28 Abril 2026
Cerimônia de abertura, realizada na manhã de sábado (25) na reitoria da UFRGS, destacou a importância da memória.
A informação é de Fabiana Reinholz, publicada por Brasil de Fato, 27-04-2026.
“Retalho que vira voz, linha que conta o que ficou: mulheres bordam a dor que o mundo tentou calar. Não é só pano, é denúncia, é memória costurada à mão, histórias de luta e ausência virando força e união. Arpilleras são isso: quando tudo tenta apagar, a gente junta os pedaços… e começa a contar uma história.”
O trecho integra um poema do Movimento dos Atingidos e Atingidas por Barragens (MAB) apresentado na abertura da exposição “Arpilleras: Memória e resistência na crise climática”, realizada no saguão da reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. A mostra, que marca os dois anos da grande enchente de 2024 no estado, é viabilizada por meio de parceria entre o MAB e a universidade.
Durante a cerimônia de abertura, na manhã do último sábado (25), foi destacada a importância da memória e da denúncia frente aos impactos ainda presentes da tragédia climática. Com entrada gratuita, a visitação segue até junho.
A exposição reúne 20 arpilleras: nove do Rio Grande do Sul, duas do Distrito Federal, duas de São Paulo, duas do Piauí, uma da Bahia, duas do Pará e duas da Amazônia. A mostra fotográfica apresenta também 16 registros dos efeitos da crise climática no país, com imagens das enchentes no estado, dos deslizamentos em São Sebastião (SP) e Petrópolis (RJ) e da seca na Amazônia, incluindo registros da estiagem do rio Madeira, em Porto Velho (RO).
A abertura contou com uma mística que encenou a crise climática. Integrante da coordenação do MAB, Maria Aparecida Castilhos Luz, a Cida, explica que a construção da mística da abertura do evento foi coletiva, com a participação das coordenadoras.
A encenação retomou o momento da enchente, com as atingidas mostrando a água subindo, as pessoas pedindo socorro e tentando salvar o que podiam, enquanto perdiam praticamente tudo, inclusive suas memórias afetivas.
Neste contexto, explica Cida, as arpilleras aparecem como forma de expressão. “Elas permitem comunicar sentimentos que muitas vezes não conseguimos colocar em palavras. Ao costurar, as mulheres conseguem colocar para fora o que sentem.”
A mística também resgatou a solidariedade durante a crise climática e as ações do movimento. “Foram produzidas cerca de 180 mil marmitas nas cozinhas solidárias, além da distribuição de itens como roupas, água e materiais de limpeza.”
Memória, denúncia e organização coletiva
Para a coordenadora nacional do MAB, Alexania Rossatto, as arpilleras resgatam uma tradição de luta e denúncia. “As arpilleras são um resgate da memória da luta das mulheres chilenas contra a ditadura, que utilizavam essa arte para denunciar o que se vivia nas décadas de 1960 e 1970, no Chile. Para mim, um dos significados é trazer essa memória de luta, que nos inspira a denunciar a situação dos atingidos no Brasil.”
Segundo ela, os bordados também funcionam como registro recente da tragédia e alerta para o futuro. “Nessa exposição, as arpilleras fazem memória de tudo o que vivemos na enchente, mas também nos lembram do que não podemos esquecer: a crise climática, que nos assola todos os dias. A gente vê que, no Rio Grande do Sul, há possibilidade de novas enchentes. Por isso, precisamos criar condições para que as famílias não sofram novamente como sofreram há dois anos.”
Conforme pontua Rossatto, as obras resgatam a vida, a dignidade e a consciência do coletivo, porque são feitas de forma coletiva. ”Também reforçam a necessidade de organização para lutar e garantir direitos“, complementa.
O trabalho com arpilleras pelo MAB ocorre desde 2013 em âmbito nacional com exposições em diferentes estados, como Rio de Janeiro e São Paulo. No Rio Grande do Sul, esta é a quinta exposição. “É uma forma de apresentar à sociedade nossa produção, nosso trabalho e nossa arte, alcançando também pessoas que não têm contato cotidiano com o movimento,” diz a coordenadora.
Dois anos depois, atingidos seguem sem moradia e proteção
Ao comentar os dois anos após a enchente, Rossatto diz que a realidade ainda é de precariedade. Segundo a coordenadora, muitas famílias seguem em situação difícil.
Ela lembra que os efeitos de desastres se prolongam no tempo e cita o caso de Minas Gerais, onde, mesmo após mais de uma década do rompimento de barragens, as famílias ainda enfrentam condições adversas.
