Única pessoa a governar dois estados da Federação, Brizola não aceitava que o Brasil era um Estado no qual bois e cavalos tinham mais direito à alimentação que as crianças e apostou nas escolas de tempo integral como uma alternativa à escassez dos empobrecidos
Há 65 anos, no dia 25 de agosto de 1961, Leonel de Moura Brizola “segurou” um golpe de estado com sua inteligência e força política. O episódio ficou conhecido como a Campanha da Legalidade.
“Esse movimento que completa agora 65 anos o projetou nacionalmente com muita força, ambição que ele alimentava desde que entrou na política. E reforçou a preocupação do governo norte-americano com Brizola, que já chamara a atenção por ter liderado a expropriação do patrimônio de empresas norte-americanas de energia e telefonia em benefício do Rio Grande do Sul. Foram dias tensos. Cada ação, cada foto, cada discurso era dado com muita estratégia. “Ninguém dará o golpe por telefone. O Rio Grande não aceita o golpe e a ele não se submeterá”, disse Brizola da janela do Palácio”, conta Cleber Dioni Tentardini, em entrevista por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Três anos mais tarde, porém, a força das elites políticas e militares deram o golpe civil-militar, que mergulharia o Brasil em 21 anos de sombras. Diante da iminência de ser capturado por seus inimigos políticos, Brizola fugiu para o Uruguai. A bordo de um Cessna azul e branco, de propriedade de João Goulart (Jango) que a esta altura já tinha fugido do país, Brizola voou até o Uruguai.
“O resgate de Brizola ocorreu na praia de Cidreira às 7h30min do dia sete de maio de 1964. Brizola partiu de Porto Alegre vestido com uma farda de soldado da Brigada Militar e seguiu, num Aero-Willys, dirigido pela esposa de Ajadil, dona Lenir. O carro estragou no caminho e passaram para um fusca vermelho que carregava varas de pescar e comida. Resgatado Brizola, o bimotor partiu voando baixo, pouco mais de um metro acima das águas do Atlântico para evitar os radares. Pousou em Sarandi Grande, a 150 quilômetros de Montevidéu”, descreve o entrevistado, autor do livro No Fio da História: biografia de Leonel Brizola (D’Fato, 2026).
Homens com essa envergadura são, também, perpassados por mitos que os alçam a imagens simbólicas distorcidas, pois as contradições tendem a ser invisibilizadas. Mas o fato é que Brizola, a despeito de suas derrotas e erros, foi único e pioneiro em preocupações de primeira ordem no catálogo de desafios que o país precisava enfrentar, entre eles a desigualdade e a fome. “Lembro de ouvi-lo no rádio: ‘É um absurdo que os animais do nosso país sejam mais bem‑tratados que nossas crianças. Nunca vi no Brasil um bezerro abandonado, nem cavalo sem ferradura no casco. Toda criança pobre tem que ter, no mínimo, o direito a um sapato no pé’”, recorda o jornalista.

Cleber Dioni Tentardini (Foto: Arquivo Pessoal)
Cleber Dioni Tentardini é um jornalista gaúcho de Santana do Livramento. Trabalha para editoras, jornais e portais de notícias. Tem vários prêmios conquistados em quase três décadas de profissão. É autor de Patrimônio Ameaçado, sobre as fundações gaúchas extintas; O menino que se tornou Brizola, livro-reportagem e Usina Eólica Cerro Chato, a primeira usina de geração de energia a partir dos ventos construída no Pampa pela Eletrosul/Eletrobras. Coautor dos perfis parlamentares de João Goulart e Leonel Brizola, da Assembleia Legislativa do RS, pesquisador de uma dúzia de livros, entre os mais recentes, História Ilustrada do Rio Grande do Sul e Viamão 300 anos.
IHU – Quem foi, para além do que já se sabe amplamente, Leonel de Moura Brizola?
Cleber Dioni Tentardini – Com exceção de quem acompanha a história política do Brasil, a imagem que a maioria da população tem de Brizola é dos seus últimos vinte e cinco anos de vida. Virou uma figura folclórica, que debochava de seus adversários nos debates, distribuindo apelidos, e por enfrentar a poderosa Rede Globo, que lhe atribuiu os rótulos de populista e demagogo. É criticado até hoje por defender os moradores das favelas e o direito à educação das crianças pobres e, acredite, culpado pela alta criminalidade carioca.
