Lobby judaico não conseguiu vergar o Sínodo da Igreja anglicana

Foto: Sam Atkins/Igreja de Inglaterra | 7 Margens

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16 Julho 2026

A solidariedade da Igreja de Inglaterra para com os cristãos da Palestina e todos os palestinianos, com respeito pelos direitos do estado de Israel converteu-se no ponto mais polêmico e que mais tempo ocupou no Sínodo Geral que terminou esta terça feira, 14, na Universidade de Iorque. As pressões de algumas das organizações judaicas do país não conseguiram impedir a votação e a aprovação do documento base, depois de algumas alterações.

A reportagem é de Manuel Pinto, publicada por 7 Margens, 14-07-2026.

O debate surgiu de uma moção apresentada pela diocese de Carlisle e aqueceu no domingo, no final do dia, obrigando a alterar a agenda de trabalhos para ocupar boa parte da manhã de segunda feira. No final os resultados foram expressivamente favoráveis à moção: 253 votos a favor; 47 votos contra e 70 abstenções. O sim foi claro quer entre os 30 bispos votantes (sem votos contra e apenas cinco abstenções), quer entre o clero e entre os leigos.

Entre as muitas dezenas de intervenções, destacou-se a da arcebispa de Cantuária, Sara Mullally, que é também primaz de toda a Inglaterra e que fez uma peregrinação à diocese anglicana de Jerusalém em junho último. Segundo ela, “o medo era palpável em todos aqueles que encontrou, palestinianos e israelitas. De Gaza ao norte de Israel, do sul do Líbano à Cisjordânia, as pessoas em toda a região estão traumatizadas pelos conflitos em curso”.

“A ameaça aos cristãos palestinianos em particular — cujo número está a diminuir cada vez mais — é existencial. Diante desse cenário desesperado, somos chamados a uma solidariedade nova e ativa. Não podemos ignorar a urgência deste momento”, frisou a líder anglicana.

A lista de documentos que foram distribuídos para leitura prévia aos membros do Sínodo incluía especialmente um que suscitou a reação de setores judaicos, intitulado “Um momento de verdade: fé em tempo de genocídio”.

Trata-se de um texto também conhecido por Kairos II, datado de novembro de 2025, na sequência de um outro de 2009, e foi elaborado por iniciativa de representantes de diferentes igrejas cristãs, incluindo o reitor de Santo André, Ramallah, Fadi Diab, cuja presença no Sínodo foi noticiada. O documento teve em conta o que se passou em Gaza e na Cisjordânia desde o massacre do Hezebolah em Israel, em 7 de outubro de 2023, mas pretende ser uma reflexão teológica, que seja inspiradora de “uma resposta cristã global urgente”.

Logo nas primeiras páginas o Kairos II refere: “os sionistas não querem que permaneçamos na nossa terra. O plano deles para nós é o deslocamento, a morte ou a submissão. A guerra genocida em Gaza é a continuação do projeto sionista de tomar toda a Palestina, esvaziada do seu povo palestiniano”.

Comentando a aprovação da moção, o rabino chefe do Reino Unido, Ephraim Mirvis, disse que este era “um dia triste para as relações entre judeus e cristãos”. Do seu ponto de vista, Kairos II apresenta “um relato unilateral de um conflito complexo, minimiza as experiências históricas e as preocupações legítimas do povo judeu e oferece pouco mais do que ativismo político disfarçado de teologia”.

Também o Conselho de Deputados dos Judeus Britânicos publicou um relatório para os membros do Sínodo, destacando preocupações de que especialmente o Kairos II disseminaria uma narrativa “tóxica” sobre os judeus, o que perpetuaria o conflito.

Fé cristã e relações entre pessoas do mesmo sexo – moção chumbada

Nem só da solidariedade com a Palestina de falou nesta sessão estival do Sínodo Geral. Uma outra matéria, que surgiu também através de uma moção apresentada pessoalmente por Helen King, professora em Oxford foi: “Que este Sínodo afirme que não há objeções fundamentais a um relacionamento comprometido, fiel e íntimo entre pessoas do mesmo sexo, e que tal relacionamento pode ser totalmente compatível com o discipulado cristão”.

A moção acabaria por ser trazida ao plenário por um outro membro sinodal, visto que a autora não esteve presente em Iorque, por motivo de doença.

Embora a moção tenha obtido maioria entre clero e leigos, foi derrotada, porque o Regimento do Sínodo exige que uma moção seja aprovada em cada uma das três ‘Casas’. A rejeição pela Casa dos Bispos (14 contra e 13 a favor, com 4 abstenções) foi, portanto, decisiva. O clero votou 93-79, sem abstenções registadas; e os leigos 101-83, sem abstenções registadas.

No final, a votação foi bastante menos unânime do que a relacionada com os palestinianos, mas acabaria por ser recusada, dada a norma sinodal de que uma moção, para receber aprovação deve ter maioria nas três “Casas”.

A moção foi aprovada entre os membros do Clero por 93 votos a favor e 79 contra, sem abstenções; entre os Leigos por 101-83, também sem abstenções; pelo contrário, entre os bispos 11 votaram a favor, 14 contra e registaram-se quatro abstenções.

“Esperança para toda a criação” – um documento de referência sobre a crise ambiental

Refira-se ainda que o Sínodo aprovou um importante documento oriundo da Casa dos Bispos, intitulado Hope for All Creation: a Theological Response (Esperança para Toda a Criação: Uma Resposta Teológica), com cerca de 150 páginas.

Este instrumento estrutura-se em três partes – ‘Ver, Refletir e Responder’ – e propõe uma abordagem cristã das crises ambientais enfrentadas pelo mundo. Por fim, convida as pessoas de fé a analisar o que se passa à sua volta; a discernir os sinais dos tempos e os desafios, à luz do Evangelho; e a definir e pôr em prática, local e globalmente, os projetos e iniciativas para preservar e promover a obra que Deus criou.

Segundo a Igreja da Inglaterra, o documento argumenta que o cuidado com a criação não é uma preocupação opcional, mas uma parte central do discipulado e missão cristã.

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