Das muralhas às Santas Chagas: por uma renovação da espiritualidade de libertação nas paróquias

Foto: Gianna B/Unplash

02 Setembro 2026

"Diante das muralhas, podemos desejar sua queda. Diante das Chagas, aprendemos algo maior: Deus não nos ensina a destruir aquilo que está diante de nós. Ele nos ensina, em Cristo, a sermos libertados para amar."

O comentário é do Wagner Assis de Sousa, presbítero da Diocese de Luz, enviado ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

Eis o artigo.

Introdução

A vida pastoral da Igreja é marcada por inúmeras formas de oração e devoção que procuram aproximar os fiéis de Deus, fortalecer a fé e oferecer esperança diante das dificuldades da vida. Entre essas expressões encontram-se práticas de oração comunitária que, ao longo do tempo, ganharam grande popularidade em muitas comunidades católicas brasileiras.

Entre elas está o chamado "Cerco de Jericó", normalmente apresentado como um período de oração, louvor, adoração e súplica no qual os fiéis pedem a Deus que derrube as "muralhas" que representam dificuldades, sofrimentos, enfermidades, conflitos ou situações consideradas impossíveis de superar.

Não se pode negar que, em muitos lugares, essa prática seja realizada com sincera fé e com verdadeira intenção de buscar a Deus. Também não se pode ignorar que, para muitas pessoas, esses momentos constituem experiências significativas de oração e encontro com a comunidade.

Entretanto, a pastoral da Igreja não pode avaliar uma prática apenas pela intenção subjetiva daqueles que a realizam. Também é necessário perguntar pelos símbolos utilizados, pela narrativa bíblica que lhe dá nome, pela imagem de Deus que esses símbolos podem transmitir e, sobretudo, pela sua coerência com a revelação de Deus realizada plenamente em Jesus Cristo.

É nesse ponto que se encontra a questão central deste artigo: se a Igreja deseja incentivar uma espiritualidade de oração, libertação e esperança, seria mais adequado conservar como referência o Cerco de Jericó ou favorecer uma devoção centrada nas Santas Chagas de Jesus?

A proposta aqui não é desvalorizar a fé daqueles que participam do Cerco de Jericó. Trata-se de uma questão de discernimento pastoral: quais imagens e devoções melhor ajudam o povo cristão a compreender quem é Deus e como Deus age?

A partir dessa pergunta, defende-se que a devoção às Santas Chagas de Jesus oferece uma referência mais coerente com o centro da fé cristã e que, por essa razão, o Cerco de Jericó deveria progressivamente deixar de ser utilizado como prática devocional nas paróquias.

1. A pastoral deve partir de Cristo

A questão fundamental não é simplesmente escolher entre duas devoções. É estabelecer um critério para o discernimento das devoções cristãs.

Esse critério é Jesus Cristo.

A fé cristã não se fundamenta em uma ideia abstrata de Deus, mas em uma pessoa concreta: Jesus de Nazaré, o Filho de Deus feito homem, morto e ressuscitado. Nele, segundo a fé da Igreja, Deus se revela de maneira definitiva.

O Evangelho de João coloca nos lábios de Jesus uma afirmação decisiva: "Quem me vê, vê o Pai" (Jo 14,9). São Paulo, por sua vez, chama Cristo de "imagem do Deus invisível" (Cl 1,15).

Isso significa que, quando procuramos compreender como Deus age, não podemos escolher livremente qualquer narrativa religiosa como modelo. Precisamos perguntar: essa imagem de ação divina é compatível com aquilo que contemplamos em Jesus Cristo?

Essa pergunta é especialmente importante quando falamos de uma espiritualidade de libertação.

O cristianismo acredita, sem dúvida, que Deus liberta. A Escritura inteira apresenta a ação de Deus como ação salvadora. Entretanto, a forma dessa libertação encontra em Cristo uma expressão definitiva.

Jesus liberta sem transformar o ser humano em inimigo a ser destruído.
Liberta o pecador oferecendo-lhe conversão.
Liberta o enfermo oferecendo-lhe cura e dignidade.
Liberta o excluído reintegrando-o à comunidade.
Liberta o culpado oferecendo-lhe misericórdia.

E, diante daqueles que o condenam injustamente, não responde com violência.

A cruz constitui, nesse sentido, o centro da revelação cristã.

Jesus não vence destruindo aqueles que o atacam. Ele vence entregando a própria vida.

