22 Abril 2026
As Nações Unidas alertam que 4 de cada 10 guerras nas últimas seis décadas nasceram do controle de recursos naturais. Diante disso, a ONG Manos Unidas recorda que a paz também se constrói defendendo a casa comum — algo para recordar no Dia da Terra.
A informação é de Manos Unidas, publicada por Religión Digital, 22-04-2026.
Desde disputas pelos recursos que a Amazônia oferece até cortes ilegais no Camboja, a luta pela terra, pela água e pelas florestas alimenta alguns dos conflitos mais intensos do planeta.
Em 2024, o relatório Global Resources Outlook, realizado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), advertiu que a extração mundial de recursos naturais (minerais, combustíveis fósseis, biomassa e materiais de construção) crescerá 60% até 2060 (em relação a 2020), esgotando ecossistemas e desencadeando guerras por terra fértil, água e minerais.
De acordo com o PNUMA, pelo menos 40% dos conflitos internos no mundo durante os últimos 60 anos estiveram vinculados à exploração de recursos naturais.
"Essas tensões territoriais não apenas destroem vidas por meio de guerras e violência, mas devastam ecossistemas e deixam comunidades sem recursos, sem esperança e sem capacidade de enfrentar emergências climáticas", afirma Marco Gordillo, coordenador do departamento de Alianças e Incidência da Manos Unidas.
A paz não é apenas a ausência de guerra, mas a possibilidade de viver em terras seguras, sãs e habitáveis — algo que a Corte Internacional de Justiça das Nações Unidas reconhece como o direito humano a um meio ambiente saudável.
Manos Unidas no Dia da Terra
A Manos Unidas sublinha que o Dia da Terra é uma oportunidade para recordar que a crise climática, a desigualdade e os conflitos pelos recursos não são realidades separadas, mas parte de um mesmo problema global que exige respostas centradas nas pessoas e nos territórios. "O meio ambiente continua sendo 'a vítima esquecida' das guerras. Defender a terra, as florestas e os meios de vida é também uma forma de construir a paz."
Três territórios onde proteger a Terra é alimentar a paz
No Peru, a expansão da mineração gerou uma crise ambiental e de segurança.
"Na América Latina e no Caribe, a mineração tem um rosto sombrio e práticas devastadoras. As extrações foram realizadas sem ouvir as comunidades locais, sem respeitar os direitos dos povos indígenas, para os quais a terra é tudo, e sem considerar os limites dos ecossistemas. Sem respeito", afirma Yolanda Flores, liderança aimara e membro da DHUMA-Puno (Direitos Humanos e Meio Ambiente), organização que pertence à rede Muqui, plataforma peruana que defende os direitos das comunidades e o desenvolvimento sustentável frente à atividade mineradora, em nível local e internacional.
Atualmente, dois projetos de lei estão em tramitação legislativa e colocam em risco os povos indígenas e as comunidades camponesas: o primeiro abriria todas as Áreas Protegidas do Peru à mineração e à extração de gás e petróleo; o segundo abriria a projetos de extração de gás uma enorme zona da Amazônia peruana, lar de um grande número de povos indígenas. O trabalho da Manos Unidas reforça, por meio da Rede Muqui, a capacidade organizativa e a incidência das comunidades para criar um ambiente no qual as próprias populações afetadas possam liderar a defesa de seus direitos humanos e ambientais de maneira autônoma.
Em Serra Leoa, país que ocupa o posto 185 de 193 no último Índice de Desenvolvimento Humano, estima-se que 8 de cada 10 habitantes das comunidades mineiras de Kono vivem em pobreza absoluta.
Ali, a Manos Unidas, junto com o Centro Chesterton, apoia a reabilitação de terras improdutivas devidas às atividades mineiras artesanais indiscriminadas para convertê-las em espaços de cultivo e produção; impulsiona cooperativas e promove sua restauração ambiental e meios de vida alternativos, mais inclusivos e sustentáveis, que permitam às comunidades reduzir sua dependência do setor mineiro.
"Agora somos conscientes de que a mineração foi prejudicial para nossas comunidades e, hoje, é a principal razão de nossa pobreza e falta de alimentos", afirma Konningbeya, presidente da cooperativa de Bandafaye.
Enquanto isso, no Camboja, aproximadamente 75% da população vive em zonas rurais e depende em grande parte das florestas para seu sustento. Entretanto, muitas dessas florestas sofrem cortes ilegais constantes, saques por parte de furtivos e indústrias, queimadas — num contexto agravado pela seca e pela crise climática.
Diante dessa realidade, a Manos Unidas trabalha junto à Missão Jesuíta no Camboja em comunidades florestais e escolas rurais para proteger essas florestas. O projeto combina patrulhamento comunitário, reflorestamento e educação ecológica prática para crianças e jovens (hortas, viveiros, plantio de árvores), com o objetivo de fortalecer a consciência ambiental e a participação ativa na defesa do entorno como parte de sua vida cotidiana. "O foco mais importante está nos estudantes, porque são as gerações que realizarão as mudanças em suas famílias e na vida de suas comunidades", sustenta Ramón Álvarez, coordenador do departamento de Ásia da Manos Unidas.
Em 2025, a Manos Unidas destinou mais de um milhão de euros a projetos na Ásia, nas Américas e na África nos quais promove a sustentabilidade ambiental e a luta contra a crise climática junto a seus parceiros locais.
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