Só que Brizola respirou política por 59 anos. Era agregador e inquieto desde a infância. Um planejador e realizador, tudo isso temperado por uma capacidade de trabalho descomunal. Trabalhava até a madrugada e seis da manhã estava em pé e exigia o mesmo empenho de seus assessores. No governo do RS, o salão Negrinho do Pastoreio, antes reservado a festas, recebeu divisórias, cada uma destinada a reuniões com seus secretários. Era teimoso, brigão e mandão como um caudilho. Comunicador como poucos. Como governador, Brizola falava no rádio todas às sextas à noite, o que lhe rendeu o apelido de “lobisomen”.
Sua obsessão sempre foi pela educação das crianças, herança da sua mãe, dona Oniva. Aliás, essa senhora baixinha, enérgica, tinha um coração enorme. E era determinada. Só depois de conhecer um pouco da sua vida, através dos filhos e sobrinhos, é que percebi ter sido ela a responsável pelo menino que se tornou Brizola.
IHU – Qual a importância do Movimento da Legalidade na biografia de Leonel Brizola?
Cleber Dioni Tentardini – Esse movimento que completa agora 65 anos o projetou nacionalmente com muita força, ambição que ele alimentava desde que entrou na política. E reforçou a preocupação do governo norte-americano com Brizola, que já chamara a atenção por ter liderado a expropriação do patrimônio de empresas norte-americanas de energia e telefonia em benefício do Rio Grande do Sul. Foram dias tensos. Cada ação, cada foto, cada discurso era dado com muita estratégia. “Ninguém dará o golpe por telefone. O Rio Grande não aceita o golpe e a ele não se submeterá”, disse Brizola da janela do Palácio.
Eu detalhei tudo no livro. Colhi histórias fantásticas de bastidores da Campanha da Legalidade com militares e jornalistas que acompanhavam o dia a dia de Brizola no Palácio. São múltiplos fatos ocorridos naqueles 21 dias antes da posse de João Goulart, um mais curioso que o outro, envolvendo inclusive dom Vicente Scherer, arcebispo da Capital.
Até a metralhadora que Brizola carregava a tiracolo, e que rendeu a foto mais famosa da Legalidade, tem uma história incrível. Encontrei a original em um cofre. Consegui fotografar e publicar.
IHU – Como era a relação de Brizola com Jango, do ponto de vista pessoal e político?
Cleber Dioni Tentardini – Brizola e Jango se conheceram em 1945, recém haviam ingressado no PTB. Um oriundo de uma família pobre de Carazinho, outro, de umas das mais ricas de São Borja. Com a bênção de Getúlio de Vargas, foram eleitos deputados para a Assembleia Constituinte em 1947. Viraram amigos e, em seguida, cunhados. Brizola casou em 1950 com a irmã de Jango, Neusa Goulart. Dividiam os mesmos ideais trabalhistas, mas tomavam decisões cada um ao seu estilo. Brizola era impulsivo, Jango, conciliador. Brizola, governador, distribuía terras. Jango era dono de terras. Mas, ambos queriam a reforma agrária.
Sobre o rompimento da amizade, a ideia mais difundida é de que ocorreu após o presidente recusar uma reação ao golpe cívico-militar de 64. Acredito que as divergências, existentes desde sempre, se acentuaram ainda em 1961, quando Jango aceitou o regime parlamentarista imposto pelas Forças Armadas para permitir que ele assumisse a presidência. Frente às câmeras, Brizola era só sorrisos e abraços, mas o protagonista do maior acontecimento político que sacudiu o Brasil naquele ano, rejeitou a atitude do cunhado, ainda que o regime tenha durado pouco tempo.
Continuaram rompidos durante o exílio, até pouco tempo antes de Jango morrer, em 1976, na Argentina. A reconciliação partiu de Jango, que foi visitar a irmã e pediu para conversar com Brizola.

Presidente João Goulart e Leonel Brizola (Foto: Reprodução)
IHU – A fuga de Brizola para o Uruguai, durante a perseguição na ditadura militar, contou com um avião de pequeno porte e um voo a baixas altitudes para não serem flagrados pelos radares. Pode nos contar melhor essa história?
Cleber Dioni Tentardini – Foi uma epopeia. Eu remontei cada passo de Brizola antes, durante e depois da famosa reunião na casa do comandante do IIIº Exército, na Cristóvão Colombo. Essa avenida estava tomada de tanques. Após negar a reação ao golpe e renunciar à Presidência – e naquela altura realmente não havia mais como resistir –, Jango saiu do país com a família em seu avião particular. Brizola articulou primeiro a remoção da família, que teve a casa no Moinhos de Vento invadida e depredada pelos militares.