2. A vitória de Cristo não é a destruição do outro

Existe uma diferença profunda entre compreender a ação de Deus como destruição de um obstáculo e compreendê-la como libertação da pessoa.

Essa diferença merece atenção pastoral.

A linguagem religiosa da vitória é legítima e encontra fundamento na própria fé cristã. Cristo ressuscitou e venceu o pecado e a morte. A Igreja anuncia a vitória da vida sobre a morte e da graça sobre o pecado.

O problema surge quando a ideia de vitória é construída a partir da eliminação de um adversário.

A lógica do Evangelho é diferente.

Jesus ensina: "Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem" (Mt 5,44). Quando um discípulo utiliza a violência contra aqueles que prendem Jesus, ele recebe uma ordem clara: "Guarda a tua espada" (Mt 26,52).

Na cruz, Jesus não pede a destruição de seus algozes. Reza por eles: "Pai, perdoa-lhes" (Lc 23,34).

O cristão, portanto, não pode compreender a libertação simplesmente como a destruição daquele que está do outro lado.

A libertação cristã é uma transformação que começa no coração humano e alcança suas relações.

Não queremos destruir pessoas.
Queremos ser libertados daquilo que nos impede de amar.
Não queremos que o mal seja transferido de uma pessoa para outra.
Queremos que o mal seja vencido.
Não queremos que o inimigo seja eliminado.
Queremos que o inimigo também possa encontrar a conversão e a vida.

Essa compreensão encontra forte fundamento na tradição bíblica. Deus afirma por meio do profeta Ezequiel: "Não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho e viva" (Ez 33,11).

Essa afirmação se harmoniza profundamente com a missão de Jesus.

3. O que realmente está por trás do nome "Cerco de Jericó"?

É necessário reconhecer uma distinção importante.

O Cerco de Jericó realizado atualmente em algumas comunidades católicas não é simplesmente uma reprodução literal do relato de Josué 6. Na prática pastoral contemporânea, o termo passou a designar momentos de oração, adoração, louvor e súplica nos quais as "muralhas de Jericó" são utilizadas como símbolo das dificuldades que precisam ser superadas.

Por isso, seria injusto afirmar que todo aquele que participa dessa prática deseja a destruição de outras pessoas.

Entretanto, a pergunta permanece: é possível utilizar indefinidamente como símbolo devocional uma narrativa cujo conteúdo original possui elementos profundamente incompatíveis com a compreensão cristã da ação de Deus revelada em Jesus?

O problema está no próprio texto bíblico.

Em Josué 6, a queda das muralhas de Jericó não é apresentada simplesmente como a superação de dificuldades pessoais. O relato descreve a tomada da cidade e a destruição de sua população.

Depois da queda da muralha, o texto afirma: "Consagraram ao extermínio tudo o que havia na cidade: homens e mulheres, jovens e velhos, vacas, ovelhas e burros; passaram tudo ao fio da espada" (Js 6,21).

O texto continua narrando o incêndio da cidade e a retirada da prata, do ouro e dos objetos de bronze e ferro para o tesouro de Javé (cf. Js 6,24).

Por fim, Josué pronuncia uma maldição sobre quem reconstruísse a cidade, associando a reconstrução à morte de seus filhos (cf. Js 6,26).

Portanto, a imagem original de Jericó não é a de uma pessoa enfrentando suas dificuldades interiores.

A narrativa apresenta uma cidade conquistada, sua população exterminada, seus bens destruídos ou apropriados e uma maldição contra sua reconstrução.

Essa realidade não pode ser ignorada quando o nome "Jericó" é utilizado como fundamento simbólico de uma prática religiosa.

4. A Bíblia não transforma tudo o que narra em modelo a ser imitado

Uma questão importante precisa ser esclarecida para evitar qualquer oposição entre essa reflexão e a valorização da Sagrada Escritura.

Reconhecer a dificuldade teológica de uma passagem não significa rejeitar a Bíblia.

A Escritura contém narrativas de violência, guerras, pecados, injustiças e conflitos humanos. O fato de esses acontecimentos estarem registrados na Bíblia não significa que todos eles sejam apresentados como modelos permanentes de comportamento para o povo de Deus.

A revelação bíblica possui uma história e um desenvolvimento.

A leitura cristã das Escrituras acontece a partir de Cristo e encontra nele sua plenitude.

Por isso, uma passagem do Antigo Testamento não pode ser retirada de seu contexto e imediatamente transformada em modelo de espiritualidade cristã sem passar pelo discernimento à luz do Evangelho.

