"Viemos da Itália para a Cisjordânia para ajudar as famílias sitiadas. Agora tememos uma incursão militar"

Foto: UNICEF | Alaa Badarneh

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14 Agosto 2026

Nancy, italiana que vive em Qusra, numa das casas cercadas por colonos judeus, conta: "Os soldados cortaram os cabos do nosso sistema de videovigilância; era uma das poucas proteções que tínhamos. Esta é a vida cotidiana dos palestinos."

"Somos uma presença de solidariedade internacional. Nosso objetivo é apoiar as famílias palestinas pelo maior tempo possível, ajudando-as a resistir em suas casas. Estamos aqui temporariamente, mas para elas isso é o cotidiano." Quem fala sob pseudônimo é Nancy, 28, uma italiana. Ela e quatro outros compatriotas estão sitiados por colonos em Qusra.

A entrevista é de Fabio Tonacci, publicada por La Repubblica, 14-08-2026.

Eis a entrevista.

Quando você chegou?

Sábado, um dia antes do início do cerco. Tínhamos vindo visitar as famílias. Então, no domingo, os colonos judeus montaram uma tenda em frente às casas, e tudo mudou.

O que aconteceu?

Já existia um acampamento ilegal naquela colina. Durante meses, os palestinos foram alvo de assédio: pedras atiradas contra suas casas, gritos à noite, provocações. Então, os colonos montaram um novo acampamento, com barracas e sofás; eles até fizeram um churrasco. Desde então, é impossível sair de lá.

Por quê?

Você corre o risco de ser espancado e não poder voltar. As famílias estão isoladas. Primeiro, os colonos cortaram a eletricidade, mas felizmente temos painéis solares. Depois, cortaram os canos de água. Temos tanques, então, por enquanto, conseguimos resistir.

Alguém lhe traz suprimentos?

Algumas pessoas tentaram chegar até nós a pé com comida, mas foram impedidas tanto pelos colonos quanto pelos militares.

As famílias pediram que as Forças de Defesa de Israel interviessem?

Sim. Mas quando os soldados chegaram, nós os vimos conversando com os colonos, interagindo com eles. Em vez de expulsá-los, eles dificultaram a chegada de alimentos.

As crianças foram evacuadas.

Uma ambulância conseguiu chegar. Trouxeram comida e transferiram as crianças. O que temos deve durar cerca de dez dias.

A área foi declarada zona militar fechada. O que isso significa?

Somente moradores podem estar aqui. Nós também não deveríamos estar aqui, mas, acima de tudo, colonos não deveriam estar aqui.

Mesmo assim, eles permaneceram.

Exatamente. Havia também uma ordem judicial exigindo a evacuação do posto avançado. Na primeira noite, os soldados chegaram, derrubaram parte da tenda e foram embora. Num instante, a tenda estava de volta ao lugar.

No dia seguinte?

Acordamos com o som de bombas de efeito moral. Uns 50 ou 60 colonos desceram da colina e bloquearam as estradas com pedras. Os militares chegaram e, por algumas horas, parecia que uma guerra estava acontecendo do lado de fora das nossas janelas.

O posto avançado foi finalmente liberado?

Por volta das quatro da manhã, vimos um comboio de pelo menos uma dúzia de veículos militares. Eles desmantelaram tanto a guarnição em frente às casas quanto a que ficava na colina.

Mas o cerco não acabou...

Assim que os soldados saem, eles voltam.

Como é possível que um exército não consiga expulsar algumas dezenas de pessoas?

Ele não quer fazer isso. Há uma clara proximidade entre os colonos e os soldados, que fazem o mínimo necessário. Eles até rezaram juntos.

Ontem de manhã, o exército entrou nas casas onde você está, com uma ordem de evacuação.

Eles mexeram em algumas coisas, cortando os cabos das câmeras de vigilância. Elas eram uma das poucas formas de proteção; nos permitiam ver o que estava acontecendo lá fora.

Você está com medo?

Há preocupação, especialmente à noite. Mas o foco não está em nós, e sim nas famílias palestinas que foram atacadas.

Do que você tem mais medo?

Uma prisão ou uma incursão militar. Nunca se sabe o que vai acontecer; os colonos estão armados.

Por quanto tempo você ficará?

Desde que nossa presença possa ajudar essas famílias a permanecerem em suas casas.

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