Brizola, então deputado federal pela Guanabara, ficou escondido num sítio em Viamão e, depois, no apartamento do vice-prefeito Ajadil de Lemos, no centro de Porto Alegre, acredite, perto do Piratini. O Palácio estava vazio, pois o governador Ildo Meneghetti havia partido para Passo Fundo.
Essa história, que conto em detalhes, renderia um baita documentário. Começa o plano de fuga para o Uruguai. Não tinha jeito, porque se ficasse e fosse apanhado, ele teria sido morto. Jango colocou seu avião Cessna azul e branco, à disposição, e o piloto, amigo de ambos, Manoel Leães.
O resgate de Brizola ocorreu na praia de Cidreira às 7h30min do dia sete de maio de 1964. Brizola partiu de Porto Alegre vestido com uma farda de soldado da Brigada Militar e seguiu, num Aero-Willys, dirigido pela esposa de Ajadil, dona Lenir. O carro estragou no caminho e passaram para um fusca vermelho que carregava varas de pescar e comida.
Resgatado Brizola, o bimotor partiu voando baixo, pouco mais de um metro acima das águas do Atlântico para evitar os radares. Pousou em Sarandi Grande, a 150 quilômetros de Montevidéu.
IHU – Há um episódio marcante na trajetória de Brizola no qual ele é o protagonista, mas não aparece pessoalmente. Trata-se do direito de resposta judicial que obrigou o Jornal Nacional, na figura de Cid Moreira, a ler, em rede nacional, um texto em que um trecho dizia assim: “Não reconheço a Globo em matéria de liberdade de imprensa”. Qual a importância deste fato na vida de Brizola e do jornalismo brasileiro à época?
Cleber Dioni Tentardini – Brizola era persona non grata para o dono da Globo, Roberto Marinho. Antes, quem fazia uma oposição acirrada às suas administrações trabalhistas era a poderosa rede dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand.
A televisão ainda engatinhava. Os impressos e as rádios eram as principais fontes dos noticiários. O jornal O Globo apoiou o golpe de 1964 e permaneceu favorável à ditadura por praticamente todo o período. Mas não foi só ele. E ainda contavam com um forte aparato de instituições estrangeiras, disfarçadas. Porque o jornal seguia uma linha neoliberal, apoiando privatizações, e Brizola defendia a valorização das empresas estatais, direitos trabalhistas, reforma agrária... O jornal apoiou Ivete Vargas no processo de disputa pelo PTB, a partir de 1979, para enfraquecer Brizola. A família Marinho interferiu nas campanhas eleitorais ao governo do Rio de Janeiro e durante as duas administrações Brizola. Sempre contra. E a maioria esmagadora da imprensa embarcou na campanha de demolição de um governo. A resposta veio em grande estilo no Jornal Nacional. Isso acirrou os ânimos e no apagar das luzes, Brizola não conseguiu alcançar o que sempre almejou, a presidência da República.
Com o passar dos anos e amadurecimento da democracia, o grupo Globo publicou editais em seus veículos reconhecendo o erro de ter apoiado o golpe e o regime militar.
IHU – Brizola foi o único político brasileiro a governar dois estados, o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro. Qual o significado disso em termos políticos e qual a importância histórica de Brizola nestas duas unidades federativas?
Cleber Dioni Tentardini – A pergunta já indica o caminho da reposta. Foi o único. Foram tantas realizações no governo gaúcho. Cito algumas: Criação da Aços Finos Piratini; Refap, que viabilizaria a instalação do III Polo Petroquímico e de indústrias de adubo; Banco Regional de Desenvolvimento Econômico do Extremo Sul (BRDE), em parceria com Santa Catarina e Paraná, que até hoje financia projetos voltados para o desenvolvimento da região. A Caixa Econômica Estadual e o Banco do Rio Grande do Sul também foram incorporados ao patrimônio estadual.
Multiplicou as escolas públicas, primeiro na Capital, depois pelo interior do Estado. Incentivou a agricultura familiar; ajudou a criar o Master, embrião do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), para realizar a reforma agrária; lutou contra a estagnação da economia gaúcha, estatizou telefonia e energia. É muita coisa.