Para a dirigente, no caso do Rio Grande do Sul, as ações emergenciais foram importantes, mas insuficientes. A atuação inicial, como as cozinhas solidárias, “foi fundamental”, mas, como ressalta, não resolve a situação das famílias. “É preciso organização para uma luta de longo prazo.”
No cotidiano, a precariedade permanece visível. Rossatto relata que ainda há casas sem condições mínimas de habitabilidade, com falta de itens básicos e estrutura comprometida. “Ainda encontramos casas sem cortinas, sem sistema elétrico restaurado ou em condições precárias”, afirma, destacando também a permanência da insegurança alimentar e da vulnerabilidade social.
Outro ponto crítico é a ausência de infraestrutura de proteção contra cheias. Segundo ela, o sistema na Região Metropolitana segue longe de ser restabelecido e, em áreas como o Vale do Taquari, a situação é ainda mais grave, com rios que voltam a subir rapidamente a cada novo episódio de chuva. Diante disso, questiona: “O que acontece com essas famílias? O que fazer nessas situações?”
Rossatto reforça que a resposta não pode recair apenas sobre os atingidos ou movimentos sociais. “Essa não é uma tarefa do MAB, mas do Estado brasileiro, em todas as suas esferas.”
No campo da moradia, o cenário segue crítico. Rossatto aponta que o déficit habitacional ultrapassa 100 mil unidades e critica o ritmo das entregas. De acordo com ela, foram entregues apenas 176 casas pelo governo do estado. Sobre o governo federal, reconhece avanços, mas avalia que ainda são insuficientes. “Está muito distante da necessidade, com cerca de 10.500 unidades.”
Universidade reforça memória e alerta para novas cheias
A reitora da UFRGS, Márcia Barbosa, destacou a importância da relação entre a universidade e os movimentos sociais, afirmando que esse vínculo faz parte da própria trajetória da instituição. “É fundamental que a universidade esteja vinculada aos movimentos sociais, como historicamente sempre esteve.”
Ao abordar o contexto da crise climática, fez um alerta sobre a importância da memória como ferramenta de preparação. Para ela, há uma tendência ao esquecimento que precisa ser enfrentada. “É preciso lembrar o que aconteceu”, afirmou, ressaltando que as evidências científicas indicam a ocorrência de novas enchentes e a necessidade de preparo coletivo.
Ela também convidou a população a ocupar os espaços da universidade e conhecer a exposição. Segundo Barbosa, a Reitoria é um espaço público aberto à comunidade. “Convidamos todos a conhecer essa exposição e outras iniciativas culturais da universidade.”
Bordado como expressão, memória e futuro
Moradora de Viamão, na Região Metropolitana de Porto Alegre, a arpillera Olga Beatriz Ferreira dos Santos Marques relata que a participação no processo foi positiva e marcada pela troca entre as mulheres. Segundo ela, o trabalho coletivo foi fundamental. “Foi uma experiência muito positiva. Gosto desse tipo de trabalho e foi importante podermos nos ajudar.”
Ela explica que o bordado funciona como uma forma de expressão diante de experiências difíceis de verbalizar.
A prática, segundo conta, vem de longa data. Olga aprendeu ainda na infância, com a avó, e hoje encontra sentido também em compartilhar esse conhecimento. “Tenho prazer em ensinar.”
Ao projetar o futuro, aponta a necessidade de mudança de comportamento em relação ao meio ambiente. “Espero mais consciência das pessoas em relação ao impacto das nossas ações.”
Linha, arte e denúncia
Curadora da exposição, a integrante da coordenação do MAB, da Lomba do Pinheiro, Suelen Corrêa Fagundes afirma que ser arpillera é um processo de entrega e expressão coletiva. Segundo ela, o trabalho permite elaborar vivências marcadas pela luta e pela resistência. “Ser arpillera é um momento de entrega, em que consigo expressar minha vivência, minha luta e minha resiliência junto a outras mulheres.”
Ao refletir sobre o simbolismo da linha, destaca que ela carrega múltiplos sentidos. Pode representar continuidade, mas também interrupção e, no contexto atual, expressa a permanência das demandas das atingidas. “A linha pode representar muitas coisas. Ela não tem fim, mas também pode ser interrompida. Para nós, hoje, representa a necessidade de mostrar que nossas pautas ainda não foram atendidas.”
Ela conclui destacando o caráter político das obras. As arpilleras, afirma, não são apenas expressão artística, mas também instrumento de denúncia. “Por meio delas, as mulheres atingidas mostram o que viveram durante a enchente e os efeitos da crise climática.”
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