A escola entre a família e a sociedade: quando todas as responsabilidades chegam à sala de aula. Artigo de Robson Ribeiro

Foto: Shutter2U/Canva

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04 Setembro 2026

"Aplicativos e redes sociais facilitaram o contato entre famílias e escolas, mas também dissolveram fronteiras. Uma dúvida pode chegar à noite, uma reclamação pode circular rapidamente e uma situação ocorrida na escola pode ser exposta publicamente em poucos minutos. A conectividade trouxe possibilidades importantes, mas não pode significar disponibilidade ilimitada."

O artigo é de Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e historiador.

Este artigo integra a série “A crise da docência no século XXI”, composta por sete textos que abordam temas como violência, adoecimento, sentido, autoridade e esperança na docência.

O primeiro artigo da série pode ser acessado clicando aqui.

Eis o artigo.

A escola contemporânea recebe problemas que ultrapassam sua função específica. Questões familiares, conflitos sociais, desigualdades, violência, sofrimento emocional, dificuldades de convivência e impactos das redes digitais chegam diariamente à sala de aula. O professor, muitas vezes, torna-se a primeira pessoa a perceber esses problemas e acaba sendo chamado a responder por questões que nenhuma instituição poderia resolver sozinha.

A família é parte indispensável do processo educativo, mas a relação entre família e escola precisa ser de parceria, não de transferência de responsabilidades. A escola não substitui a família, assim como a família não pode transferir para a escola toda a formação moral, social e emocional dos filhos. Quando isso acontece, o professor passa a ocupar um lugar impossível: espera-se que ensine conteúdos, forme valores, medie conflitos, acompanhe dificuldades emocionais, utilize tecnologia, mantenha famílias informadas e ainda responda por resultados.

Essa sobreposição de funções alimenta a sensação de que o professor precisa dar conta de tudo. Quando algo não funciona, a pergunta frequentemente recai sobre ele. Se o estudante não aprende, questiona-se sua metodologia. Se há indisciplina, questiona-se sua gestão de sala. Se há conflito, espera-se sua mediação. Se existe sofrimento emocional, espera-se acolhimento. A responsabilidade educativa, que deveria ser compartilhada, acaba concentrada sobre um único profissional.

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A situação é agravada pela comunicação permanente. Aplicativos e redes sociais facilitaram o contato entre famílias e escolas, mas também dissolveram fronteiras. Uma dúvida pode chegar à noite, uma reclamação pode circular rapidamente e uma situação ocorrida na escola pode ser exposta publicamente em poucos minutos. A conectividade trouxe possibilidades importantes, mas não pode significar disponibilidade ilimitada.

O desafio é reconstruir limites saudáveis. A família precisa poder dialogar com a escola, mas o professor também precisa ter direito ao seu tempo. O estudante precisa ser ouvido, mas não pode ser colocado como consumidor que determina todas as regras. A escola precisa ser acolhedora, mas não pode assumir sozinha funções que pertencem a toda a sociedade.

Uma educação realmente integral depende de uma rede de responsabilidades. Estado, famílias, escolas, gestores, professores, estudantes e comunidade precisam compreender que ninguém educa sozinho. O professor é fundamental, mas não pode ser transformado em solução para todas as insuficiências sociais.

Proteger a docência significa também redistribuir responsabilidades. Quando todos reconhecem sua parte, o professor deixa de ser o ponto final de todas as cobranças e volta a ocupar o lugar que lhe pertence: o de profissional responsável por ensinar, formar e participar de uma comunidade educativa.

A escola não pode resolver sozinha os problemas de uma sociedade. Mas pode ajudar a formar pessoas capazes de enfrentá-los. Para isso, precisa de professores que não estejam permanentemente sozinhos diante de responsabilidades que pertencem a todos.

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