Em 2015, a presidente Dilma Rousseff sancionou lei aprovada pelo Senado que incluiu Brizola no Livro dos Heróis da Pátria, que homenageia brasileiros que se destacaram na defesa e construção da história nacional. Está exposto no Panteão da Pátria, na Praça dos Três Poderes, em Brasília, ao lado de nomes como Tiradentes, Zumbi dos Palmares e Heitor Villa Lobos.
IHU – Brizola e Lula sempre tiveram uma relação complexa. Foram adversários políticos em 1989, depois aliados em 1998 – quando Brizola foi vice na chapa composta com o petista –, e em 2003 o PDT sai da base do governo Lula em razão de discordâncias com a agenda econômica. Que aspectos biográficos da vida de Brizola nos ajudam a compreender essa relação?
Cleber Dioni Tentardini – Em 1979, Brizola voltou ao Brasil como a principal liderança de oposição ao regime militar. Um ano depois, surge o PT e a figura de Luíz Inácio, metalúrgico, representando o movimento sindical. Brizola tentando recuperar a sigla do PTB, bandeira do trabalhismo getulista, e o PT querendo aglutinar as forças de esquerda, através dos movimentos sociais.
Brizola foi à sede do sindicato dos metalúrgicos, onde se deu o primeiro encontro deles. Brizola revelou anos depois que Lula se mostrou pouco receptivo. E havia outros tantos obstáculos no caminho de Brizola, principalmente as lideranças do MDB, Pedro Simon, Ulisses Guimarães, Mario Covas..., que não queriam ver o partido substituído pelo PTB no cenário político nacional.
Já no PDT, Brizola entendia que Lula era uma manobra da direita para dividir a esquerda. Essa ideia foi reforçada em 1989, quando Brizola ficou em terceiro lugar na disputa presidencial. Lula foi ao segundo turno e acabou perdendo para o desconhecido Fernando Collor. As forças de direita mantiveram-se no poder.
Outra bronca que os trabalhistas tinham é que os petistas nunca aceitaram que Lula concorresse como vice de Brizola. Thomas Skidmore, professor, historiador e escritor norte‑americano, disse que Brizola metia medo nas pessoas.
Roberto Mangabeira Unger, professor, filósofo e escritor, sentenciou: “Tragicamente para o Brasil, os intelectuais mais influentes entre nós interpretaram a reconstrução do nacionalismo, obra que ocupou parte da vida de Brizola, sob o rótulo de categorias obtusas, vagas e enganosas como ‘populismo’. Como se num país com maiorias desorganizadas e organizações frágeis iríamos contentar-nos em representar apenas os interesses já organizados e, por isso mesmo, relativamente privilegiados”.
IHU – Leonel Brizola sempre teve uma visão muito vanguardista em relação ao papel da educação no Brasil, algo materializado nos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs). A partir da biografia de Brizola, o senhor pode comentar de onde vinha essa preocupação e como foi sua relação com Darcy Ribeiro, outro personagem importante da política educacional brasileira?
Cleber Dioni Tentardini – Como falei anteriormente, Brizola tinha uma obsessão pela educação das crianças e adolescentes. Ele usufruiu da escola pública até se formar engenheiro na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). As duas únicas vezes em que frequentou colégios particulares foi de graça, com bolsa de estudo no Metodista de Passo Fundo e no Internato Masculino do Ginásio Nossa Senhora do Rosário, que fora integrado ao ensino público estadual pelo então presidente do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas. Neste, concluiu o ginásio. Cursou o ensino médio no Julinho.
De posse da caneta no paço municipal, mandou construir centenas de escolas, especialmente nas vilas. Caco Barcellos, jornalista e escritor, revelou em uma entrevista: “Ao Brizola, devo os primeiros lápis e caderno, a oportunidade de praticar esporte e música, e acesso à alimentação com proteína de primeira linha”. Lembro de ouví-lo no rádio: “É um absurdo que os animais do nosso país sejam mais bem‑tratados que nossas crianças. Nunca vi no Brasil um bezerro abandonado, nem cavalo sem ferradura no casco. Toda criança pobre tem que ter, no mínimo, o direito a um sapato no pé”.
No governo gaúcho, liderou a construção de milhares de escolas, uma grande parte na área rural para facilitar o acesso dos menores. A jornalista Ana Amélia Lemos também deve a Brizola a oportunidade de continuar os estudos. Ela escreveu uma carta ao governador Brizola e ganhou uma bolsa de incentivo para bancar sua permanência em outra cidade pois onde morava não havia como dar continuidade.
