16 Julho 2026
"Do que mais precisamos para reconhecer o que já se tornou óbvio em todo o restante do planeta?", escreve Leonardo Becchetti, em artigo publicado por Avvenire, 10-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Leonardo Becchetti é professor de economia política da Universidade de Tor Vergata, em Roma, colunista de Avvenire e um dos fundadores da Next – Nova economia para todos.
Eis o artigo.
As ondas de calor do verão estão esquentando os ânimos e reacendendo as polêmicas sobre o aquecimento global e a transição ecológica. Somos um país apaixonado por facções, polêmicas e embates verbais, mas muito menos apaixonado pelos concretos avanços do progresso. Não existem conspirações dos termômetros e os dados científicos tornam muito difícil duvidar da elevação das temperaturas em nível global. Os planos de adaptação para combater as ondas de calor nas grandes cidades — que afetam particularmente os mais vulneráveis e as vítimas de “pobreza energética” — são agora temas do dia-a-dia.
As dúvidas remanescentes aninham-se nas causas antropogênicas e, sobretudo, na nossa capacidade de deter o processo reduzindo as emissões de gases de efeito estufa. 95% dos cientistas estão convencidos de que é necessário agir, e o princípio da precaução o impõe. Se um restaurante nos oferecesse um prato que 95% dos nutricionistas consideram cancerígeno, ninguém o consumiria no aguardo de um consenso de 100%. A transição é um imperativo não apenas sob esse ponto de vista, mas também daquele estratégico da independência energética. As três grandes ondas inflacionárias vividas nos últimos cinquenta anos — com seu impacto dramático sobre as rendas familiares e a queda de muitas famílias para a pobreza — decorreram de choques sobre os preços das fontes fósseis de energia que não controlamos, mas às quais estamos inextricavelmente atrelados. Certamente, não é a transição ecológica que é socialmente indesejável, mas sim seu contrário.
Para concretizá-la, devemos pensar em termos de “equilíbrio elétrico geral” — justamente como os economistas que, com o conceito de equilíbrio econômico geral, não olham apenas o efeito local e parcial de uma política específica, mas como ela impacta o equilíbrio de preços e mercados como um todo.
A Itália possui tanto uma grande força quanto uma grande fraqueza. Sua força são as energias criativas de seus cidadãos; sua fraqueza, os infindáveis entraves da burocracia. Há meses, o presidente da Confindustria, Orsini, vem denunciando que milhares de projetos de empresas para a construção de usinas próprias de energia renovável aguardam autorização — fala-se que o volume dos projetos pendentes ultrapassaria inclusive o necessário para atingir as metas de descarbonização. O GSE (Gestor de Serviços Energéticos) reconheceu a existência de 48.000 solicitações para a criação de comunidades energéticas em todo o país, em relação a apenas cerca de mil comunidades efetivamente em operação.
Os gargalos residem nas autorizações e nas conexões à rede.
Se maiorias e oposições, governos atuais ou futuros quiserem ser lembrados positivamente pela população, precisam fazer poucas coisas, mas claras.
Primeiro, fortalecer significativamente a comissão de Avaliação de Impacto Ambiental para acelerar o processo de autorização. O custo para as finanças públicas é zero, aliás, negativo. A comissão se autofinancia por meio das taxas pagas pelos proponentes dos projetos, sendo eventuais excedentes absorvidos pelo Tesouro. Deixar de fortalecê-la — e até mesmo atrasar o preenchimento de vagas em seu quadro — é um verdadeiro crime. Segundo, implementar rapidamente, conforme previsto pela diretiva da EU, o desconto direto na conta de energia para quem produz energia (autoprodutores, condomínios, comunidades energéticas). Essa medida já existe, sob diversas formas, em muitos países (Espanha, Portugal, Malásia, Paquistão e vários estados dos EUA). Atualmente, os autoprodutores pagam suas contas de energia integralmente — inclusive pela eletricidade que não compram, pois eles mesmos produzem e consomem — e só recebem reembolso pela produção após demoras significativos. Em vez de embarcar em tentativas quixotescas e ex post para a recuperação dos "lucros excedentes" das empresas de energia, bastaria creditar aos autoprodutores o valor que eles geram na fonte, aumentando assim os benefícios econômicos para as famílias. Terceiro, potencializar o mecanismo de leilão no qual investidores em novas usinas de energia renovável competem por um preço fixo garantido pelo Estado (e vence quem oferecer a proposta mais baixa) em troca de uma garantia bilateral (contrato por diferença) no qual o investidor é compensado se o preço de mercado cair abaixo da tarifa acordada e paga a diferença se o preço subir acima desse patamar. Essa é a melhor modalidade de alinhar os interesses do Estado, dos consumidores e dos investidores.
Não há espaço aqui para refutar todas as bobagens que circulam sobre o assunto, o fato é que o crescimento das energias renováveis reduz os preços da energia, pode ser realizado sem destruir a paisagem e é capaz de resolver todos os problemas de intermitência (com a tecnologia de armazenamento) e de superar a suposta dependência de matérias-primas produzidas em outros países (temas a serem explorados em um futuro artigo). O escândalo da transição é que, pela primeira vez, temos um caminho simples e claro para criar valor econômico, reduzir as contas de energia das famílias e os custos de produção das empresas, promovendo, simultaneamente, a nossa independência energética e realizando um significativo impacto ambiental.
A Agência Internacional de Energia Renovável (Irena) aponta que, no ano passado, mais de 90% da nova capacidade de geração de energia em todo o mundo veio de fontes renováveis. Do que mais precisamos para reconhecer o que já se tornou óbvio em todo o restante do planeta?
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