Essa questão torna-se especialmente importante quando uma narrativa contém violência atribuída à ação ou à vontade de Deus.

O cristão precisa perguntar como essa imagem se relaciona com aquele que revela o rosto definitivo do Pai.

E o rosto de Deus revelado por Jesus é o rosto daquele que acolhe, perdoa, cura, reconcilia e oferece a própria vida.

5. A questão pastoral não é a intenção dos participantes, mas o símbolo que a Igreja oferece

É possível que uma pessoa participe de um Cerco de Jericó pensando exclusivamente em suas dificuldades pessoais.

Para ela, a "muralha" pode ser uma doença, um problema familiar, uma dificuldade financeira ou uma situação de sofrimento.

Essa pessoa pode estar buscando sinceramente a Deus.

Isso precisa ser respeitado.

Mas a pastoral da Igreja possui uma responsabilidade que ultrapassa a intenção individual de cada participante.

Os símbolos educam.
As palavras educam.
As imagens educam.
As devoções educam.

Uma comunidade que repete determinados símbolos durante anos acaba formando uma determinada compreensão religiosa, ainda que essa compreensão não seja explicitamente ensinada.

Por isso, a pergunta pastoral não deve ser apenas: "Isso faz bem para as pessoas?" É necessário perguntar também: "Que imagem de Deus estamos formando por meio disso?" E ainda: "Que compreensão de vitória, de libertação, de inimigo e de sofrimento estamos ensinando?"

A pastoral não pode ignorar a força formativa dos símbolos.

Uma devoção popular pode ser sincera e, ainda assim, possuir elementos que merecem ser substituídos por símbolos mais coerentes com a fé cristã.

6. As Santas Chagas: uma imagem cristã da libertação

É nesse contexto que a devoção às Santas Chagas de Jesus adquire uma importância especial.

As Santas Chagas colocam diante dos olhos do fiel não uma cidade destruída, mas o próprio Cristo.

Não mostram o inimigo sendo eliminado.
Mostram Jesus entregando-se.
Não apresentam a força de quem destrói.
Apresentam a força daquele que ama até o fim.
Não apontam para a morte do outro.
Apontam para aquele que enfrenta a própria morte e, pela ressurreição, manifesta a vitória da vida.

A devoção às Santas Chagas é, portanto, profundamente cristocêntrica.

Contemplar as mãos feridas de Jesus é contemplar mãos que foram utilizadas para curar, tocar, acolher e abençoar.
Contemplar seus pés feridos é contemplar os pés daquele que caminhou ao encontro dos pobres, dos doentes, dos pecadores e dos excluídos.
Contemplar seus ombros feridos é recordar aquele que carregou a cruz e assumiu sobre si o peso da humanidade.
Contemplar sua cabeça coroada de espinhos é recordar o Cristo humilhado, que não respondeu à violência com violência.
Contemplar seu lado aberto é entrar no mistério de um coração que se entrega completamente.

As Chagas não escondem o sofrimento de Cristo.

Elas revelam o que Cristo fez com o sofrimento.

Ele não permitiu que a violência recebida o transformasse em alguém violento.

Ele permaneceu no amor.

7. As Chagas permanecem depois da Ressurreição

Um dos aspectos mais significativos da devoção às Santas Chagas encontra-se no próprio relato da Ressurreição.

Jesus ressuscitado conserva as marcas da paixão.

Quando Tomé manifesta sua dificuldade em acreditar, Jesus não apresenta um corpo sem feridas. Ele mostra as mãos e o lado (Jo 20,27).

Essa passagem possui enorme força espiritual.

As feridas não desapareceram.

Mas foram transformadas.

As marcas da violência tornaram-se sinais da identidade do Ressuscitado.

Aquele que foi ferido é o mesmo que agora vive.

Essa imagem oferece uma compreensão profundamente cristã da libertação.

Deus não precisa negar nossa história para nos salvar.

Ele pode transformar aquilo que nos feriu em lugar de graça.

As Santas Chagas podem, assim, falar diretamente às pessoas feridas pela vida.

Falam ao que sofreu.
Ao que perdeu alguém.
Ao que foi injustiçado.
Ao que carrega culpa.
Ao que precisa perdoar.
Ao que precisa ser perdoado.
Ao que está cansado.
Ao que sente que sua vida está marcada por feridas que não consegue superar.

