Projeto de igrejas na Europa enfrentará narrativas construídas pela extrema-direita sobre migrações

Foto: Wesley R. Dickey/ U.S Navy

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09 Setembro 2026

"Skodo entende que as narrativas anti-imigração “são sintomas e desvios de problemas mais fundamentais, nomeadamente, a erosão dos estados de bem-estar social e dos direitos civis europeus, a concentração absurda de riqueza, a exploração econômica e questões semelhantes. Os migrantes são bodes expiatórios perfeitos para esses problemas, porque geralmente não têm meios para contestar a forma como os atores poderosos os instrumentalizam", escreve Edelberto Behs, jornalista.

Eis o artigo.

O Pacto Europeu para Migração e Asilo, que os Estados-membros da União Europeia começaram a implementar a partir do dia 12 de agosto, institucionalizou e normalizou uma lógica de contenção e deportação racializada. Em grande parte da Europa a imprensa tradicional deixou de ser uma mera observadora e expõe um espaço ativo de produção narrativa alinhada a essas mudanças. A observação é do coordenador do projeto “Mudando a Narrativa” sobre imigração e mídia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), Admir Skodo. O Pacto, segundo seus idealizadores, prevê a gestão das chegadas de imigrantes, procedimentos uniformes e a solidariedade e responsabilidade entre os Estados-Membros. Ele também cria um sistema de triagem pré-entrada e acelera os processos de deportação.

“A extrema-direita agora molda a política migratória em muitos países europeus. Ela governa na Itália e na Holanda, mantém o governo na Suécia e alcança índices de aprovação historicamente altos na Alemanha. Um termo como ‘remigração’, que era marginal, agora é usado por ministros em exercício”, avalia Skodo em entrevista para o serviço de imprensa do CMI. A extrema-direita constrói narrativas dessa política, narrativas que a imprensa tradicional e políticos de todo o espectro político adotam. Elas retroalimentam a mídia tradicional como sendo a “realidade”.

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Skodo entende que as narrativas anti-imigração “são sintomas e desvios de problemas mais fundamentais, nomeadamente, a erosão dos estados de bem-estar social e dos direitos civis europeus, a concentração absurda de riqueza, a exploração econômica e questões semelhantes. Os migrantes são bodes expiatórios perfeitos para esses problemas, porque geralmente não têm meios para contestar a forma como os atores poderosos os instrumentalizam. Para alcançarmos uma sociedade onde os direitos à circulação, à habitação, à educação, aos cuidados de saúde e ao trabalho sejam verdadeiramente universais, temos de mudar fundamentalmente a forma como as nossas sociedades, economias e políticas funcionam”, avalia Skodo.

Uma de suas tarefas será apresentar contra-narrativas em primeira mão dos próprios imigrados, numa estratégia de comunicação contínua, para levar essa síntese e essas vozes a formuladores de políticas, formadores de opinião, clérigos e líderes comunitários. Skodo acredita que as igrejas já possuem narrativas mais amplas sobre significado, ética, direitos, dignidade e verdade, que poderiam ser inseridas com maior destaque nos debates públicos e na formação de opinião. “Penso que elas podem buscar ou financiar companhas de forma mais incisiva em todo o cenário midiático para combater falsidades flagrantes, testemunhar injustiças e sofrimento e, talvez o mais importante, apesentar uma visão sobre porquê a migração é parte integrante da fé cristã e da condição humana”.

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