O choro da mulher. Comentário de José Antonio Pagola

Representação da cura da filha da mulher cananeia | Foto: Reprodução/Religión Digital

14 Agosto 2026

"O que nós, cristãos de hoje, fazemos diante dos clamores de tantas mulheres que estão sozinhas, marginalizadas, maltratadas e esquecidas pela Igreja? Abandonamo-las, justificando nossa negligência com as exigências de outras responsabilidades? Jesus não fez isso".

O comentário é de José Antonio Pagola, teólogo espanhol, referente ao Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 15,21-28, que corresponde ao 20º Domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico, publicado por Religión Digital, 10-08-2026.

Eis o comentário.

Quando Mateus escreveu seu Evangelho na década de 80, a Igreja se deparou com uma questão séria: o que os seguidores de Jesus deveriam fazer? Deveriam se limitar ao povo judeu ou se abrir também aos gentios?

Jesus só havia agido dentro das fronteiras de Israel. Rapidamente eliminado pelo representante romano e pelos líderes do templo, ele não pôde fazer mais nada. No entanto, ao relembrarem sua vida, os discípulos recordaram duas coisas muito esclarecedoras. Primeiro, Jesus foi capaz de descobrir uma fé maior entre os gentios do que entre seus próprios seguidores. Segundo, Jesus não reservou sua compaixão apenas para os judeus. O Deus de compaixão pertence a todos.

A cena é comovente. Uma mulher vem ao encontro de Jesus. Ela não pertence ao povo escolhido. Ela é pagã. Ela vem do povo cananeu amaldiçoado, que lutou tão ferozmente contra Israel. Ela é uma mulher sozinha e sem nome. Talvez seja mãe solteira, viúva ou tenha sido abandonada por seu próprio povo.

Mateus enfatiza apenas a sua fé. Toda a sua vida se resume num grito que expressa a profundidade da sua desgraça. Ele segue os discípulos, "gritando". Não se detém no silêncio de Jesus nem na angústia dos discípulos. A desgraça da sua filha, possuída por "um demônio muito maligno", tornou-se a sua própria dor: "Senhor, tem misericórdia de mim".

Em certo momento, a mulher alcança o grupo, interrompe Jesus, prostra-se diante dele e ajoelha-se, dizendo: "Senhor, ajuda-me". Ela não aceita as explicações de Jesus, pois ele está absorto em seu trabalho em Israel. Ela não aceita a exclusão étnica, política, religiosa e de gênero enfrentada por tantas mulheres, que sofrem com a solidão e a marginalização.

É então que Jesus se revela em toda a sua humildade e grandeza: “Mulher, grande é a tua fé! Que seja atendido o teu pedido”. A mulher tem razão. Nenhuma outra explicação serve de nada. A prioridade é aliviar o sofrimento. O seu pedido está em consonância com a vontade de Deus.

O que nós, cristãos de hoje, fazemos diante dos clamores de tantas mulheres que estão sozinhas, marginalizadas, abusadas e esquecidas pela Igreja? Abandonamo-las, justificando nossa negligência com as exigências de outras responsabilidades? Jesus não fez isso.

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