Diante das Chagas de Cristo, a pessoa encontra um Deus que não é indiferente à dor humana.

8. Das muralhas às feridas

A mudança de referência simbólica produz também uma mudança na própria compreensão da oração.

No imaginário das muralhas, existe a tendência de localizar o problema fora de nós: há algo que precisa cair, algo que precisa ser removido, algo que precisa ser vencido.

Na contemplação das Chagas, a oração começa de outro lugar.

Perguntamos: O que precisa ser curado em mim?
Do que preciso ser libertado?
Que feridas ainda governam minhas decisões?
Que ressentimentos preciso entregar?
Que medos me impedem de viver?
Que pecados me escravizam?
Que sofrimento preciso colocar nas mãos de Cristo?
Que feridas dos outros preciso aprender a acolher?

Essa mudança não diminui a força da oração.

Ao contrário, torna a oração mais profundamente cristã.

O fiel continua podendo pedir a Deus uma intervenção concreta em sua vida. Continua podendo pedir cura, proteção, solução para seus problemas e libertação de situações difíceis.

Mas a oração deixa de estar centrada na destruição de uma "muralha" e passa a estar centrada na transformação da pessoa diante de Deus.

9. Libertação não significa ausência de sofrimento

Outro ponto importante é evitar uma compreensão superficial da libertação.

A fé cristã não promete que aquele que reza deixará de sofrer.

O próprio Cristo sofreu.

O discípulo também pode atravessar momentos de dor, doença, luto, injustiça e provação.

A libertação cristã é mais profunda.

É a libertação do pecado.
É a libertação do ódio.
É a libertação da escravidão interior.
É a libertação do desespero.
É a libertação da incapacidade de perdoar.
É a libertação do medo que paralisa.
É a libertação daquilo que nos impede de amar.

Por isso Jesus afirma: "Se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres" (Jo 8,36).

A verdadeira liberdade cristã não consiste em controlar todas as circunstâncias da existência. Consiste em pertencer a Cristo.

Nesse sentido, a devoção às Santas Chagas possui uma grande riqueza pastoral: ela permite falar de sofrimento sem transformar o sofrimento em fracasso espiritual e permite falar de libertação sem prometer uma vida sem dificuldades.

10. As Santas Chagas como escola de misericórdia

As Chagas de Cristo também possuem uma dimensão ética.

Não são apenas algo para ser contemplado. Elas formam o discípulo.

Quem contempla Cristo ferido é chamado a aprender a tratar as feridas dos outros.

As mãos de Cristo recordam o serviço. Os pés recordam o caminho. Os ombros recordam a solidariedade com aqueles que carregam pesos. A cabeça coroada de espinhos recorda a dignidade de Cristo mesmo na humilhação. O lado aberto recorda a misericórdia que se derrama.

A contemplação das Chagas conduz, assim, à prática do Evangelho.

Não basta dizer que acreditamos no amor de Deus. Precisamos aprender a amar.
Não basta pedir misericórdia. Precisamos tornar-nos misericordiosos.
Não basta pedir libertação. Precisamos também deixar de ser instrumentos de opressão na vida dos outros.

Essa é uma diferença fundamental entre uma espiritualidade centrada na destruição de obstáculos e uma espiritualidade centrada em Cristo.

11. Por que o Cerco de Jericó deveria deixar de ser utilizado nas paróquias

Diante dessas considerações, pode-se formular uma posição pastoral clara.

Não se trata de afirmar que todas as pessoas que participam do Cerco de Jericó tenham uma compreensão inadequada da fé.

Também não se trata de negar que nesses encontros possam existir momentos autênticos de oração, adoração, louvor e busca de Deus.

A questão é outra.

Uma paróquia precisa escolher cuidadosamente os símbolos que oferece ao povo como referência para sua vida espiritual.

Quando existe uma alternativa devocional profundamente cristocêntrica, fundada na paixão, morte e ressurreição de Jesus, parece pastoralmente mais adequado favorecer essa alternativa.

O Cerco de Jericó conserva como elemento central o nome de uma narrativa marcada, em seu próprio contexto bíblico, pela destruição de uma cidade e pelo extermínio de sua população.

As Santas Chagas, por sua vez, colocam diante do fiel o centro da fé cristã: Cristo crucificado e ressuscitado.