No governo do Rio de Janeiro, em parceria com Oscar Niemeyer e Darcy Ribeiro, instalaram os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), escolas de tempo integral, um modelo educacional revolucionário, onde as crianças seriam educadas, alimentadas e vestidas. “Com Darcy, compreendi que não bastava mais fazer escolas, somente, porque as ruas tornaram-se escolas de violência e de criminalidade, e não podemos deixar nossas crianças na rua”, afirmou aos jornais.
IHU – Quais foram as principais derrotas e vitórias na trajetória pública de Brizola?
Cleber Dioni Tentardini – Foram muitas derrotas e vitórias. No começo da carreira, perdeu duas eleições para Ildo Meneghetti, um conservador, filho de italianos, que tinha o apoio dos católicos. Aliás, têm umas histórias fantásticas nessas disputas para a prefeitura da Capital e para o governo gaúcho. Mas, sem sombra de dúvidas, a principal derrota foi não ter chegado à Presidência da República.
Por outro lado, acredito que sua carreira é, por si só, a de quem venceu na vida. O guri que chegou à Capital dos gaúchos em 1936 com umas roupinhas velhas na mala, sem identidade, e foi trocar moedas na Galeria Chaves enquanto esperava a vaga no internato de Viamão, se tornou engenheiro, deputado estadual, federal, prefeito de Porto Alegre, secretário de Estado, governador gaúcho, em dez anos – de sua estreia em 1947 à eleição espetacular de 1958. Voltou vivo do exílio e foi governador carioca e até hoje é reverenciado por boa parte dos brasileiros que conhecem um pouco sua trajetória. Não é para qualquer um.
IHU – Como foi escrever No Fio da História: biografia de Leonel Brizola (D’Fato, 2026) e por que este personagem?
Cleber Dioni Tentardini – Este livro começou a ser produzido há mais de vinte anos. Os jornalistas Elmar Bones, Renan Antunes de Oliveira e eu estávamos tentando agendar uma entrevista com o Brizola na sua estância El Repecho, na província de Durazno, no Uruguai, para uma série de reportagens sobre os 40 anos do Golpe de 64. Agendamos com seu filho do meio, João Otávio, de encontrá-lo em Montevidéu, em junho. Não deu tempo. Adoeceu no tenebroso inverno uruguaio e morreu no dia 21 daquele mês de 2004, num hospital no Rio de Janeiro, vítima de infarto, aos 82 anos.
João Borges de Souza, um veterano do jornalismo político, incorporou-se ao nosso grupo e lançou a proposta de um livro-reportagem sobre o líder trabalhista. Já havíamos produzido um livro sobre João Goulart para a Assembleia Legislativa, onde constava Brizola, naturalmente. Mergulhei na história de vida desde a infância em Carazinho. O primeiro achado foi uma foto de Brizola guri, que encontrei vasculhando os arquivos da Escola Técnica de Agricultura, em Viamão.
Aí comecei a vasculhar outros arquivos, museus, bibliotecas, secretarias de escolas, faculdade, igrejas e cartórios, buscando os detalhes, e tive a felicidade de recolher as histórias das fontes primárias, quero dizer, dos familiares mais próximos. Fui o único a entrevistar os irmãos do político e a sobrinha, criada como sua irmã, que guardava álbuns de fotos e uma memória incrível. Também falei com os colegas e professores das séries iniciais, amigos de infância, companheiros no início da vida política, como o ex-prefeito Sereno Chaise, e militares que viveram o dia a dia dos governos Brizola. Entrevistei a senhora que o acompanhou na viagem de trem para a Capital aos 14 anos. Praticamente todos já morreram. Sem eles, seria impossível reconstituir a vida de Brizola.
E foram surgindo novas descobertas, até chegar à história da mais nova e única filha viva do ex-governador, segundo teste de DNA positivo, mas cuja paternidade não foi reconhecida pela Justiça no Rio. Trago no livro a história e uma entrevista exclusiva com ela. Foi como mexer num vespeiro, mas quem se propõe a escrever a biografia de um personagem desse peso, tão importante para a história do Brasil, e que seja realmente honesta com os leitores, tem que estar preparado para mexer em pontos sensíveis, desconstruir narrativas falsas que se perpetuam como mitos. Esse é o preço de um trabalho sério.