Honestino de de Aurélio Michiles. Artigo de José Geraldo Couto

Cena do filme "Honestino" (Foto: Reprodução)

Mais Lidos

  • Imaculada e Assunta: um século de “invenção” da tradição. Artigo de Andrea Grillo

    LER MAIS
  • A Dormição e Assunção de Maria. O dogma que torna o “Ferragosto” sagrado. Artigo de Giovanni Maria Vian

    LER MAIS
  • Com Nossa Senhora da Assunção, caminhamos para o futuro com os olhos e o coração elevados. Artigo de Matteo Zuppi

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

15 Agosto 2026

"O cinema brasileiro produziu 189 filmes que tratam do assunto de alguma forma; o cinema argentino produziu 608 sobre sua própria ditadura; o chileno, 225. Argentinos e chilenos julgaram, condenaram e puniram alguns de seus chefes militares e torturadores. Nós não punimos ninguém"

O artigo é de José Geraldo Couto, publicado por Revista Lume, 13-08-2026.

José Geraldo Couto é jornalista e crítico de cinema.

Eis o artigo.

Mais um filme sobre a ditadura militar? Sim e não. Sim, Honestino, de Aurélio Michiles, é um documentário (mais precisamente o que se costuma chamar de docudrama) que aborda o período mais duro do regime militar, quando militantes e ativistas da democracia eram presos, torturados, exilados, mortos, desaparecidos. Mas é também a história de uma existência vivida com intensidade, no limite. Uma dança à beira do abismo. Uma vida solar.

A grande força do filme, a meu ver, se baseia nesse equilíbrio entre fundo e figura – o contexto e o personagem – sem que em nenhum momento um dos dois obscureça o outro.

Para traçar a biografia do estudante Honestino Guimarães (1947-73), Aurélio Michiles, que foi seu companheiro de luta na Universidade de Brasília, começa no presente. As primeiras imagens são da ponte Honestino Guimarães (sobre o lago Paranoá, em Brasília), que só em 2023 passou a ter definitivamente esse nome, em substituição ao do general ditador Costa e Silva. Em seguida, vemos o neto de Honestino discursar na cerimônia de titulação póstuma do avô como geólogo na UnB, em 2024. As sucessivas prisões e a clandestinidade o haviam impedido de concluir o curso, em cujo vestibular tinha sido aprovado em primeiro lugar.

A história de Honestino, desde a chegada em Brasília com a família, em 1960, vindo de Itaberaí (GO), passa a ser reconstruída então com base em depoimentos (da mãe, do irmão, da filha, das companheiras, dos camaradas de luta) e em rico material de arquivo (documentários, cinejornais, fotos, reportagens). Pontuando esse material bruto, substantivo, há cenas dramatizadas, em que o ator Bruno Gagliasso encarna o biografado.

Mas não encontramos aqui o ranço mimético, o desejo ilusionista de reproduzir o passado “tal qual aconteceu”, que costuma enfraquecer tantos filmes políticos. Em Honestino as encenações são estilizadas, com uma configuração visual mais expressionista do que propriamente realista. Em boa parte delas, o protagonista percorre um corredor curvo deserto e sombrio, que se parece mais com um cenário de pesadelo tarkovskiano do que com os corredores reais da UnB.

Os depoimentos são precisos, incisivos, dando conta da complexidade psicológica de Honestino, em especial sua vocação para a vida plena, dionisíaca, que o levava a curtir uma roda de samba em Botafogo, o pôr-do-sol no posto 9 de Ipanema ou uma partida do Vasco no Maracanã enquanto vivia clandestino, caçado por todos os órgãos de repressão, no auge da ditadura Médici.

Particularmente tocantes, mas captadas e expostas com sobriedade, são as falas da filha de Honestino, Juliana Botelho Guimarães, que tinha só três anos quando o pai desapareceu, e que o via apenas em encontros fugazes. Com base em um punhado de fotos e em lembranças difusas, ela tenta reconstituir a memória de seu laço com o pai. “Tem certas coisas que não sei se vivi ou inventei”, diz ela, sem apelar nem por um instante para o sentimentalismo.

Mais discutíveis são as cenas em que um grupo de jovens recita com veemência palavras de ordem libertárias em locais emblemáticos de Brasília, como a parede inclinada do Teatro Claudio Santoro. A intenção talvez seja a de recriar o espírito de rebeldia da juventude da época de Honestino, mas o resultado fica demasiado próximo de um jogral de teatro amador.

Nada disso chega a empanar o brilho ou enfraquecer a contundência do filme, cujo mérito maior, a meu ver, é colocar em relevo a pulsão de vida de seu personagem, em contraste com tantos documentários lutuosos, martirológicos, que mesmo contra a vontade acabam dando a impressão de que os jovens revolucionários da época só viviam para o sacrifício, só existiam para morrer como missionários.

A vida de Honestino, em suma, não foi uma “imitação de Cristo”. Ele lutava, mas também trepava, sambava, jogava futebol na praia. Sua luta, pelo que entendi, era para que todos os brasileiros pudessem fazer o mesmo.

E para quem acha que já existem filmes demais sobre a ditadura, aqui vai um dado básico: segundo um levantamento publicado em 2025, o cinema brasileiro produziu 189 filmes que tratam do assunto de alguma forma; o cinema argentino produziu 608 sobre sua própria ditadura; o chileno, 225. Argentinos e chilenos julgaram, condenaram e puniram alguns de seus chefes militares e torturadores. Nós não punimos ninguém.

Leia mais