Em Jericó, a imagem fundamental é a de uma cidade que cai. Nas Santas Chagas, a imagem fundamental é a de Cristo que se entrega.
Em Jericó, a narrativa está associada à eliminação de um povo. Nas Santas Chagas, contemplamos aquele que pede perdão para aqueles que o ferem.
Em Jericó, a "vitória" acontece pela conquista da cidade. Em Cristo, a vitória acontece pela entrega da própria vida.
Em Jericó, encontramos uma narrativa que apresenta uma comunidade conquistando seu espaço mediante a destruição de outra. Nas Santas Chagas, encontramos Deus entrando na história humana e assumindo sobre si a violência, sem devolvê-la.

Por isso, se a Igreja deseja formar discípulos segundo o Evangelho, é razoável perguntar se o símbolo de Jericó deve continuar ocupando espaço privilegiado na pastoral paroquial.

A resposta proposta neste artigo é negativa.

Não porque se queira combater uma devoção popular.

Mas porque se deseja oferecer algo mais profundamente cristão.

12. Não basta substituir uma devoção por outra; é preciso mudar a compreensão de libertação

A substituição do Cerco de Jericó pela devoção às Santas Chagas não deveria significar apenas trocar o nome de uma prática.

Seria insuficiente abandonar a palavra "Jericó" e simplesmente manter a mesma lógica de oração, substituindo "muralhas" por outros símbolos.

O que precisa mudar é a compreensão da própria libertação.

A Igreja não anuncia um Deus que precisa ser convocado para destruir nossos adversários.

Anuncia um Deus que, em Cristo, entra na história humana para salvar.
Não anuncia um Deus que precisa ser convencido a agir.
Anuncia o Deus que já se revelou em Jesus.
Não anuncia uma religião baseada na eliminação do inimigo.
Anuncia a reconciliação.
Não anuncia uma espiritualidade na qual a solução para o mal é encontrar alguém que seja destruído.
Anuncia a cruz, na qual Deus vence o mal assumindo sobre si suas consequências e respondendo ao ódio com amor.

Por isso, a devoção às Santas Chagas não deve ser entendida apenas como uma alternativa estética ou devocional.

Ela pode constituir uma verdadeira pedagogia da fé.

Conclusão

Toda devoção precisa ser continuamente discernida à luz do Evangelho.

A Igreja possui uma riqueza imensa de expressões de piedade popular, e essa riqueza merece ser valorizada. Ao mesmo tempo, a pastoral precisa ter coragem para reconhecer que algumas práticas podem ser substituídas quando existem formas mais coerentes com o centro da fé cristã.

O Cerco de Jericó pode ter adquirido, em muitos lugares, um significado diferente daquele encontrado no texto de Josué. Pode ter se transformado em momento sincero de oração, louvor e adoração. Essa realidade não deve ser ignorada.

Entretanto, permanece uma questão fundamental: o nome e o símbolo utilizados continuam remetendo a uma narrativa na qual a conquista de Jericó está associada ao extermínio de homens, mulheres, crianças, idosos e animais, ao incêndio da cidade, à apropriação de seus bens e à maldição contra sua reconstrução.

À luz de Jesus Cristo, é legítimo questionar se essa narrativa deve continuar sendo apresentada como modelo simbólico para a oração cristã.

A fé cristã possui uma imagem muito mais profunda da libertação.

Ela não está na muralha que cai. Está no Cristo que permanece de braços abertos.

Não está na destruição do inimigo. Está naquele que, sendo ferido, continua amando.
Não está na eliminação do outro. Está naquele que pede ao Pai que perdoe seus algozes.
Não está na violência. Está na cruz.
Não está na morte do pecador. Está naquele que veio para que o pecador tenha vida.

Por isso, valorizar a devoção às Santas Chagas de Jesus não significa simplesmente escolher uma devoção no lugar de outra. Significa escolher qual imagem de Deus queremos colocar diante do povo.

Queremos formar cristãos que aprendam a pedir que suas dificuldades sejam simplesmente destruídas? Ou queremos formar discípulos que aprendam, diante das próprias feridas e das feridas do mundo, a entrar no mistério de Cristo?

As Santas Chagas oferecem uma resposta profundamente evangélica.

Elas nos recordam que Deus conhece a dor, que o amor pode atravessar o sofrimento, que o perdão é mais forte que a vingança e que a morte não possui a última palavra.

Diante das muralhas, podemos desejar sua queda.
Diante das Chagas, aprendemos algo maior:

Deus não nos ensina a destruir aquilo que está diante de nós. Ele nos ensina, em Cristo, a sermos libertados para amar.

