Banco de Edir Macedo teria escondido prejuízo multimilionário com manobra em fundos

Edir Macedo. (Foto: Jeso Carneiro/Flickr)

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19 Mai 2026

Documentos obtidos pelo Estadão revelam maquiagem contábil no Digimais; especialistas apontam falha de fiscalização.

A reportagem é de Kaique Dalapola, publicada por Brasil de Fato, 18-05-2026.

O Banco Digimais, instituição financeira controlada pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, utilizou uma manobra contábil com fundos de investimento para omitir prejuízos e “limpar” artificialmente os seus balanços oficiais. A informação e os documentos de auditoria interna que revelam a engenharia financeira foram publicados pelo jornal O Estado de S. Paulo.

De acordo com os documentos acessados pelo jornal, o Digimais transferiu carteiras de crédito podres (compostas majoritariamente por financiamentos de veículos com altos índices de inadimplência) para Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) exclusivos.

Como o próprio banco figura como o principal investidor e cotista desses fundos, e a gestão permaneceu sob o comando dos mesmos diretores da instituição, a prática passou a ser apontada no mercado como uma operação “Zé com Zé”, em que o banco permaneceu como dono indireto dos calotes.

A estratégia contábil permitiu ao Digimais declarar um lucro líquido de R$ 31 milhões no fechamento do ano de 2025. No entanto, a apuração do Estadão apontou que a manobra omitiu pelo menos R$ 480 milhões em créditos vencidos que deveriam ter sido deduzidos do resultado declarado, o que gerou alertas e pareceres com ressalvas por parte de auditores independentes.

Pedalada contábil

Para o economista Paulo Kliass, doutor em economia e integrante da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental, a operação desenhada pelo Digimais configura uma transferência artificial que compromete a real saúde do banco.

“Na verdade, você mantém as práticas que aparentemente estavam provocando prejuízo”, explicou Kliass. “Seja contabilmente na carteira do banco, seja contabilmente na carteira dos fundos de investimento que pertencem ao Digimais, quer dizer, é meramente uma questão de pedalada contábil, vamos dizer assim”.

A professora de economia Karina Fernandes, cientista econômica da Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana) e economista da USP (Universidade de São Paulo), concorda que o arranjo caracteriza uma distorção grave. “Se confirmado o desenho descrito nas reportagens, estamos diante de um mecanismo clássico de arbitragem contábil e regulatória”, pontuou.

Karina ressalta que o problema central surge “quando a operação parece ser desenhada para tirar perdas do balanço sem transferir efetivamente o risco econômico do banco”. Ela acrescenta que, ao remover centenas de milhões em créditos problemáticos e reduzir provisões, o banco “transmite ao mercado, aos investidores e ao regulador uma imagem de solvência potencialmente mais robusta do que a realidade”.

O resultado direto dessa dinâmica, segundo a economista, é a criação de uma assimetria de informação. “O mercado, os correntistas e até investidores institucionais passam a olhar para um balanço que parece mais saudável do que talvez seja na prática. Isso compromete a transparência, que é um dos pilares da regulação bancária”.

Indícios de fraude

As irregularidades contábeis que permitiram ocultar perdas dessa magnitude também acendem um alerta vermelho sobre a eficácia da fiscalização exercida pelo Banco Central e pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). De acordo com as apurações do Estadão, a Polícia Federal já investiga o Digimais por supostas fraudes.

Para Kliass, o cenário evidencia uma falha crônica da autoridade monetária. “Do ponto de vista da regulação bancária, isso é efetivamente uma tarefa do Banco Central. É sabido que os bancos recorrem a esse tipo de falcatrua, na verdade de maquiagem, porque ela esconde a real saúde financeira do banco”.

O economista explica que o fenômeno decorre de um processo de “captura” institucional das agências públicas pelo poder econômico. “Acontece, no caso do Banco Central, a mesma coisa que as outras agências reguladoras: as direções desses organismos, que são públicos, acabam sendo capturadas pelos interesses das empresas que atuam no setor e que eles deviam justamente fiscalizar”, afirma Kliass.

Como consequência da deterioração de seus ativos e após passar mais de um ano em crise profunda, o desfecho do Banco Digimais envolve uma negociação de venda ao BTG Pactual. Para viabilizar a transação por meio de um processo competitivo de leilão, as instituições acionaram um mecanismo de suporte financeiro junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

A engenharia financeira para salvar a instituição gerou comparações imediatas nos bastidores do mercado com o caso envolvendo o Banco Master e a tentativa frustrada de compra pelo Banco de Brasília (BRB). Para Karina Fernandes, há uma semelhança técnica nítida no que diz respeito à opacidade patrimonial.

“Nos dois casos aparece uma pergunta semelhante: o balanço reflete adequadamente o risco real da instituição?”, questionou a economista, apontando que o problema central “é o grau de opacidade sobre onde o risco está efetivamente concentrado”.

Em relação à atuação do FGC, Karina destaca a contradição de usar o fundo de proteção coletiva para subsidiar grandes compradores privados. “Quando um grande banco compra uma instituição fragilizada com apoio de mecanismos do fundo, o que muitas vezes acontece é uma espécie de socialização parcial do prejuízo e privatização do ganho”, criticou a especialista.

Paulo Kliass corrobora a análise e define a linha de assistência do FGC em aquisições dessa natureza como um incentivo distorcido, frequentemente interpretado pelo mercado como uma manobra ou subsídio. “Na verdade, é uma forma de você passar ao largo das dificuldades do Digimais e reduzir o risco do próprio BTG, que estaria comprando o banco”, disse o economista.

Kliass afirma que o mecanismo é visto como apoio público indireto “porque provavelmente o BTG não faria isso apenas com seus recursos próprios”.

Procurados formalmente pelo Brasil de Fato para se manifestarem sobre as auditorias, a destinação das carteiras inadimplentes e os termos da venda, a Igreja Universal do Reino de Deus não enviou resposta até o fechamento desta matéria. A reportagem não conseguiu contato com o Banco Digimais.

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