15 Julho 2026
"Escola, universidade, conselho tutelar e quartel formam um mapa razoavelmente completo dos montes que a teologia do domínio historicamente elege como prioritários. Cada intervalo bíblico isolado pode ser, e muitas vezes é, iniciativa genuína de adolescente buscando pertencimento num contexto de precariedade que a escola pública sozinha não supre".
O artigo é de Lucas Vinicius Oliveira dos Santos, mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia e professor da Educação Básica da Paraíba.
Eis o artigo.
Toda sexta-feira, numa sala da minha escola, aqui na Paraíba, um grupo de alunos se reúne para o que chamam de célula. Não é barulhenta. Durante a semana, os próprios alunos distribuem convites, avisam de sala em sala nos horários de aula e colam cartazes pelas salas. No Instagram do grupo, os encontros viram vídeos em cortes curtos, áudio original substituído por trilha: mãos erguidas, olhos fechados, estudantes com expressão de constrição. Não levei tempo para entender que aquilo não era um fenômeno isolado de devoção juvenil, e sim o efeito de um fenômeno nacional, com nome, estratégia jurídica e capilaridade crescente dentro do próprio aparelho de Estado.
O nome público é intervalo bíblico. A cobertura jornalística em diferentes portais situa sua origem em escolas estaduais de Pernambuco, no início de 2024, e dali o formato se espalhou por escolas de outros estados, em alguns lugares já com atividades amplificadas e presença de pregadores externos. O ciclo legislativo seguiu o ciclo da prática: câmaras municipais de diferentes regiões passaram a discutir e, em alguns casos, aprovar projetos que regulamentam o intervalo bíblico como direito assegurado por lei, e uma proposta de alcance nacional tramita na Câmara dos Deputados. O mesmo movimento chegou ao ensino superior, público e particular, com células espalhadas por diversas universidades.
Falta nomear o que amarra essas peças. O nome é teologia do domínio, ou dominionismo: corrente de origem norte-americana, associada a C. Peter Wagner e à teologia das Sete Montanhas, segundo a qual cabe aos cristãos ocupar os principais setores de influência de uma sociedade (governo, educação, família, mídia, segurança) até a nação inteira estar sob autoridade cristã. Antes, o pentecostalismo pregava aceitar o sofrimento terreno em troca da salvação individual. Essa vertente muda a lógica: quer poder concreto, agora.
O conselho tutelar é um outro campo em que essa teologia aparece de forma nua. Desde 2019, igrejas neopentecostais organizam campanhas de voto orientado para essas eleições, historicamente esvaziadas de participação popular, e levantamentos de conselhos municipais de direitos da criança já registraram maioria de conselheiros vinculados a denominações neopentecostais em grandes cidades. Quem ocupa o conselho tutelar constrói base para depois disputar vereança. E quem trata da infância e da família controla um dos pontos de maior densidade simbólica da vida social.
Na segurança pública a lógica se repete. Desde 2018 a Igreja Universal do Reino de Deus mantém um programa de assistência espiritual a policiais e bombeiros em boa parte dos estados, levando capelães não credenciados a quartéis para orações e revistas gerais de efetivo em horário de serviço. Reportagens investigativas do The Intercept já registraram batalhões inteiros, fardados, reunidos por horas dentro de templos da Universal, com casos de policiais punidos por se recusarem a comparecer. A igreja tem ligação direta com um partido cujo presidente nacional é bispo dela mesma.
Escola, universidade, conselho tutelar e quartel formam um mapa razoavelmente completo dos montes que a teologia do domínio historicamente elege como prioritários. Cada intervalo bíblico isolado pode ser, e muitas vezes é, iniciativa genuína de adolescente buscando pertencimento num contexto de precariedade que a escola pública sozinha não supre. Isso é real. Reconhecer esse vazio institucional, porém, não obriga ninguém a tratar quem o ocupa como neutro. Regulamentação legislativa coordenada entre estados, capelania paralela dentro de corporações militares, mobilização eleitoral orquestrada para conselhos tutelares, acionamento imediato de mecanismos disciplinares contra quem resiste: isso é projeto de poder articulado, não fé popular se organizando por conta própria. O que me preocupa não são os alunos reunidos toda sexta-feira. É ver escola, conselho tutelar e batalhão perdendo a pluralidade, um a um, como montes já conquistados.
Leia mais
- “Lei da Bíblia” gera descontentamento em Teresina
- Como um adolescente conseguiu que alunos não fossem obrigados a ler a Bíblia nos EUA
- A teologia do domínio: refutação de uma falácia. Artigo de Leonardo Boff
- Para entender a perigosa “teologia da dominação”. Entrevista com João Cezar de Castro Rocha
- A teologia do domínio. Artigo de Mayra Goulart e Paulo Gracino
- Religiões, política e Estado laico: como superar equívocos
- STF julga ação que pode regular ensino religioso nas escolas públicas
- Ensino religioso divide teólogos e educadores
- O que é a "diversidade" religiosa
- Francisco poderia ser a salvação da causa da liberdade religiosa
- Em Defesa do Estado Laico, Contra a Intolerância Religiosa
- Xangrilá - RS - torna leitura da Bíblia obrigatória nas escolas municipais