P.S.: Quando a ressignificação não é suficiente

Há uma questão importante no debate sobre o Cerco de Jericó: seria possível simplesmente retirar os elementos violentos da narrativa bíblica e conservar apenas aquilo que parece positivo, como a perseverança, a confiança em Deus, a superação das dificuldades e a queda das muralhas?

O problema é que nem sempre é possível separar artificialmente um símbolo daquilo que constitui seu próprio significado. Há realidades nas quais o elemento que se pretende considerar "positivo" está inseparavelmente ligado ao acontecimento que lhe dá sentido.

Um exemplo extremo pode ser encontrado na memória do nazismo. Ninguém consideraria adequado procurar elementos supostamente positivos do regime nazista para depois ressignificá-los como símbolos religiosos ou pastorais, separando-os de seu projeto de perseguição, violência e extermínio. O horror não é um aspecto secundário daquele acontecimento; está intimamente relacionado àquilo que ele foi.

Algo semelhante pode ser percebido, em outro nível e em contexto completamente diferente, na discussão sobre as obras de Marko Rupnik. As acusações de abusos psicológicos e sexuais contra o artista, bem como as investigações realizadas no âmbito da Igreja, fizeram com que algumas comunidades passassem a questionar a permanência de seus mosaicos em espaços sagrados. Em Lourdes, por exemplo, mosaicos de Rupnik chegaram a ser cobertos, justamente em razão do impacto que sua presença produz sobre pessoas que sofreram abusos.

Nesses casos, não se trata simplesmente de perguntar se a obra possui beleza artística independentemente de seu autor, ou se o acontecimento histórico produziu algum efeito secundário que possa ser considerado positivo. A questão é mais profunda: o significado de determinadas realidades não pode ser completamente separado da história de violência, sofrimento ou abuso que passou a constituí-las como símbolos.

É nesse sentido que o relato de Jericó merece ser considerado.

Não se trata de afirmar que toda pessoa que participa de um Cerco de Jericó esteja desejando violência contra alguém. Evidentemente, não é isso que acontece. Tampouco se pretende negar que os participantes possam experimentar momentos sinceros de oração, adoração, louvor e confiança em Deus.

A questão está no próprio símbolo escolhido.

No relato de Josué 6, a queda das muralhas não é um episódio independente que posteriormente recebeu uma interpretação violenta. A conquista da cidade, a morte de sua população e a destruição de seus bens fazem parte da própria narrativa. A violência não é um elemento acidental que possa simplesmente ser retirado, mantendo intacto o sentido original de Jericó.

Por isso, dizer que podemos conservar Jericó e simplesmente "ressignificar" suas muralhas como dificuldades pessoais pode ser insuficiente. A pergunta mais adequada é: o que exatamente estamos ressignificando?

Se retiramos do relato o extermínio, a destruição, a apropriação dos bens e a maldição, não estamos mais interpretando o sentido da narrativa de Josué 6. Estamos criando uma nova narrativa a partir dela.

E essa constatação conduz à questão pastoral fundamental: se precisamos retirar justamente os elementos que constituem o núcleo problemático da narrativa para torná-la adequada à espiritualidade cristã, por que continuar utilizando esse símbolo?

A Igreja possui símbolos que já nascem diretamente do coração do Evangelho.

As Santas Chagas não precisam ser purificadas de uma violência atribuída a Deus para se tornarem cristãs. Elas são precisamente a memória de uma violência sofrida por Cristo e transformada, pela entrega amorosa e pela Ressurreição, em sinal de misericórdia, perdão e vida.

Em Jericó, seria necessário retirar a violência para encontrar uma mensagem positiva.

Nas Santas Chagas, a mensagem cristã nasce justamente da maneira como Cristo responde à violência: não reproduzindo-a, mas vencendo-a pelo amor.

Por isso, a questão não é simplesmente saber se podemos encontrar algo de positivo em Jericó. Certamente podemos. A questão é saber se Jericó é o melhor símbolo para comunicar aquilo que a Igreja deseja anunciar sobre Deus e sobre a libertação humana depois de Cristo.

E, diante das Santas Chagas, parece haver uma resposta pastoralmente mais coerente: não precisamos ressignificar a violência para transformá-la em símbolo de libertação. Podemos contemplar diretamente aquele que sofreu a violência, perdoou seus algozes e abriu, em seu próprio corpo ferido, um caminho de reconciliação e vida.

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