou à atuação de parlamentares, uma vez que a base de suporte popular segue existindo e a força desse movimento continua impulsionando lideranças radicais.

“Eu não acho que o fenômeno da extrema-direita no século XXI no Brasil esteja esgotado. Não consigo dizer, 16 dias antes, como vão ser [as eleições], mas acho que o fenômeno não está esgotado”, avalia Tatiana Vargas-Maia.

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